SOMOS OTÁRIOS DOMINADOS POR CÍNICOS?

Por Valentin FerreiraImagem: Reprodução

SOMOS OTÁRIOS DOMINADOS POR CÍNICOS?

Por Valentin Ferreira

Em seu recente livro Ridículo Político, editora Record, a escritora  Marcia Tiburi, analisa e dá “novo” entendimento à “dialética do senhor e do escravo” de Hegel, agora na pele do “cínico e do otário” em destaque no capítulo 22.

Escreve a autora que, na versão de Hegel o poder e a liberdade estavam em jogo na luta entre as partes. A disputa era entre quem mandava e quem obedecia. “Era a luta que emanciparia o mais forte”

Trazendo o contexto para os dias atuais, escreve a autora que  “agora temos a dialética entre o cínico e o otário. Diz: “pensemos numa relação inevitável depois que a política sofreu um intenso esvaziamento. A qualidade da relação política é que modificou. Agora, o senhor é o cínico e o escravo é o otário. Já não há mais luta pelo poder ou pela liberdade porque o otário, menos do que o escravo, não tem a menor chance. Chance de consciência.”

Enfatiza a autora que a consciência foi aniquilada. E esclarece: “Envenenado por doses altíssimas de programas televisivos, dopado pelos religiosos neoliberais, pelas ofertas do campo do consumo, o otário não é capaz de virar o jogo porque não tem consciência do que fazem com ele. A consciência é só o que liberta do cínico e, no entanto, ela está indisponível. Seria uma espécie de antídoto, mas, sem ironia e literalmente, ele está em falta no mercado”.

E na relação entre cínico e otário, este não tem chance: “O fato é que qualquer pessoa fica sem parâmetro diante de um cínico. Ele acaba com seu adversário ao colocá-lo na posição de otário. Para isso basta colocar a máscara de cínico”.

E onde estaria a verdade? “As pessoas confiam no que lhes é apresentado como verdade, ainda que ela não tenha mais valor” (grifo do blog). O fato é que a verdade é o efeito de uma operação simbólica… e o cínico é aquele que aprendeu a dessimbolizá-la”

“Como o cínico consegue essa façanha de colocar os outros todos na posição de otários? Ajudando a formar otários, preparando o terreno no qual a dialética transformará o otário em um novo cínico. Uma comunidade cínica se a avizinha”

Sentencia: “Todo autoritarismo é solo fértil e, adubando com indústria cultural e religião de mercado, o fruto é conhecido…” E questiona: “Quem são os otários de nossa época”? Resposta: “Há otários em todas as esferas, em todas as profissões e instituições. O otário se forma com uma mídia e uma religião cínicas e manipuladoras, é preparado para acreditar em tudo o que lhe oferecem dentro de um programa de rejeição ao diferente…Ele não se pergunta jamais, porque a dúvida, não sendo útil, não é oferecida pelo sistema cínico”.

Aqui entra o novo-velho discurso da “não política”, onde a  escritora joga luz para a reflexão: “Cínicos são os que acionam a armadilha da não política; os otários são os que caem no elogio da vida sem política. Os otários satisfazem os cínicos”.

“O discurso de que a política acabou, de que os políticos são todos corruptos, é o discurso que o otário ganha de presente do cínico criado no grande sistema de produção do cinismo que é o capitalismo. É como se o cínico avisasse que o poder tem dono, e que esse dono não é o povo para quem ele fala. Se o povo cai em sua cilada, ele deixa justamente de ser povo e se torna otário”.

É neste fértil campo que prospera “a política dos sem política”, uns com poder, os cínicos; outros sem poder, os otários. Na posição de pobres coitados políticos (como analfabetos que fingem saber escrever), negam o que fazem”.

Marcia  finaliza este capítulo  dizendo que “ o círculo do poder é sustentado por todos os que caem em ideologias espontâneas: pobres neoliberais, por exemplo. Há muitos, mas fiquemos com este exemplo para a reflexão do momento e exercitemos nossa imaginação para pensar nos demais.”

Sob as sombras de um momento difícil que estamos passando, onde  manipulações  tramadas e executadas pelos donos do poder intensifica a produção de cínicos e otários, e sob o carimbo do “ridículo”  está todo o  tipo de cinismo.

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