QUANDO FALTA JUSTIÇA, A NAÇÃO PERECE

Postado por Valentin Ferreira /  do Domtotal.comO caso do  

Há partidos políticos formados por verdadeiros gângsteres que, só são processados e julgados, quando o são, depois de mortos.

Por Felipe Magalhães Francisco*

Não é exagero dizer que o povo brasileiro desacredita na justiça. Nossa justiça não é cega: ela enxerga bem o lado em que se encontram os ricos e ignora os pobres. Se antes, o povo só tinha certa esperança na justiça, para resolver querelas trabalhistas, agora, com a aprovação da Reforma Trabalhista, proposta pelo (des)governo ilegítimo e aprovada pelo Congresso mais atolado em esquemas de corrupção e conservador da história, nem isso mais valerá.

Estarrece-nos a seletividade das investigações contra políticos: há partidos políticos formados por verdadeiros gângsteres que, só são processados e julgados, quando o são, depois de mortos. Desse mesmo partido, há aqueles que têm a incrível sorte de serem sorteados para que os seus processos caiam na mão de togados completamente cúmplices desses políticos. Uma coisa não há como negar: nada como a lealdade dos amigos, mesmo daqueles que juraram obedecer e cumprir a Constituição!

Na Suprema Corte, há supremos juízes que provocam verdadeiro nojo e repulsa, em quem sonha com o mínimo de justiça. Midiáticos, são mais políticos – ou politiqueiros – que muitos dos que foram, de fato, eleitos para tal. Frequentam, na calada da noite, a casa daqueles que carregam fortes indícios, e inclusive provas materiais, de corrupção. Com discursos carregados de juridiquês, os supremos togados rasgam a Constituição, quando não pelas próprias mãos, fazem-no pela omissão e pela complacência.

Enquanto pobres, sobretudo negros, superlotam as penitenciárias, a maior parte sem sequer ter sido julgada e condenada, filhos de desembargadores têm a garantia da liberdade, mesmo quando culpados de crimes gravíssimos. Num país de Rafaeis Bragas, apenas alguns têm o privilégio de, mesmo culpados, serem tratados como vítimas, pelo simples fato de serem brancos e filhos de pessoas importantes, que têm dinheiro e influência. Enquanto helicópteros de parlamentares são apreendidos, abarrotados de drogas, e rapidamente as investigações são arquivadas, jovens negros são cotidianamente assassinados nos morros e favelas, por uma das polícias que mais mata no mundo.

Essa mesma justiça, formada por endeusados com super-salários muito maiores do que o teto permitido pela lei, tapa os olhos para os pobres e deixa passar, tentando pintar de branco, o maior e mais grave crime ambiental da história recente. Vidas, das mais variadas espécies, ceifadas pela ganância que só gera morte para muitos e riqueza para poucos. E o silêncio daqueles que prometeram dedicar as suas vidas pelo direito e pela justiça, faz sepultar no anonimato milhares e milhares de empobrecidos, à espera da mínima dignidade para viver.

Fala-se muito em reforma política, reforma fiscal, trabalhista e da previdência, mas cala-se a respeito de uma reforma, profunda e honesta, do sistema judiciário. Diz as Sagradas Escrituras que a justiça e a paz precisam estar abraçadas (cf. Sl 85,11). Mas enquanto muitas vidas são perdidas e arruinadas por um sistema corrupto e conivente com o mal, não há alento capaz de fazer suportar aqueles que acreditam num tempo de vida digna para todos e todas, sobretudo por aqueles que, historicamente, são prejudicados para que uns poucos tenham privilégios. É urgente que aqueles que honram suas escolhas pelo Direito, unam forças, e motivem toda a sociedade a lutar, com esperança e coragem, por uma justiça florescida e pela paz em abundância, tal como inspira o salmista (cf. Sl 72,7)!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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