QUEM ESTÁ POR TRÁS DO DINHEIRO QUE BANCOU A CONTRATAÇÃO DE NEYMAR?

Por Valentin Ferreira / da Rede Brasil Atual Neymar no PSG
Dinheiro do Catar assegurou contratação de Neymar na transferência mais cara da história do futebol (imagem CGavelle/PSG)
Por meio de seu fundo soberano ou de entidades vinculadas a membros de sua família real, o Catar diversificou investimentos e negócios bilionários para reduzir dependência do petróleo
por Tradução livre a partir de El Diario.

El Diario – O processo de contratação do jogador brasileiro Neymar pelo Paris Saint-Germain disparou os alarmes na Liga espanhola, que acredita que a operação, a maior negociação da história do futebol (222 milhões de euros) não respeita o chamado fair play da Uefa. Como pano de fundo está o temor de que as vastas fortunas do Catar, país que vai organizar a Copa do Mundo de 2022, comece a esvaziar o ascendente futebol espanhol, afetado recentemente pela detenção da cúpula de sua federação nacional por suposta corrupção.

Por que a Liga rejeitou a contratação?

Quando o jogador comunicou a sua ex-equipe, o Barcelona, seu desejo de sair, e este havia lhe pedido que abonasse a cláusula de saída, os citados 222 milhões, entrou em campo a Liga espanhola. A entidade presidida por Javier Tebas afirmou que iria denunciar a operação porque não cumpre com o chamado fair play financeiro e não aceitaram o dinheiro. Não foram dadas explicações oficiais sobre essa decisão. Há opiniões apontando para o medo de que os multimilionários cataris cumpram sua promessa de fazer do PSG o melhor clube da Europa e para tanto se dediquem a tirar jogadores do futebol espanhol. O Barcelona, por seu lado, aceitou os 222 milhões.

A saída do craque brasileiro chega em um momento inoportuno para a Liga, em plena negociação dos direitos televisivos da competição para o próximo triênio. O setor espera que os clubes possam elevar seus direitos de transmissão para 1,6 bilhão de euros anuais, frente aos atuais 1,25 bilhão.

Quem é o principal responsável pela contratação de Neymar?

Precisamente, o Catar e o dinheiro dos direitos televisivos do futebol têm uma relação estreita na contratação de Neymar. O presidente do PSG é Nasser Al-Khelaïfi, que preside a Bein Sports, empresa que a partir de 2018 será responsável pela gestão exclusiva dos direitos para transmitir as partidas da Champions League. Na Espanha, a Bein Sports é representada pela Mediapro, empresa de Jaume Roures.

O que é o fair play financeiro?

Trata-se de uma disposição aprovada pela Uefa em 2009. Seu objetivo é introduzir uma maior disciplina e racionalidade nas finanças dos clubes de futebol, diminuir a pressão sobre os salários e as transferências e limitar o efeito inflacionário, incentivar os clubes para competir com seus recursos, fomentar os investimentos a longo prazo e proteger a viabilidade do futebol europeu, além de assegurar que os clubes resolvam seus passivos da melhor forma.

Qual é a teia de interesses do Catar?

É extensa. O Catar, que tem a maior renda per capita do mundo e é o maior produtor global de gás natural liquefeito (GNL) é a sede da televisão Al Jazeera, que se converteu em uma referência no mundo árabe. Através de seu fundo soberano ou de entidades vinculadas a membros de sua família real, nos últimos anos este minúsculo território diversificou seus investimentos para reduzir sua dependência do petróleo por meio de negócios bilionários.

Que negócios o emirado tem na Espanha?

Atualmente, o país é, de forma direta ou por meio dos membros de sua oligarquia, acionista significativo de grandes empresas espanholas como Iberdrola, El Corte Inglés, Prisa ( por meio do paraíso fiscal de Seychelles), a aerolínea IAG (dona da Iberia) e a imobiliária Colonial. Também controla vários hotéis (entre eles, o Intercontinental em Madri, por meio do Qatar Hospitality) e portos esportivos como o de Tarragona. Conta com uma pequena participação na filial brasileira do Santander.

E em nível global?

O riquíssimo emirado participa em multinacionais como a Volkswagen (é o seu terceiro acionista), Glencore (matérias-primas), Siemens (21%), Barclays (6%) ou Credit Suisse (8%). É dono de grandes cadeias de lojas como Harrod´s e o Empire State Building de Nova Iorque e participa em firmas como a Tiffany´s (com 13%) e Brookfield (que conta com propiedades imobiliárias por todo o mundo). Acionista da Bolsa de Londres, é dono da Villa Olímpica da capital britânica e do el Shard, o edifício mais alto da Europa Ocidental, também localizado nesta cidade.

O fundo soberano do Catar tomou parte do grupo de investidores que comprou uma participação de 61% na rede de gasodutos britânica National Grid, e em dezembro se associou com Glencore para comprar 19,5% do gigante russo do petróleo Rosneft. Também adquiriu 4,6% da petroleira Royal Dutch Shell.

Embargo regional

No início de junho, cinco países do Oriente Médio (Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein, Egito e Iêmem) anunciaram o rompimento de relações com o Catar por supostos vínculos com o terrorismo islâmico. Ainda não se sabe qual será o impacto da medida para as empresas espanholas vinculadas ao emirado.

Enrique Verdeguer, economista e diretor da ESADE Madrid, considera que “sim, o veto se estende para toda empresa que opera no Catar”, e os efeitos podem ser “terríveis”. “Se realmente se isola o país legalmente, salvo que estas empresas ponham todos os ovos de sua cesta no Catar, vão ter muitas dificuldades para operar em outros lugares”.

Em sua opinião, não se chegará a esse extremo. “A primeira questão que é necessário saber é quanto tempo vai durar essa situação”, diz Verdeguer, que recorda que “já em 2014 houve uma ruptura de relações”. No momento, dois meses depois, o embargo segue vigente.

Alguém já pagou tanto dinheiro por um jogador quanto por Neymar?

Não, até agora a mais cara contratação foi a de Paul Pogba pelo Manchester United em agosto de 2016 (117 milhões de euros). Depois seguem as contratações do Real Madrid do português Cristiano Ronaldo junto ao Manchester United em junho de 2009 (96 milhões de euros) e do galês Gareth Bale, do Tottenham, em setembro de 2013, por 91,5 milhões de euros.

Quanto dinheiro envolve o mercado de negociações do futebol no mundo?

Segundo o informe global do mercado de transferências da Fifa, Global Transfer Market Report 2017, no ano passado as operações de contratações registradas em todo o mundo superaram um total de 4,466 bilhões de euros, um aumento de 14,3% em relação a 2015.

A Inglaterra estava em primeiro lugar com 1,279 bilhão de euros, 8,7% mais que em 2015 e que representa mais de 43% do total investido pelos cinco países de maior peso – Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. Na classificação global de gastos, a Alemanha ocupava a segunda posição (539 milhões, 55,9% mais que em 2015) e a Espanha, a terceira (476,4 milhões, 15,6% a menos que em 2015), seguida da Itália, com um montante igual ao da Espanha (5,5% a menos). A França estava na sexta posição, com 194,4 milhões e 34,5% menos que em 2015. Agora, subirá no ranking.

Quanto a receita espanhola vai levar por essa operação?

fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/esportes