CRISTÃOS CORAJOSOS DENUNCIAM CORAJOSAMENTE

Postado por Valentin Ferreira / do Domtotal.com.br

Jesuítas do Brasil, reunidos em assembleia, manifestaram preocupação com a situação do país.

Jesuítas do Brasil, reunidos em assembleia, manifestaram preocupação com a situação do país. (Jesuítas Brasil)
Para um jesuíta, todo injustiçado, empobrecido e humilhado pelo sistema é sacramento da presença de Deus.

Por Élio Gasda*

Mais de trezentos jesuítas do Brasil, reunidos em Assembleia Nacional (25 a 27/07/2017) manifestaram em nota sua “preocupação e indignação diante da maneira como as classes dominantes conduzem as crises econômica, social e política que assolam o país e afetam a população, sobretudo os empobrecidos”. A desigualdade socioeconômica, nestes últimos anos, agravou-se significativamente. É imoral submeter o Estado ao mercado, em nome da retomada do desenvolvimento. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica do capital financeiro. As Reformas Trabalhista e da Previdência carecem de legitimidade. A “liberação” do desmatamento, a “legalização” da grilagem de terras urbanas e rurais, a mercantilização de terras para corporações estrangeiras e a “outorga” das terras indígenas e quilombolas ao agronegócio são afrontas à Constituição Federal. Os ajustes desse (des)governo visam atender ao mercado, denuncia a nota.

O país viveu um processo de golpe de Estado desde 2015, que se concretizou em 2016, comandado por complexo financeiro-empresarial-midiático alheio ao drama social da maioria da população. Derivam daí todos os retrocessos que estão acontecendo. Os mais pobres estão pagando o preço de uma crise provocada pelas elites. A injustiça social e a desigualdade econômica, problemas crônicos, foram agravados. Até o final de 2017, o Brasil sofrerá um aumento de até 3,6 milhões no número de pessoas vivendo na miséria. A queda da renda entre os 10% mais pobres aumentou a pobreza em quase 20% (Banco Mundial). Já são mais de 14 milhões de desempregados. O (des)governo recolocou o Brasil no mapa da fome, destruiu a rede de proteção social e debocha dos trabalhadores. Temer representa o que há de mais hostil ao povo brasileiro.

Não denunciar essa tragédia é dar as costas para o povo brasileiro. A nota nos lembra de que as angustias dos pobres devem ser as angustias de todo cristão. Está em jogo a credibilidade da Igreja. Os interesses do mercado são incompatíveis e inconciliáveis com a mensagem do Evangelho. Optar pela neutralidade significa capitular diante do deus mercado. O cristão somente vive sua fé a partir do Evangelho. Aquilo que desvia ou perturba esta opção deve ser descartado. Jesus pôs em movimento uma prática diferente porque era diferente. Não se deixou enquadrar.

Diante da tamanha iniquidade, os jesuítas reiteram sua posição ao lado dos empobrecidos. Para um jesuíta, todo injustiçado, empobrecido e humilhado pelo sistema é sacramento da presença de Deus. Inácio de Loyola (1491-1556), fundador da Companhia de Jesus, dizia que “a amizade com os pobres nos torna amigos do Rei Eterno”. Esse é o critério fundamental que identifica os Companheiros de Jesus. “São tão grandes os pobres na presença de Deus que, principalmente, para eles foi enviado Jesus Cristo à terra”, escreveu Inácio. Como servidores da Missão de Cristo, os pobres são os primeiros destinatários da Ordem fundada em 1540: “A validade de nossa missão será tanto maior quanto for nossa solidariedade com os pobres” (Congregação Geral XXIII, Decreto 1, n. 48).

Cristãos corajosos denunciam corajosamente. O Evangelho que é Boa notícia para os pobres, é uma ameaça para os ricos. Jesus rompe a ordem das prioridades e coloca os empobrecidos em primeiro lugar. Jesus nunca deixou qualquer dúvida em mostrar de que lado Deus está. Ele não foi um expectador passivo, mas fez do grito dos abandonados o seu clamor. A perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5,10-11) é prova de não conformismo diante dos podres poderes. Portanto, todo verdadeiro cristão é subversivo, não pode se deixar enquadrar por um (des)governo inimigo dos pobres. Os pobres são carne de Cristo (Mt 25,31-46).

A nota dos jesuítas é um grito contra a apatia que impera no país mais católico do mundo governado por uma elite perversa com pensamento escravocrata, gente da pior espécie. A sociedade não pode mais continuar impassível diante dos podres poderes, serviçais da ditadura da economia.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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