O CHEIRO DE PIZZA SE ESPALHA PELO AR

Por Valentin Ferreira
Eduardo Anizelli/Folhapress
A segunda secretária da Câmara, deputada Mariana Carvalho, na presença do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, faz a leitura da denúncia feita pela PGR contra o presidente Michel Temer
Deputados Mariana Carvalho e Rodrigo Maia durante a leitura da denúncia feita pela PGR contra Temer
Em ambientes  políticos, negociações, acordos e a costura de estratégias de grupos de interesse são os ingredientes habituais.  A capital Federal é por excelência o maior centro político do país.
Entre todas a opções de acordos, têm aqueles que  convencionou-se  rotular de “pizza”, numa indicação nada promissora para os que, como nós, cidadãos comuns chega apenas o “cheiro” ou “mal cheiro” daquilo que está sendo preparado.
Abaixo a oportuna análise de André Singer(*) hoje na Folha

Pode ser apenas um novo balão de ensaio, mas ontem o cheiro de pizza invadiu o ar dos lugares em que a crise é acompanhada e debatida. A articulação em torno do nome de Rodrigo Maia (DEM-RJ), com o beneplácito do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), para ocupar a Presidência até o final de 2018 ganhou o necessário espaço midiático de modo a ser testada. O experimento redondo carrega dois sabores.

O primeiro destina-se a agradar o capital. Nesse sentido, a manchete do “Valor” (7/7) era mais do que expressiva: “Temer perde apoio e Maia já se articula com mercado”. O texto dava conta que o presidente da Câmara teria intensificado “contatos no mercado financeiro”. Não consta da notícia a reação dos contatados, mas continha o recado preciso: o deputado procuraria mostrar nos encontros que está “preparado para assumir a função, com a manutenção de equipe econômica e das reformas”.

É do conhecimento geral que Maia tem pouca base e experiência para assumir o principal posto político do país. Então, é necessário assegurar que as duas principais metas do mercado estariam garantidas em suas mãos. De um lado, a manutenção da política econômica. De outro, a aprovação de duas mudanças contra os assalariados: a reforma antitrabalhista e a da Previdência.

Aqui entra a outra metade do acordão em cozimento. Para aprovar as “deformas”, com diz um amigo ligado aos sindicatos, e blindar a economia, é preciso garantir uma grande base congressual. E o que desejam os parlamentares, entre eles o próprio Maia, um investigado?

Que a Lava Jato pare. Desde esse ponto de vista, não poderia ser mais conveniente a informação, também em todos os jornais, de que a Polícia Federal encerrou as atividades do grupo dedicado à operação em Curitiba. Convém lembrar, igualmente, que diversos processos foram tirados do juiz Sergio Moro nas últimas semanas.

Em outras palavras, pela primeira vez há sinais de arrefecimento do núcleo paranaense que lidera as investigações desde 2014, o que deve soar como música aos ouvidos dos congressistas. No entanto, a ofensiva contra Michel Temer precisaria seguir, para legitimar o último e decisivo ato da Mãos Limpas brasileira: condenar Lula a tempo dele perder a condição de candidato em 2018.

Para resolver o problema de excluir o lulismo da urna eletrônica, muitos interesses talvez se reúnam em torno de mais uma aventura presidencial. A primeira foi a do próprio Michel Temer, sabidamente parte de um grupo que seria alvo privilegiado da Lava Jato. Agora o forno foi ligado outra vez, mas só o tempo dirá se essa massa vai dar liga.

André  Singer:É cientista político e professor da USP, onde se formou em ciências sociais e jornalismo. Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunistas