FIM DE ANO NA FIRMA, Por Fernando Fabbrini

Postado por Valentin Ferreira

Em 95,8% dos casos, as festas de empresa atingem seu ápice alcoólico-musical ao som do onipresente “Whisky a Gogo” do Roupa Nova

Por Fernando Fabbrini*

Além dos perus congelados – esses alienígenas disfarçados que invadem as geladeiras dos supermercados quando chega dezembro – o fim de ano traz mais um efeito colateral inevitável: as festas de empresa.

A confraternização obedece a um esquema rígido, previsível, regulamentar, e reúne personagens típicos encontráveis em qualquer salão de festas alugado às pressas pelo gerente administrativo. Normalmente, na véspera da festa, a analista de Comunicação ainda polemiza com o pessoal do RH por conta de detalhes da decoração. Uma facção tradicionalista insiste em confetes e serpentinas de ano novo; outra prefere adereços mais modernos, como arranjos de frutas despencando pelas paredes e duendes em trajes tropicais.

O figurino dos participantes também é padronizado: as mulheres marcam salão, manicure e escova progressiva; compram vestidos brilhantes e se empetecam da cabeça aos pés – brincos, colares, pulseiras e sapatos novos. Já os homens vão de bermudão, chinelo e camiseta. E logo após a entrada no salão, marcada por risadas e piadinhas mútuas, os grupos ocupam as mesas mantendo rigorosamente o organograma: tem a mesa do Financeiro; a do Administrativo; a turma da Informática e assim por diante. Alguém lembra que são proibidos assuntos de serviço mas, após a primeira rodada, só se fala em trabalho, lógico.

Tem aquela funcionária linda, plenamente consciente de seus atributos, e que aproveita a festa para exagerá-los ainda mais, virando o centro dos comentários masculinos e das fofocas femininas. Alguém vai se dar bem hoje com a gatona? Claro que não: ela só quer seduzir geral, seus bobos. Tem também o engraçado-chato, que passou o ano colecionando piadinhas e faz questão de repeti-las circulando pelas rodinhas. Quanto mais bebe, mais chato fica, sendo o último a sair da festa – quando não de ambulância.

Embora a paquera seja oficialmente banida entre colegas, é óbvio que ela existe, velada ou explícita. A festa de fim de ano é uma chance ótima no calendário para evidenciá-la, favorecendo os tímidos. Ouvidos atentos sempre escutam declarações de amor discretas e convites para esticadas pós-evento:

– Robertinho… Gosto muito de você; mas só como colega, viu?

A trilha sonora fica por conta do tecladista e seus mil acessórios eletrônicos, incluindo play-backs digitais de todos os sucessos das últimas décadas. Quase sempre o DJ inicia sua performance com coisinhas leves e digestivas, canções insípidas, incolores e inodoras como as do Djavan, atendendo ao gosto geral. Isso dura até que alguém resolve gritar “música baiana aeô!”. Preparados para este momento fatal, os bons tecladistas deixam a Ivete rolar a festa e aceleram o ritmo pressionando a tecla vermelha de emergência do Yamaha. É sinal que os níveis alcoólicos e de desinibição dos convidados já bateram no teto e ele pode turbinar a zoeira sem escrúpulos.

Moças e senhoras, ainda assentadas, começam a ensaiar movimentos de braços, ombros e quadris, lançando olhares sutis aos possíveis pares, cavalheiros que ainda tomam coragem na cerveja. Parte da turma finalmente solta a franga e cai na dança, na onda dos hits da Jovem Guarda ou de abordagens intrigantes da física e astronomia tipo “você é luz, é raio, estrela e luar”. Iaiás e ioiôs trocam juras e beijinhos.

Súbito, o tecladista faz uma pausa dramática e desfere a temida introdução: “é bonita, é bonita e é bonita!” Ai, ai, ai! A coisa pega fogo, já que numa festa de fim de ano, todos – do estagiário ao presidente – querem viver e não terem vergonha de serem felizes. Ultrapassado este momento crucial, nada mais estará sob controle no inconsciente dos festeiros – incluindo libido, autocrítica, senso de ridículo e noções básicas de civilidade. Os decibéis enlouquecidos invadem corações, mentes e orelhas. O caos se instalou, não tem mais volta.

Em 95,8% dos casos, as festas de empresa atingem seu ápice alcoólico-musical ao som do onipresente “Whisky a Gogo” do Roupa Nova. Ressalte-se que a maioria, errando o refrão, perguntará aos berros pelo holandês desaparecido. Inútil: ele jamais será encontrado. No final, há sempre restos de cerveja morna nos copos; dois ou três vomitando no banheiro; uma briga de casal ciumento apaziguada; caras felizes e outras emburradas; moçoilas que ainda resistem dançando sozinhas para desespero do pobre tecladista – suado, faminto e exausto.

Mas o pior ainda pode acontecer: quase no encerramento, lá pelas tantas, alguém puxa os primeiros versos do hino de seu time; a galera adversária, provocada, retruca. Aí, amigos, só chamando a polícia para fazer o inventário e recolher os destroços.

* Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.