ALEMÃS NÃO TEM “DOR DE CABEÇA” NO SEXO, FALAM QUANDO E SE QUEREM

Por Valentin Ferreira / Da Folha de SãoPaulo
threephin/Flickr
Mulheres alemãs possuem uma forma direta, objetiva e clara de se expressar
Para brasileiras é quase impossível dizer: “Não estou com vontade” sem medo de brigar com o parceiro
Por: Mirian Goldenberg(*)

Há alguns anos, passei três meses na Alemanha fazendo conferências e entrevistando mulheres. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a maneira como as alemãs se expressam.

Em um restaurante, uma professora me interrompeu bruscamente: “Vamos mudar de assunto, não gosto de falar sobre a violência no Rio de Janeiro”. Outra, depois de um jantar em sua casa, se despediu: “Tenho que acordar cedo amanhã, está na hora de todos irem embora”. E, ainda: “Preparei a comida, agora vocês lavem a louça”.

Não posso deixar de mencionar os incontáveis e assustadores “imediatamente” que escutei, quando elas me chamavam para uma refeição ou uma conversa. Lá nunca pude usar os nossos famosos: “daqui a pouquinho” ou “estou indo em um minutinho”.

Esta forma de se expressar pode parecer, especialmente para uma brasileira, uma forma rude e até mesmo agressiva de ser. Mas descobri que é, na verdade, um jeito direto, objetivo e claro de dizer as coisas. Elas dizem exatamente o que querem e o que não querem.

Por exemplo, elas me contaram que, quando não querem fazer sexo, dizem claramente para os parceiros: “Não estou com vontade!” ou “não quero!”. E ponto final!

Para as brasileiras é quase impossível dizer: “Não estou com vontade” e “não quero” sem medo de brigar, magoar ou ofender o parceiro. Por isso, muitas preferem usar desculpas como: “Hoje não, meu amor, estou com muita dor de cabeça” ou “estou com TPM”.

Sem duvidar que muitas sofrem realmente com as dores, para outras a dor de cabeça e a TPM são apenas desculpas mais aceitáveis para não fazer o que não estão com vontade.

Como escreveu o sociólogo Pierre Bourdieu, a lógica da dominação masculina constitui as mulheres como objetos, e tem como efeito colocá-las em permanente estado de insegurança e dependência simbólica. Delas se espera que sejam femininas, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, delicadas, discretas, contidas e até mesmo apagadas. Elas existem primeiro para o olhar dos homens, como objetos receptivos, atraentes e disponíveis.

Nesta lógica de dominação masculina, é realmente muito difícil dizer não. Mas fica uma reflexão: será que poderíamos evitar muitas dores de cabeça simplesmente tendo a coragem de dizer não?

(*) É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de ‘Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade’. Escreve às terças, a cada duas semanas.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg