A POLÍTICA DE COTAS PARA NEGROS NA BAYER BRASIL

Por Valentin Ferreira
Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
CEO explica como empresa vem se estruturando para aumentar número de talentos afrodescendentes  

 Há alguns meses Theo van der Loo, presidente da Bayer Brasil, acabou se destacando em vários veículos da imprensa por um texto que escreveu em sua conta pessoal do Linkedin denunciando mais um caso de racismo no meio empresarial. Uma pessoa próxima, que pediu para não ser identificada, teve sua participação em uma entrevista de emprego negada por ser negra. O ato ficou patente quando o entrevistador viu o candidato e disse em voz alta: “eu não sabia que ele era negro”, e não quis prosseguir com a seleção.

Como CEO de uma empresa que aplica a política de cotas, Theo sabia que comentar o assunto em uma rede social se tratava de uma tacada importante para trazer à tona o debate e a visibilidade para a causa negra. Em entrevista para o programa online, Na sala de visitas com Luis Nassif, o executivo falou das consequências do seu post, da responsabilidade da população branca tanto por induzir e reproduzir atos de racismo, como por fechar os olhos para a grande disparidade de oportunidades e, ainda, fez um apelo para que os CEOs se engajem no tema.

Van der Loo conta que a partir da viralização do seu texto recebeu muitas mensagens pessoais de profissionais negros trazendo suas histórias e que decidiram não comentar publicamente no post por meio de perderem o emprego.

“Conheci muita gente maravilhosa [que veio falar comigo]: juízes, advogados, empresários, executivos e, daí, cheguei à conclusão de que eles são invisíveis, os negros são invisíveis na sociedade e é uma coisa inconsciente que a gente [como pessoa branca] não nota no dia-a-dia”, acrescentou.

Por outro lado, Theo também recebeu comentários de ativistas preocupados com a possibilidade do executivo, como homem branco, tirar o foco do protagonismo dos negros.

“[Em relação às críticas] eu disse: ‘você tem razão, não posso ser protagonista, tenho que ser um colaborador da causa, mas o protagonismo tem que ser do negro’”, justificou.

O CEO compreende que, como responsáveis diretos pela discriminação, mesmo que não conscientemente, os brancos precisam ser parte da solução.

“Quem discrimina são os brancos, efetivamente. Quem trouxe os negros para o Brasil foram os brancos e tudo mundo sabe como foi. Quem ajudou a construir o país, fisicamente, foram os negros. Quando houve o fim da escravatura o que aconteceu é que os negros não podiam ler e escrever, não tinham posses, não tinham direitos e foram fazer as favelas. Então a favela é uma criação dos brancos também”, destacou completando, em seguida, que é necessário a população se dar conta de que o fim da escravidão no Brasil foi tardia, em 1888, portanto há poucas gerações um indivíduo negro tinha na família um avô ou avó submetido à política criminosa.

“Os brancos e os negros daquela época não estão mais aqui, mas o problema continua e [em muitos aspectos] pior”, completou, se referindo a escalada da criminalidade decorrente da divisão étnico-social. “Se houvesse mais integração social diminuiríamos esses problemas”.

Política de cotas na Bayer

O executivo destaca que a política de cotas da Bayer é universal, e mais comum para a inclusão de mulheres, pessoas do grupo LGBT e de outras culturas. A questão racial é mais aplicada no Brasil, onde a proporção de negros formados no mercado de trabalho é bastante reduzida, em relação a representatividade na população brasileira, onde mais de 50% é negra. “O Brasil é o país com mais negros fora da África. A título de comparação, nos Estados Unidos somente 14% da população é afrodescendente”, arrematou.

Dentro da sua experiência na implantação de cotas na empresa, Theo destacou que a principal preocupação dos executivos dispostos a enfrentar o tema é não saber abordar o racismo “por falta de tato ou medo, talvez, de deixar um mau sentimento”. O CEO procurou resolver a questão da forma mais simples possível, sentando com colegas negros para compreender as demandas e, até mesmo, pontos básicos como formas de tratamento.

“Fui tomar um café com eles e perguntei como deveria falar: preto, negro, afrodescendente, afrobrasileiro? Eles me explicaram que falar afrodescendente ou negro estava tudo bem, mas contanto que conversasse sobre os negros [na empresa]. Também perguntei se eles se sentiam discriminados na empresa, daí eles disseram que não, mas a percepção, de forma geral, é a sensação de que têm que se esforçar muito mais para aparecer em uma promoção”, ressaltou. Outro problema identificado por outros grupos de profissionais de fora da Bayer, com quem Theo teve contato, é que muitos negros promovidos como chefes sofrem boicotes dos funcionários que estão sob seus comandos.

Em muitos exemplos, Theo viu o desafio de transitar em um ambiente hostil ser superado com uma postura confiante do profissional negro. “Então, a dica que dou é que para aquelas pessoas que talvez tenham um pouco de baixa autoestima, que procurem pessoas com mais autoestima negra para que ajudem elas a saírem dessa posição de se sentirem menos”, pontuou.

Theo van der loo Fonte: divulgação
Theo van der Loo/Divulgação

Sobre o modelo de seleção da empresa, o executivo esclareceu que, proporcionalmente, o número de brancos preparados que chegam nas seleções é maior do que os de negros preparados, isso, obviamente, por conta da trajetória social.

“Até antes de entrar na faculdade os brancos tem vantagens porque, por exemplo, alguns já viajaram para o exterior, fizeram curso de inglês fora. Por outro lado, você vê muitos negros que tiveram que batalhar muito para chegar na faculdade”. Essa é a razão pela qual a Bayer tenta aplicar um filtro de seleção diferente e, ainda, após reconhecer o potencial do candidato negro, oferece cursos de inglês, caso o candidato não domine o idioma.

“No caso dos negros a gente tem que pensar um pouco fora da caixa, porque tudo bem que a experiência é muito importante, mas o talento e o potencial nesse caso são igualmente importantes. Às vezes se aplica um filtro e a pessoa fica fora mas, talvez, pelo fato de ser afrodescendente a gente vai olhar outros pontos e ele terá uma chance maior de ser pescado”. O executivo destacou, também, que a empresa contrata cerca de 200 estagiários por ano com meta, inicial, de alcançar 20% de jovens negros a cada novo ciclo.

Raízes da empatia

Theo nasceu no Brasil, mas é filho de holandeses que enfrentaram a Segunda Guerra Mundial, antes mesmo de se conhecerem e casarem-se. O pai, em especial, foi prisioneiro de guerra e submetido a trabalhos escravos por três anos na Estrada de Ferro Thai-Burma, construída pelo então império do Japão cruzando Bangkok (Tailândia) e Rangum (Birmânia, hoje Myanmar).

“Uma coisa que me marcou é que meu pai nunca falava sobre a experiência da guerra. Mas uma vez eu perguntei para ele: ‘pai, você se lembra da guerra?’. Daí ele ficou calado, olhou muito para mim e disse: ‘não tem nem um dia que eu não pense nisso’. Então eu fico imaginando como foi para os negros. Hoje, no carro, vindo para cá [gravar esta entrevista] vi uma pessoa negra na rua e pensei: há três, quatro gerações, essa pessoa tinha escravos na família”.

Assista a entrevista completa do executivo no segundo bloco do programa, a partir de 16:39

Fonte : Jornal GGN / Luis Nassif