CERTOS COLÍRIOS E A CEGUEIRA

Por Valentin Ferreira             Imagem relacionada                                                 Imagem : Reprodução                                                         

CERTOS COLÍRIOS E A CEGUEIRA

Por Valentin Ferreira

O colunista humorista José Simão sempre termina suas cáusticas colunas com o bordão: “vou pingar meu colírio alucinógeno”.

Dia desses numa tirada, garfou o seguinte pensamento: “Acordei, mas não recomendo”. Sempre muito perspicaz em suas tacadas humorísticas, Macaco Simão, alcunha pela qual se intitulou, rotula os fatos políticos e seus personagens com tempero apropriado.

Num momento anormal, com situação anormal, com uma Justiça fora do normal, nem sempre dá para pensar no Brasil se não for com algum tempero humorístico. Barão de Itararé, o grande jornalista e humorista não desperdiçou coerência quando sentenciou: “de onde menos se espera, é daí que não sai nada”

Pare de ler por alguns segundos, e tente enveredar-se pela sonora trilha desta frase do Barão.

Voltemos à realidade.

Quando se esperava que o STF, último bastião da legalidade e justiça, tivesse um posicionamento coerente nos casos que envolveram alguns políticos cinco estrelas, o que acontece. Nada. Exatamente nada. Tal qual Pilatos a presidente lavou as mãos de tal forma que a ninguém é dado o direito de “desconfiar”.

Estamos no mato sem cachorro.  No deserto sem água. No Brasil sem eira nem beira, e pior, sem Justiça.

Você, eu, e tantos outros mortais comuns que seremos enterrados sem qualquer cerimônia, lemos, vemos e ouvimos abestalhados coisas anormais que pela insistência da pregação hegemônica de “normalidade” nos tornamos “fiéis normais” da mais estúpida anormalidade. PQP.

A perseguição sobre uns e as passadas de mão na cabeça de outros fazem da Justiça verdadeira fábrica de remédios jurídicos bem ao gosto do modelo adotado. Mais espetáculo, mais condenação pela mídia e menos Justiça. Condenação à “morte” de uns, tidos como adversários, e imunidade dos amigos e para os amigos dos amigos.

Por que todos são iguais perante a Lei. Está na hora de colocar um “quase” no meio disso.

Juntem as panelas, os coxinhas, a mídia dominante, os oportunistas e todos que querem o Brasil sem Eletrobrás, sem Petrobrás, sem empresas que exportam tecnologia, sem o pré-sal, sem a Amazônia. Sem tudo aquilo que precisamos para não transformar o Brasil numa filial bem-comportada dos interesses dos neocolonizadores.

Disseram, e ainda dizem que o que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Para quem no Brasil? Para meia-dúzia de sempre. Para os privilegiados que batem bumbo e fazem continência à bandeira americana? Claro esses sempre levarão vantagem e terão as compensações de “bons colaboradores”.  Já a maioria, com número de identidade, mas sem identidade como gente, leva o que a fulana levou atrás da horta.

Está difícil olhar para o Brasil que está sendo deixado pelo bando de golpistas. Compram apoio com dinheiro público, satisfaz com legislação retrógrada os donos da banca, e deixam esquecidos os pés descalços, aqueles que só são lembrados como eleitores. Tente lembrar de uma só medida tomada pelos golpistas “com Supremo e tudo” que beneficia o povão? Não há.

Hoje a gente pode ignorar ou fazer vistas grossas para o que está acontecendo. Um pálido véu cobre as consequências desastrosas que se acumulam. Enganam-se os grilos achando que poderão cantar todas as noites e nada vai acontecer. Os sapos estão e estarão à espreita.

Para muitos, é receitado o melhor colírio. Aquele em cujo rótulo diz: “especial para os que nada querem ver. Use em abundância e sentirá alívio prolongado”.

Ou mesmo aquele “pingo duplo” que pode definir o que se quer e não se quer ver. Ótimo para os que se dizem apolíticos.

O pior talvez não seja usar momentaneamente esse ou aquele colírio. Os que trabalham para fazer do Brasil o que estão fazendo, apoiados no ranço e na aversão à política, que engenhosamente produziram na mente de milhões de brasileiros já podem comemorar outros resultados.

Talvez seja tarde demais quando os usuários de colírios alienantes e anestésicos, constatarem o efeito colateral irreversível. A cegueira.

À lembrança virá apenas a imagem construída em um passado recente. Que era possível sonhar com um país justo e de oportunidades para todos.