CANÇÕES DE COMPROMISSO: PELA VIDA AFORA

Por Valentin Ferreira / do Sul 21

Canções de compromisso: Pela vida afora 

Raul Ellwanger/ Sul 21

Esta letra parece uma “carta de intenções” pessoal, feita na época de meu retorno ao Brasil e gravada no disco Teimoso e vivo, com cuja canção título parece fazer uma dobradinha. Tanto na enunciação de circunstâncias e projetos de vida, quanto no emprego dos compassos compostos e de ritmos muito fusionados, são um manifestinho pessoal, com algumas opiniões de cultura e política colocadas com algum cuidado, visto o regime fechado daquele momento e a censura atuante.

A levada em 7/4 da primeira parte nasce da maneira de tocar rasgueando o violão. Quase como um descanso, a parte B toma um tempo ternário. A partir de “no caliente mi señora”,  uma espécie de longa coda se constrói num lento crescendo apoiado na troca de idiomas, para culminar num quase grito em que o acorde de dominante é exposto durante um áspero compasso sem sua terça, para logo mostrá-la e resolver esta tensão.

Coincidindo com a fase da Anistia, a letra inicia falando de retorno, de cantar aberto, do que der e vier, numa esperança política pela redemocratização do país. Parece haver um anseio de vida normal, depois de nove anos de peripécias aventurescas, com a fixação afinal de uma família normal, da esposa, do filho, da profissão musical. Esta letra ocupa a parte A, enquanto a parte B será uma espécie de louvor a alguns músicos de minha preferência, reunidos num lindo caldeirão musical. Ali estará Milton, com sua Faca amolada, estará o Pássaro Ivaldo Roque junto a Edu Lobo, estará a dupla Vitor Martins e Lins Lins, estará a Banda, de Chico de Holanda, em trocadilho com o Chile. A imagem do caldeirão ocupa a coda, onde se misturam o idioma, os bailes andinos, o desejo de vida e ainda mais vida, que se sintetizam numa excelente sopa marinera, prato popular chileno onde se faz muito de tudo um pouco.

Gravamos esta e as demais canções do disco Teimoso e vivo numa novíssima consola Audio Design de 16 canais, quando em Porto Alegre o Estúdio ISAEC aposentou a antiga Senheiser de 8 pistas. Este salto tecnológico, esta plasticidade operativa, ajudou a plasmar uma certa diversificação estilística, uma linguagem regional, uma possibilidade de somar e caldear diferentes ideias musicais,  até ali sem chance de realizar-se. No caso, o trio liderado por Wagner Tiso conseguiu expressar-se com fluência, gerando uma levada muito original e gostosa, com destaque para o piano em estacatos agressivos que diluem a capenguice do tempo em 7. O mais original aconteceu de surpresa, quando Beto Guedes apareceu no estúdio, pegou meu bandolim Del Vecchio, acendeu uns cigarros exóticos e pediu para gravar. Tocou muito bem, suingou na parte A e bordou com trêmolos na parte B, criando um ar de novidade, uma frescura alegre que matiza toda a canção.

Pela vida afora

Raul Ellwanger

 

Agora que eu cheguei
Vou cantar de peito aberto
Viajar, vou ser mais gente
Vou gritar errado ou certo
Pro que der, pro que vier
Minha vida é feita em canto
Meu filho, minha mulher
Minha carne, meu espanto

Vai cebola nesta sopa
Vai pimenta, vinho e vento
Vai ter faca, Nascimento
Terá pássaro com Lobo
Com Mar-lins, farofa e banda
Terá Chile com Holanda
No caliente mi señora
Baile un gato y chacarera
Quiero vida vida afuera
Quiero sopa marinera, ai, ai, ai