PAREM DE SE INDIGNAR COM QUALQUER BOBAGEM NA INTERNET, por Leandro Narloch

Postado por Valentin Ferreira / Da Folha SPaulo
                                                                                           Gabriel Cabral /Folhapress
Washington Olivetto segura sutiã em referência à campanha que fez para a Valisère em 1987

Por Leandro Narloch / FSP

Estão todos com pedras na mão prontos para mirar no próximo infiel que dê o menor sinal de pecador. Uma frase mal colocada, um título com ironia ou a falta de reverência a uma causa bastam para os patrulheiros começarem o massacre moralista no Facebook.

Só nesta semana, o publicitário Washington Olivetto foi alvo de um linchamento virtual por dizer que “empoderamento feminino” é um clichêpoliticamente correto e por defender uma propaganda que comparava uma mulher a um Porsche. E Ney Matogrosso foi acusado de homofobia —Ney Matogrosso acusado de homofobia— por ter dito “que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa”.

A patrulha moralista domina tanto a esquerda quanto a direita. Olavo de Carvalho leu um gibi da “Turma da Mônica” com a frase “meu corpo, minhas regras” e em milésimos de segundo concluiu: a revistinha havia se transformado “num odiento discurso abortista”! A roteirista da publicação foi ameaçada e ganhou montagens com ofensas. Na verdade, a Mônica do gibi usou a frase para reclamar de quem insistia para ela usar aparelho dentário e deixar de ser dentuça.

Na esquerda, Jean Wyllys é quem costuma entender errado declarações só para ouriçar seus seguidores e ganhar compartilhamentos. Em 2012, Gilberto Dimenstein se perguntou aqui na Folha se São Paulo precisava “importar um baiano” para a secretaria de Cultura. Bastava ler o texto para perceber que o colunista defendia a contratação do baiano Juca Ferreira porque São Paulo “é aberta, marcada pela diversidade”. Mas Jean Wyllys não quis entender: viu ali uma demonstração de xenofobia e de ódio paulista aos nordestinos.

Um antídoto contra a histeria moralista das redes sociais é o princípio da caridade. Esse princípio da filosofia exige interpretar da melhor forma possível as palavras do interlocutor. Será mesmo que Olivetto vê mulheres como objetos? Será mesmo que havia mensagens em defesa do aborto no gibi da “Turma da Mônica”?

O princípio da caridade tem o poder de torná-lo imune à indignação coletiva. Eu ainda hoje não consigo entender a revolta contra os estudantes gaúchos que organizaram a festa “Se nada der certo”. Ora, até o movimento negro considera algumas profissões melhores que outras —justamente por isso defende cotas raciais nas universidades. Para quem estuda para o vestibular, como os jovens gaúchos, “não dar certo” significa não passar no vestibular. Pronto, caso encerrado.

O melhor caminho para a paz nas redes sociais é deixar fogueiras e apedrejamentos para os tempos da Inquisição. Na maioria das vezes, as pessoas não disseram nem fizeram nada tão monstruoso quanto imaginamos.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/colunistas

3 respostas para “PAREM DE SE INDIGNAR COM QUALQUER BOBAGEM NA INTERNET, por Leandro Narloch”

  1. Olha Valentin, precisamos tomar cuidado com este discurso que está implícito no texto: a banalização de coisas sérias. A sensação que eu tive ao ler o texto é a de que devemos deixar passar certos comentários racistas, xenófobos e preconceituosos. Dá a sensação de que é aquele cara que sempre diz:” ahhh, o mundo está chato! Não posso mais ser machista.”
    Eu prefiro pecar pelo excesso de cuidados . Depois que já escreveu não vai adiantar dizer que não era bem assim. Nada disso aconteceria se as pessoas soubessem se expressar de forma adequada e respeitosa. Não tem motivo pra brincar com assunto sério, mesmo que este seja com boas intenções.

  2. Entendo que não se trata de banalizar assuntos que mereçam ser comentados. A questão de fundo é o que você colocou no texto: “Nada disso aconteceria se as pessoas soubessem se expressar de forma adequada e respeitosa”. É isso. Obrigado pela opinião.

  3. Sim, mas o autor do texto já trabalhou na veja e eu tenho a leve sensação de que o texto do cara é um convite a nos calarmos diante do preconceito: “…Na maioria das vezes, as pessoas não disseram nem fizeram nada tão monstruoso quanto imaginamos.”
    Como assim não é ‘tão’ monstruoso? Se for só monstruoso não deveria ter sido escrito e se escreveu tem que aguentar sim as críticas e até processos depois. Rsss.
    Enfim, não gostei do texto, mas o Blog é ótimo! Todos os dias dou uma passada pela manhã.
    Abraço, Valentin!

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