LEME: PREFEITO MUDOU A LEI E O CAIXA DA SAECIL É O ALVO MAIS UMA VEZ- Parte II

Por Valentin Ferreira Por Valentin Ferreira 

Vamos imaginar o seguinte caso: Numa longa estrada o carro tem a mangueira do radiador estourada. Imediatamente o condutor chama socorro mecânico, que ao verificar o problema recomenda o lógico: é preciso trocar a mangueira aqui está. Absurdamente o sujeito diz: Não. Vou comprar uns galões e ao longo do caminho vou enchendo o reservatório do radiador.

O “absurdo caso”, é um retrato do que pode acontecer com a Saecil se o prefeito e o atual Diretor Presidente vierem a construir reservatório de água que consumirá R$ 1.300.000,00, ao invés de investir na contenção do desperdício de água tratada. Ou seja, troca de redes antigas, reduzir pressão acima no normal, que contribuem para uma perda de 57% de todo volume de água tratada, que passa pelos reservatórios. Fato, que consome milhares de reais todos os anos.

O atual chefe do executivo, que já administrou a cidade de 2006 a 2008, depois de 2009 a 2012, agora para um novo mandato de 2017 a 2020,  desconhece desde que assumiu que uma das principais prioridades do saneamento – se não a principal – é combater o desperdício de água tratada. O quadro abaixo, com informações do SNIS, órgão do Governo Federal, vinculado ao Ministério das Cidades demonstra de modo objetivo os números da SAECIL do período de 2008 a 2015 (último ano de dados disponíveis)

O prefeito usa dados irreais (diz que só tem 2 horas de reserva) para tentar convencer a população sobre seu absurdo desejo de construir novo reservatório.. A própria Agencia Reguladora –Ares-PCJ, em seu parecer,02/2016, página 10, informa que a capacidade média de reservação é de 9,70 horas. O desprezo pelas informações necessárias e o desconhecimento do Plano de Saneamento Básico do Município fragilizam a  a justificativa do prefeito.

A tese defendida pelo atual governo municipal, de se construir mais reservatórios para garantir o abastecimento, é furada. Além do desperdício de dinheiro público ela não ataca o cerne do problema. A relação entre reservação/consumo/ perdas, está cristalina no  PMSB – Plano Municipal de Saneamento Básico que, entre outros dados mostra que o volume de reservação exigido será decrescente na medida que se reduzem as perdas. Veja no quadro abaixo,  grifado em amarelo.


Hoje a capacidade de reservação da Saecil supera os 20.000 m3. Isso corresponde, respeitando a base de cálculo acima, a uma capacidade para atender mais de 130.000 habitantes. Alem disso os estudos apontam para redução do ritmo de crescimento populacional.

Combater Perdas de Água Tratada está entre as principais ações adotadas por grandes empresas como a Sabesp, Sanasa. Isso vem reforçar que na gestão pública não cabe mais caprichos e arroubos discursivos.  Para isso essas empresas já demonstraram qual caminho a seguir.

É preciso registrar que na história da Saecil, que tem 50 anos, nunca se teve um Plano de Combate a Perdas. Concebido em 2015, sofreu interrupção com a troca de prefeitos. Somente no início de 2016 as ações começaram a se desenvolver. Instrumentos de medição foram adquiridos. Troca de redes, definição de distritos de medição e controle, foram iniciadas. Agora é preciso, sem intervalos, dar continuidade ao exigente programa. Se antes o desconhecimento permitia qualquer ação, hoje os estudos indicam caminhos obrigatórios a percorrer.

Sabemos que  transparência nunca foi ponto forte de suas administrações. E por ter o maciço apoio da grande maioria dos vereadores, está pouco se lixando para debater e explicar para o povo – que é quem paga a conta – ou mesmo ouvir dos técnicos da Saecil sobre  a fundamentação básica do Plano de Combate a Perdas e suas exigências e objetivos.

“A so­ci­e­dade tem di­reitos sobre a água, mas também deve as­sumir os “de­veres” ao com­par­tilhá-la e dela cuidar” ensina Amyra El Khalili em artigo, aqui.

Na minha breve passagem pelo setor de saneamento, uma das lições que aprendi é que as ações devem ser pensadas e planejadas com objetivos de médio e longo prazos. Mais do que nunca não cabe improvisações ou soluções  tipo remendos. Construir reservatórios ao invés de combater perdas é desperdiçar dinheiro público. Na cara dura.

Não quero acreditar que a visão e o horizonte do prefeito sobre a questão da água em Leme tenham como limite o morro do Cristo.

 

Valentin Ferreira – Redator/ Diretor do Blog do Valentin e   Ex-Diretor Presidente da Saecil.