10 DE MAIO: NÃO COMBINARAM COM OS RUSSOS E LULA SE FEZ GARRINCHA -VÍDEO

Por: Fábio Lau /conexaojornalismo.com.br

A estratégia é perceptível: teriam que cercear no limite do aceitável os direitos da defesa de Lula. Como assim? Primeiro, impedindo que fizesse uso do que faz de melhor – conversar com o povo seja no palanque ou mesmo em vídeo – TV ou Internet. Assim, Sérgio Moro vetou inicialmente e o Tribunal Regional Federal ratificou a decisão que fere de morte um artigo legal – o direito de fazer imagem é garantido pela legislação. Diz o artigo 367 do Código Penal:

Art. 367 (…)

§ 5º A audiência poderá ser integralmente gravada em imagem e em áudio, em meio digital ou analógico, desde que assegure o rápido acesso das partes e dos órgãos julgadores, observada a legislação específica.

§ 6º A gravação a que se refere o § 5º também pode ser realizada diretamente por qualquer das partes, independentemente de autorização judicial”

Mas apenas isso não seria o suficiente para garantir que o adversário entraria minado em campo. A partir daí contaram com uma juíza que tentou anular aquilo que daria força moral ao depoente: remover a multidão de ativistas que seguia para Curitiba. Em vão. A decisão foi revista porque ia além do dito “aceitável”.

Um juiz deu ganho a um velho pedido de reintegração de posse exatamente na área onde os ativistas ficariam acampados.

Mas havia outras cartas na manga: o fechamento do Instituto Lula e a suspeição, dita e repetida na TV, de que a instituição guardaria alguma suspeita de irregularidade. Para isso o acionado foi um juiz do DF já habituado a agir em desfavor de Lula.

Por último, o golpe fatal que, acreditaram, desmoronaria Lula emocionalmente: a revelação de que Dona Marisa Letícia, morta há dois meses, teria sido a “mentora intelectual” da criação do Instituto. A notícia chega via um amigo do ex-presidente, José Carlos Bumlai. Uma espécie de psicografia levada aos anais.

Mas eis que, com todos os planos executados, Lula chegou altivo em Curitiba e nada do que foi dito ou tramado inibiu os desmotivou a militância – cerca de 30 mil pessoas. Lula vive, nesta quarta-feira (10), antes do seu depoimento, o seu momento Garrincha: em 15 de junho de 1958, diante da temível e insuperável seleção russa, o técnico Feola chamou Garrincha, até então reserva, para fazer e acontecer contra a defesa adversária. Garrincha, moleque, ouviu e no final perguntou:

– Mas o senhor já combinou com os russos?

A bola rolou e Garrincha entortou os adversários. O Brasil ganharia por 2 a 0 e arrancaria para o título. Portanto, o que a turma esquece, é que muitas vezes é necessário combinar com os russos. Garrincha vive neste dia 10 na figura de Lula!

Garrincha driblou os russos
Garrincha driblou os russos

Nelson Rodrigues escreveria sobre aquele dia, em que um Manoel (mas poderia ser Luís) driblou os poderes inquebrantáveis do mundo com seu molejo e verdade.

“E eis que, pela primeira vez, um “seu Manuel” é o meu personagem da semana. Com esse nome cordial e alegre de anedota, ele tomou conta da cidade, do Brasil e, mais do que isso, da Europa. Creiam, amigos: o jogo Brasil x Rússia acabou nos três minutos iniciais. Insisto: nos primeiros três minutos da batalha, já o “seu” Manuel, já o Garrincha, tinha derrotado a colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E notem: bastava ao Brasil um empate. Mas o meu personagem não acredita em empate e se disparou pelo campo adversário, como um tiro. Foi driblando um, driblando outro e consta inclusive que, na sua penetração fantástica, driblou até as barbas de Rasputin.

Amigos: a desintegração da defesa russa começou exatamente na primeira vez em que Garrincha tocou na bola. Eu imagino o espanto imenso dos russos diante desse garoto de pernas tortas, que vinha subverter todas as concepções do futebol europeu. Como marcar o imarcável? Como apalpar o impalpável? Na sua indignação impotente, o adversário olhava Garrincha, as pernas tortas de Garrincha e concluía: “Isso não existe!”. E eu, como os russos, já me inclino a acreditar que, de fato, domingo Garrincha não existiu. Foi para o público internacional uma experiência inédita. Realmente, jamais se viu, num jogo de tamanha responsabilidade, um time, ou melhor, um jogador começar a partida com um baile. Repito: baile, sim, baile! E o que dramatiza o fato é que foi baile não contra um perna-de-pau, mas contra o time poderosíssimo da Rússia.

Só um Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor pelota para a rainha Vitória, o lord Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a Comunidade Britânica. Com esse estado de alma, plantou-se na sua ponta para enfrentar os russos. Os outros brasileiros poderiam tremer. Ele não e jamais. Perante a plateia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que caça cambaxirra com espingarda de chumbo e que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro.

Antes de começar o jogo, o seu marcador havia de olhá-lo e comentar para si mesmo, em russo: “Esse não dá pra saída!”. E, com dois minutos e meio, tínhamos enfiado na Rússia duas bolas na trave e um gol. Aqui, em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso ser brasileiro.

Está claro que não estou subestimando o peito dos outros jogadores brasileiros. Deus me livre. Por exemplo: cada gol de Vavá era um hino nacional. Na defesa, Bellini chutava até a bola. E quando, no segundo tempo, Garrincha resolveu caprichar no baile, foi um carnaval sublime. A coisa virou show de Grande Otelo. E tem razão um amigo que, ouvindo o rádio, ao meu lado, sopra-me: “Isso que o Garrincha está fazendo é pior do que xingar a mãe!”. Calculo que, a essa altura, as cinzas do czar haviam de estar humilhadíssimas. O marcador do “seu” Manuel já não era um: eram três. E, então, começou a se ouvir, aqui no Brasil, na praça da Bandeira, a gargalhada cósmica, tremenda, do público sueco. Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abaixo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo algum. Garrincha estava ali com a mesma boa-fé inefável com que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os pardais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os adversários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau Grande.

Calculo que, lá pelas tantas, os russos, na sua raiva obtusa e inofensiva, haviam de imaginar que o único meio de destruir Garrincha era caçá-lo a pauladas. De fato, domingo, só a pauladas e talvez nem isso, amigos, talvez nem assim”.

Fonte: http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/politica/geral/-de-maio-nao-combinaram-com-os-russos-e-lula-se-fez-garrincha-video-74-47020