A VEZ DOS VINHOS URUGUAIOS

Postado por Valentin Ferreira / da Carta Capital
Wanessa Soares

De Carmelo para o mundo.Camila, sommelière do La Frontiers, aposta no boom dos vinhos de pequenas parcelas

Esqueça o tannat. A bebida produzida no Uruguai esmera-se na variedade e no sabor

Tannat é uma uva do sudoeste da França recolhida a seletos redutos na difícil competição com as queridinhas do paladar, como a cabernet sauvignon, a cabernet franc e a merlot. Acabou adquirindo a primazia, numa saga quase épica, a milhares de quilômetros de seu terroir de origem. 

O que aconteceu com a malbec, na Argentina– outra cepa secundária do Languedoc francês –, aconteceu com a tannat no Uruguai. Virou a marca registrada da vinicultura do país. Daí em diante, o Uruguai gostou do negócio, diversificou o plantio, passou a explorar mil outras possibilidades de varietais e assemblages – e hoje não será nenhum exagero dizer que seus vinhos estão entre as três melhores razões para visitar o país, além de celebrar Pepe Mujica e, eventualmente, consumir aqueles produtos medicinais inebriantes agora liberados em farmácias.  

PousoA adega Almacén de la Capilla, perto da antiga Colônia de Sacramento (Regério Assis)

A paisagem uniforme de campanha, sem a ajuda da topografia de colinas e terraços, tão propícia ao cultivo das uvas viníferas, é compensada por outra bênção da geografia: o Paralelo 35 cruza o país pouco acima de Montevidéu, a mesma linha imaginária que coincide com Santiago do Chile, as cercanias de Mendoza, na Argentina, a Cidade do Cabo, na África do Sul, o sul da Austrália em Adelaide e o norte da Nova Zelândia, em Auckland, todas coincidentemente regiões produtoras de notáveis vinhos. Além disso, as condições meteorológicas de clima atlântico-marítimo – dias cálidos, noites frias – asseguram para as uvas uma maturação mais do que adequada.

boom da tannat – e da vinicultura uruguaia em geral – é um fenômeno recente, dos anos 80 para cá, como lembra Camila Ciganda Fleury, 27 anos, sommelière do La Frontera de São Paulo. A aposta, porém, vem de longe.

CenáriosNa Punta del Leste dos cassinos, argentinos e brasileiros travam o campeonato da estentação (Marc Vrin/AFP)

Remonta aos anos 1870, com o pioneiro Pascual Harriague. No entanto, foram vinhedos novos e fatos recentes que reafirmaram a supremacia da uva – hoje responsável por 38% dos 11 milhões de caixas de vinhos, computados tintos e brancos, produzidos no Uruguai.

A criação do Mercosul, em 1991, abriu uma vereda para a exportação de vinhos uruguaios com taxas camaradas, embora o principal mercado importador sejam os Estados Unidos [24%, de acordo com o Instituto Nacional de Vitivinicultura (Inavi)]. 

Comparados com os números da produção, os da exportação são, porém, insignificantes. Apenas 5% são vendidos no mercado externo. Não por acaso, o Uruguai é o país com maior consumo per capita de vinho fora da Europa: 25 litros/ano.

Duas vezes mais do que os chilenos e um pouco mais do que os argentinos (no Brasil, o consumo não chega a 2 litros/ano). Um mercado interno vigoroso ajuda a entender: os 3,4 milhões de uruguaios são brindados com uma renda per capita de 16.806 dólares por ano, a segunda da América do Sul (perdendo apenas para o Chile).

Montevidéu
Montevidéu sintetiza a serenidade de uma nação cool (Dan Moore)

A qualidade recém-descoberta dos vinhos uruguaios, avalia a sommelière Camila Ciganda, deve-se a uma peculiaridade local: metade de suas 190 vinícolas (há quem eleve esse número a 220) produz menos de 100 mil garrafas por ano. Ou seja, enquadram-se facilmente na valorizada categoria de “vinícolas-butique”, produtoras de “vinhos de garagem”. Três entre quatro vinícolas têm menos de 52 mil metros quadrados. 

A escala modesta convida à experimentação e à ousadia. É fácil, hoje, você se surpreender com um albariño/alvarinho capaz de rivalizar com um espanhol ou um vinho verde português. Ou um chardonnay ou um sauvignon blanc, ou mesmo um raro viognier.

Entre os tintos, a primazia da tannat é assediada pelas cabernet franc, merlot e sangiovese recentemente testadas. A hora do Uruguai já produziu um efeito colateral inquietante: os preços dos vinhos mais requintados subiram à estratosfera. 

BouzaOs turistas do paladar são bem-vindos em bodegas como a Bouza, a 15 minutos de táxi da capital

sommelière Camila Ciganda tranquiliza: “Há uma onda de jovens enólogos e investidores com dinheiro, que vêm entrando no negócio sem prejuízo da tradição das velhas famílias, tais como Carrau, Stagnari, Bouza e Pisano. Pela diversidade de terroir, o Uruguai ainda tem muito a oferecer”. 

Até nisso o país de Pepe Mujica merece o spot que hoje o contempla. Governado há 13 anos pela esquerda, o país tem o melhor coeficiente de democracia da América Latina, segundo The Economist Intelligence Unit, o menor nível de corrupção, é também o campeão da prosperidade e do respeito à lei.

Invejáveis são a liberdade econômica, a religiosa e a de imprensa. A agenda progressista avança: legalizou o aborto em 2012 e liberou a cannabis e o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2013. É o caso de brindar a tudo isso. 

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