FÁBULA DA CRIAÇÃO DA MENTIRA

Postado por Valentin Ferreira

Não é a mentira, a melhor arma a ser usada contra os que tentam combatê-la?

Por Evaldo D’ Assumpção*  / Dom Total

Conta-se que há muitos e muitos anos, talvez séculos, com certeza milênios, quando o tempo nem sequer existia, pois o universo ainda não havia sido criado – era só um projeto do Criador – já havia o mundo espiritual, composto de criaturas que hoje chamamos de anjos. Para melhor distribuição de suas tarefas, o Criador – único que nunca fora criado, pois simplesmente ele era, como afirmou para Moisés diante da sarça ardente: “Eu sou aquele que sou” – distribuiu os anjos em grupos, formando uma “hierarquia angélica”. Ela era composta das seguintes categorias:  Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos, na qual os Serafins constituíam o grupo mais elevado. Não em poderes ou valores como os ideamos, mas em iluminação divina, que lhes dava sabedoria, conhecimento e amor, entre outras qualidades superiores. Talvez para não despertar vaidades nem competições, deu ao conjunto o nome do último grupo da hierarquia: anjos. Por isso, independentemente de sua posição hierárquica, todos passaram a ser conhecidos como anjos. Assim permanece, e assim será por toda a eternidade.

Todavia, o inimaginável cuidado divino de prevenir surtos de superioridade em alguns deles, não conseguiu impedir que tal acontecesse. Afinal, como não podia ser diferente, o Criador havia lhes dado, como depois daria também a toda a humanidade, o livre-arbítrio. Dom preciosíssimo que permite a tomada de decisões, e a seleção dos caminhos que se quer seguir, obviamente com todas as consequências da escolha feita. Lúcifer, cujo nome vem de luz, era o primeiro dos Serafins. Ao saber que o Criador iria enviar seu Filho único ao Planeta Terra – ínfima unidade do Universo por ele planejado – e que ali ele se tornaria temporariamente humano, como todos os humanos que o habitariam, Lúcifer ficou extremamente revoltado. Isso porque, julgando-se muito superior aos humanos, se o Filho de Deus se tornasse um deles, certamente todos os anjos continuariam submetidos a Jesus, mesmo em sua humanidade. Muito irritado, fez uma reunião com outros anjos cooptados pela sua imensa capacidade de persuasão, e proclamou em tom desafiador: “Non serviam!” Ou seja, “Não servirei!”. E com isso, ele e seus seguidores foram expulsos do Paraíso. Tempos depois, o mesmo Jesus afirmou: “Vi satanás caindo sobre a Terra como um relâmpago”.

Perdendo sua posição nos céus, Lúcifer tratou de organizar seu grupo na Terra para dominá-la, e nela fazer o seu reino. Depois de muita pensar, concluiu que nenhuma arma seria mais eficiente para isso, do que o oposto da verdade, e a ela deu o nome de mentira. Estava criada a arma mais poderosa de todos os tempos, quase infalível para atingir seus objetivos.

Sua primeira vítima foi a própria humanidade na figura do casal primevo, aquele que na metáfora bíblica acreditou na mentira da serpente sobre o fruto da árvore proibida. Adão e Eva foram expulsos do Éden, tendo então de assumir as agruras desse mundo.

Daí em diante, miríades de mentiras foram infectando a humanidade, gerando discórdias, agressões, guerras, assassinatos, numa progressão assustadora. Por inspiração de Lúcifer e seus asseclas, única maneira deles atingirem os humanos, estes foram se acostumando com o uso das mentiras. Descobriram inúmeras vantagens no seu uso, aprendendo rapidamente a desenvolver novas e sofisticadas formatações para o mentir. Nelas incluíam o enganar, o trair, o disfarçar, o subornar, o roubar, o corromper, o adulterar, o caluniar e especialmente, a mais insidiosa e corrosiva de todas elas, a hipocrisia. Cada uma aplicando, em diferentes formas, o princípio fundamental da mentira, que é mostrar ou oferecer algo aparentemente belo, bom, ético, útil ou agradável – muitas vezes, o próprio mentiroso – mas trazendo detrás de sua aparência sedutora, uma realidade totalmente oposta, sórdida, deletéria, para as suas vítimas.

Os primeiros descobridores enganaram os nativos com bugigangas. Governantes mentiram, como continuam mentindo para o povo, prometendo tudo e não lhes dando nada, ou somente migalhas. Hoje, sob a forma da hipocrisia, é amplamente utilizada pelos políticos, por juízes, falsos pastores, gurus e guias religiosos, que se apresentam como anjos, sendo diabos, na verdade. A mentira grassa no mundo das diversões, na sociedade, no âmbito familiar, nas escolas, no comércio, na indústria, nos meios de comunicação, nas finanças, nas igrejas, e principalmente na administração pública. Como erva daninha vai ocupando todos os espaços, a ponto de se tornar quase impossível, nesse tão denso cipoal, vislumbrar qualquer resquício de verdade. Não é sem razão que dizem ser Lúcifer o pai da mentira, sempre exultando ao contemplar os resultados de sua melhor criação, sua filha mais dileta.

E no final dessa fábula, deixo uma pergunta: será que também ela é uma mentira? Pois não é a mentira, a melhor arma a ser usada contra os que tentam combatê-la? Se a mentira é uma mentira, ela não existe. É uma farsa. Por que então nos preocuparmos? Fica posta a questão. Mas, por favor, procurem responde-la sem mentir para si próprios.

 

*Evaldo D’ Assumpção é médico e escritor

 

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