NEY MATOGROSSO: “Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa”

Por Valentin Ferreira / do Diário do Centro do MundoResultado de imagem para imagem de ney matogrosso

Do Ney Matograsso, em entrevista à Folha:

Teme ver Bolsonaro presidente?
Ele não será presidente nunca. Não acredito que o Brasil dê esse passo.

Você tem acompanhado a política?
Acompanho assim, o que eu vejo: o presidente [Michel Temer] está por um triz de ser saído do poder e está comprando generosamente os votos dos deputados para não sair. Mas a coisa está tão estranha que, apesar do dinheiro gasto com isso, ele ainda pode sair. Porque o dinheiro não é suficiente, o jogo é muito sórdido, as pessoas são venais: se vendem, mas não têm compromisso com aquele que as comprou.

Você foi contra ou a favor do impeachment de Dilma?
Eu achava que estava muito mal. Ela fez um péssimo governo, que acabou nessa história. O Lula a colocou para manter aquecida a cadeira dele. Eu votei nele várias vezes, contra o Collor, contra o Fernando Henrique, só não votei no segundo mandato. Porque no primeiro estourou o Mensalão. E eu não podia acreditar que ele não soubesse de nada. Aí te confesso que me decepcionou. Foi a última vez que acreditei em alguém. Desde então, anulo meu voto com a maior tranquilidade.

Você não se alinha nem à esquerda nem à direita?
Não. Não tenho essa coisa partidária, estou mais preocupado com o ser humano. Se quiser me definir, diga que eu sou um humanista. Primeiro, não acho que existe esquerda e direita, a meta é a mesma para ambos os lados: a chave de cofre e o poder. Não tenho mais ilusões. Antigamente eu te diria que era de esquerda. Até que, quando eu achei que a esquerda iria me compreender, porque eu estava tentando cariar a ditadura, a esquerda me descia o cacete. Não entenderam que eu podia ser útil.

Desceram o cacete por quê?
Por preconceito, não é isso? A esquerda não é machista pra caralho?

Nos seus shows há coro de “fora, Temer”?
Tem. Aí eu canto “O Tempo Não Para” para eles.

Querendo dizer o quê?
É uma música de 1988, mas é atual até hoje. Tudo passa, você não pode achar que as coisas são definitivas. Tudo é circunstancial, está em movimento. Eu tenho essa percepção da vida.

Mas os gritos o incomodam?
Eu apenas não grito. Acho que não me compete. Mas aceito que gritem. Isso está em toda parte, é um desejo das pessoas.

Seu, não?
É um desejo meu, mas não acho que eu deva fazer isso. Eu tô ali para uma outra coisa. Não sou obrigado, nem acho que minha função ali seja essa. Aceito que falem, mas eu não falo.

Como são suas relações com políticos?
Só fiz campanha para o Fernando Henrique [Cardoso], quando ele foi candidato a senador [1986]. Cantei três músicas em um comício dele, não cobrei nada. E sabe o que eu ouvi quando saí [do palanque]? Ele entrou e disse que minha presença era uma mostra de que ele não tinha preconceito contra minorias. Mas não fui lá como representante de minorias, fui como um brasileiro que acreditava nele.

Você se considerou em algum momento representante de uma minoria?
Eu não. Nunca peguei essa bandeira, não me interessa. Acho que eu sou útil assim, falando, conversando. Teve um encontro internacional gay no Rio, queriam que eu fosse presidir. Eu disse que não, não penso assim. Aí foi o Renato [Russo]. Tá certo, ele é quem tinha de ir, a cabeça dele era assim. Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos.
Me enquadrar como “o gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto, de terceiro lugar.

E o que é o mais importante na sua vida?
Ter caráter, ser uma pessoa honesta, de princípios, que trata bem as outras. Ser uma pessoa afetuosa, amorosa. Isso é mais importante do que com quem eu trepo. Sou benquisto e recebo isso nas ruas, das pessoas.

(…)