EMPRESTA UMA XÍCARA DE AÇÚCAR ?

Por: Valentin Ferreira

 

Não teria sido gestos como este os primórdios da economia solidária?

Nasci e cresci na área rural. Eram fazendas onde residiam famílias com muitos filhos. Foi neste ambiente que até aos dezoito anos de idade aprendi princípios e valores que marcaram para sempre minha vida.

A maioria das famílias mantinha uma pequena horta nos fundos do quintal. Galinhas soltas no terreiro, e um porquinho que engordava na ceva. Nos finais de semana no almoço, as vezes tinha macarronada e um pedaço de carne em cada prato.

Refrigerantes, somente em datas comemorativas como Natal, Ano Novo e Páscoa. A vida simples, de hábitos de consumo modestos, exigia compras só de vez em quando, ou as vezes, só uma por ano. Como meeiros, as famílias recebiam pagamento por ocasião da venda da colheita de arroz, milho ou algodão. Isso poderia ocorrer em uma única vez no ano.

Na pequena cidade não havia supermercado. Tinha uma venda com gêneros e itens de primeira necessidade. Fornecia açúcar, sal, querosene para iluminação. Com isso, era comum as famílias emprestar algum desses produtos em falta na dispensa.

Fato marcante era quando uma das famílias matava um porco cevado. Pelos menos um prato com alguns pedaços de carne era dado a cada uma das demais famílias. Todas, sem exceção. E assim, tal hábito solidário era seguido por todas as famílias.

Não tinha nenhuma assistência do Estado. Os problemas de saúde recebiam os primeiros socorros de amigos e parentes ou de um único farmacêutico abnegado, residente na cidade, que mesmo à noite, em cima de uma carroça, prestava atendimento.

A solidariedade e o apoio entre as famílias eram as bases de um relacionamento quase sempre sem desavenças e discussões. Aos 18 anos deixei minha família para “tentar” a vida na cidade. Tive sorte e a felicidade de conseguir emprego. Recomecei a vida com os desafios que muitos como eu enfrentaram ou  ainda enfrentam.

O tempo passou.

Dia desses, fiquei sabendo que um vizinho de casa, havia emprestado uma xícara de açúcar e alguns ovos. Fiquei surpreso e feliz. Fato raro em nossos dias. Lembrei-me daquele ambiente com meus pais, irmãos e outras famílias, na vida simples da roça. Era um fato que há décadas havia vivido.

Perguntada, a pessoa que trabalha em casa informou que fora sua colega da casa vizinha que lhe havia solicitado tal obséquio. Não somente aprovei a atitude, mas fiz recomendação de que sempre que alguém precisasse, era para atender. E se em casa faltasse, era para se socorrer com os vizinhos. Lá na roça era assim.

Isso é comum entre as pessoas que tiveram essa experiência ou a transmitiram aos filhos. Num tempo de grades e muros, medos e indiferença, desconfianças e orgulho, atos simples como esse, de “emprestar”, seja lá o que for, entre pessoas e famílias vizinhas indicam a interdependência entre os seres humanos.

Se por um lado o individualismo exacerbado leva as pessoas a uma equivocada autossuficiência, por outro, a solidariedade acumula experiências que comprovam  um jeito simples de resolver problemas que são comuns à maioria e,  que atualmente se somariam a outras ações que os tempos atuais as denominam de “economia solidária”*.

Valentin Ferreira

*Sugestão de leitura: Economia Solidária, na Wikipédia.