BANQUEIRO É O LÍDER DO MANIFESTO CONTRA O PAPA FRANCISCO

Postado por Valentin Ferreira / Por Mauro Lopes em seu Blog
O banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, líder da oposição ao Papa

Um banqueiro é o articulador da ofensiva ultraconservadora contra o Papa, num grupo de 79 signatários dentre os quais não constam cardeais, bispos, teólogos ou figuras de maior expressão no catolicismo. Há de tudo: membros da TFP, sedevaticanistas (que consideram que a Igreja não tem Papa desde Pio XII) e um inimigo feroz das investigações contra os milhares de casos de abuso de menores na Austrália. O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo. Mas o pano de fundo é o combate frontal à opção de Francisco pelos pobres e o desejo de ver revogado o Concílio Vaticano II.

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No último domingo (24) foi divulgada a “carta de correção formal” que conservadores católicos de diversos países assinaram para criticar o Papa e sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor).

O banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi é o líder do manifesto dos conservadores católicos que acusam o Papa Francisco de cometer “heresias”. O fato de um banqueiro ser o líder de um ataque contra o chefe da Igreja dá a dimensão precisa do evento, ainda mais que o alvo dos acusadores é um Papa que escolheu estar ao lado dos pobres de todo o planeta. De um lado, o banqueiro; de outro o Papa dos pobres.

O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo -como se poderá observar mais abaixo.

Mas o fundo da questão remete a uma frase de Jorge Semprún que frei Betto costuma repisar: “a cabeça pensa onde os pés pisam”. E, de fato, os solos em que pisam Tedeschi e Bergoglio são muito diferentes. A posição de cada um deles sobre o capitalismo dá a dimensão de uma das facetas que separa os conservadores de Francisco –a outra é o controle sobre a vida afetiva e sexual das pessoas.

O Papa é um severo crítico do capitalismo, que qualificou como uma “ditadura sutil” no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015. Para Francisco, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” (aqui). No ano seguinte, na terceira edição da reunião com os movimentos populares, o Papa falou especificamente sobre os bancos: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto?”.

O banqueiro Gotti tem uma visão do capitalismo diametralmente oposta à do Papa. Não é à toa: em 1987, ao fundar na Itália o banco Akros, arrebanhou nada menos que 275 milhões de euros de ricos italianos e de outros países da Europa e EUA. Alguns anos depois, ele se associou ao multimilionário Emilio Botín para fundar a filial italiana do Banco Santander, que presidiu por alguns anos.

Como se vê, o líder e porta-voz dos conservadores rebelados não tem o que reclamar do capitalismo sobre o qual escreveu uma verdadeira elegia num artigo para a Fundação Liberal da Itália: “A economia é uma técnica avançada e sofisticada, mas neutra, que, para ser vantajosa para o homem, deve ser considerada importante, central. […] O capitalismo, sem dúvida, fez muito pelo homem e pode fazer muito mais”.

Em 2005, foi investigado por irregularidades num rumoroso caso envolvendo a Parmalat, que acabou prescrevendo sem julgamento em 2007. O processo não impediu que em 2008 ele fosse nomeado gestor das finanças da Cidade do Vaticano. De quem partiu o convite? Do então todo poderoso cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, homem forte do papado de Ratzinger e hoje envolvido num escândalo de grandes proporções: o desvio de dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, do Vaticano, para uma reforma de 500 mil euros na sua megacobertura de 600 metros quadrados com 100 metros quadrados de terraço.  Em 2009, Gotti foi nomeado por Bento XVI presidente do IOR, o Banco do Vaticano, para ser acusado um ano depois pela Procuradoria de Roma de violações às normas contra a lavagem de dinheiro nas instituições financeiras –em 2012, foi afastado do Banco.

Em entrevista ao site conservador espanhol InfoVaticana, Gotti Tedeschi pontificou, com a soberba e a ironia típicas de um banqueiro: “Imagino que o papa vai agradecer os signatários do documento e vai querer se reunir um por um para reconhecer os erros cometidos no seu magistério”.  Uma nota: nenhuma mídia católica conservadora qualificou-o como banqueiro em todas as reportagens ele foi apresentado pela denominação de economista, que devem ter considerado menos antipática ou denunciadora.

TFP, sedevaticanistas e ao menos um defensor dos pedófilos – Na verdade, dizer que Gotti é líder de um movimento conservador é, talvez, uma matização forçada. Ao se examinar os nomes dos signatários da carta contra o Papa, o que se vê é uma reunião de ultraconservadores ou, para citar Francisco, verdadeiros restauracionistas que de maneira aberta ou vela opõem-se ao Vaticano II e advogam a restauração do Concílio de Trento (1545-1563), que marcou o rompimento da Igreja com a modernidade nascente e significou uma declaração de guerra à Reforma Protestante.

Outros dos líderes do grupo é Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e herdeiro de Marcel Lefebvre, o bispo cismático arquiconservador que se rebelou contra o Vaticano II, acusando-se de “liberal e protestante” e que escreveu numa carta para João Paulo II em 1985 que os judeus, comunistas e maçons seriam “inimigos declarados da Igreja”. Nem o conservador Wojtyla aguentou o grupo de Lefebvre, que foi excomungado por ele –pena suspensa em 2009 por Bento XVI.

O grupo de signatários da carta é espantoso –ela tem recebido adesões e, na terça-feira (26) eram 79. Nenhum nome de expressão na Igreja ou no terreno da formulação teológica contemporânea.  Nenhum cardeal ou bispo, exceto pelo bispo emérito da diocese de Corpus Christi, no Texas, dom Rene Henry Gracida, de 94 anos. Em entrevista ao National Catholic Reporter, Richard Gaillardetz, teólogo do Boston College e ex-presidente da Associação Católica Teológica dos EUA afirmou que os signatários “são figuras marginais” na Igreja e “devem ser reconhecidos como vozes extremistas e automarginalizadas”.

Veja-se o caso do Brasil. Dois brasileiros assinam o documento, monsenhor José Luiz Villac e Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, ambos sem expressão na Igreja brasileira e membros da infame TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica de extrema-direita que apoiou a ditadura militar e as prisões, torturas e mortes de opositores ao regime.

Outro dos signatários é o padre francês Claude Barthe, que durante anos um estridente membro dos grupos dos sedevaticanistas –ultraconservadores para quem que a Santa Sé está vaga desde a morte do Papa Pio XII, em 1958. Para eles, João XXII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco são usurpadores do “trono de Pedro”. Não pense que isso é piada, é sério, há mesmo grupos que pensam assim, e o padre Barthe foi membro desses grupos durante anos.

Mas não é só.

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