CUNHA PÕE, CUNHA TIRA: por Bernardo Mello Franco

Por Valentin Ferreira

Heuler Andrey – 20.out.2016/AFPApós noite na carceragem da Polícia Federal, Eduardo Cunha chega ao IML de CuritibaApós noite na carceragem da Polícia Federal, Eduardo Cunha chega ao IML de Curitiba

Por Bernardo Mello Franco / na Folha

BRASÍLIA – “Alguém tem dúvida que se não fosse minha atuação, [não] teria processo de impeachment?”. A pergunta foi feita por Eduardo Cunha na sessão em que a Câmara cassaria seu mandato. A resposta era óbvia. Sem a ajuda do correntista suíço, Michel Temer nunca teria chegado à Presidência da República.

Cunha acionou a máquina que instalou o “vice decorativo” no comando do país. Pouco mais de um ano depois, ele pode virar peça-chave em outra derrubada de presidente. Preso em Curitiba, o ex-presidente da Câmara negocia um acordo de delação.

A promessa, informou a colunista Mônica Bergamo, é detonar os velhos parceiros do PMDB da Câmara. No centro da mira, está o presidente Temer. Ao lado dele, os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco.

O correntista suíço está na cadeia há quase nove meses. Ele já se queixava de abandono, mas resistia a entregar os comparsas. Começou a mudar de ideia em março, ao receber a primeira condenação. Pegou 15 anos pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Sem um habeas corpus do Supremo, a paciência do ex-deputado foi acabando. O copo transbordou com a notícia de que o doleiro Lúcio Funaro decidiu falar. Cunha percebeu que o bonde da delação estava passando e agora corre para garantir seu lugar.

Apesar da negativa do advogado presidencial, o governo entrou na UTI com a prisão de Geddel Vieira Lima. Uma delação do correntista suíço equivaleria a desligar os aparelhos e encomendar a alma do paciente.

No século passado, Carlos Lacerda (1914-77) ganhou a alcunha de “derrubador de presidentes”. Cunha se candidata a herdar o título, mesmo sem as qualidades do udenista.

A negociação deve fermentar o debate sobre as delações. Um personagem com a folha corrida do ex-deputado, envolvido em escândalos desde o governo Collor, merece ter a pena reduzida em troca de informações à Justiça? Se a lógica for chegar ao topo da quadrilha, é possível que sim.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/colunistas