IMPOSTÔMETRO, SONEGÔMETRO, E AGORA, O PERDÂOMETRO

Por Valentin Ferreira

Fala sério…

Dia desses, Impostômetro e Sonegômetro se encontraram em Curitiba. Não se sabe porque em Curitiba.

Olhares desconfiados marcam os primeiros momentos. Sozinhos num canto da praça, tentam uma primeira conversa. Rodeio daqui rodeio de lá, e nada.

Impostômetro tenta quebrar o gelo, e fala grosso!

-Meus números são bem maiores que os seus. Já estou na casa dos 700 bilhões, só este ano. Olha você. Não passou dos 178 bi!

Sonegômetro não perdeu a compostura. Mas rebateu, indo direto ao ponto:

-Se for para comparar que tal falar sobre causas e consequências. Veja bem, qual é a razão da sua existência, questionou. Quem o criou? O fez para mostrar às pessoas o quanto pagam de tributos, certo? Até com certa razão, porque em muitos casos o Estado é um mal gestor.

-É isso, bradou Impostômetro.

-É.

-Mas o mais curioso é que a sua existência, ensejou a minha, isso você não comenta.

Impostômetro que começou a conversa na ofensiva começa a resmungar, e em voz baixa se pergunta:

-Será que o que eu mostro é para justificar o que não mostro?

Esperto, Sonegômetro ouviu e sem titubeio, foi na ferida.

-Matou na mosca.

E completou:

-Acho que só existo por causa por isso.

–E digo mais: você meu caro   Impostômetro seria muito mais honesto se mostrasse sua cara por inteiro, ou seja, ao invés de mostrar os 700bi deveria mostrar 878bi. Aí eu nem existiria. Na boa, entendeu?

Impostômetro acuado, e sem jeito, momentaneamente ficou calado. Instantes depois, recobrou a linha:

-Meus criadores dizem que estou pesado demais. Você já pensou se tivesse que incorporar você também?

Sonegômetro, foi na lata:

-Com certeza teríamos um Estado equilibrado, um povo bem atendido nas suas necessidades básicas com cidadania plena. Seria quase o ideal.

Na medida em que Sonegômetro argumentava, o Impostômetro ia ficando mais retraído. Sua presença ali num encontro inesperado o deixara aparentemente deprimido. Era a primeira que sofria tantos questionamentos, e quase sem condições de rebater. Afinal seu interlocutor o incomodava, pela simples razão de existir. E daquele porte.

Sem muito argumento, Impostômetro tentou justificar:

-É verdade que o que eu deveria mostrar os 878Bi ou até muito mais e não os 700 bis que aqui está. Lembra dos desfiles dos patos amarelos? Que hipocrisia tudo aquilo. Quantos deles devem ter ficado amarelo de vergonha!

-Ué, por quê, perguntou Sonegômetro.

-Porque os patos entraram de gaiatos oras bolas. Como muitos por aí que se vestiram com a mesma cor.

-Não se avexe, falou Sonegômetro tentando algum consolo. Eu também tenho meus momentos de vergonha.

E explicou:

-Dias desses, um grande número que fazia parte de mim, uns R$ 25 bi, foram perdoados. E sabe quem foi o sortudo:  Um  grande banco. Então, cheguei à conclusão que os GRANDES números, aqueles que não passam por você, e deveriam passar por mim, têm ido direto para um o novo e grande irmão nosso.

Com tristeza completou:

-Ainda nem colocaram à vista do povo: Acho até que não vão colocar.

Fale logo, questionou impaciente Impostômetro.

-É o PERDÃOMETRO. Esse vai ser folgado. Nem vai aparecer. Ninguém vai se interessar em mostrar sua cara por aí. Sabe por quê: Quem são os maiores beneficiados?

Triste né.

Inconformados, decidiram dar um pulinho até a 13ª, porém, não escondiam o mal pressentimento.

-Acho que o nosso caso, não vem ao caso, lamentou Sonegômetro.

Por Valentin Ferreira