SUPERAR QUAL VIOLÊNCIA? CAMPANHA DA FRATERNIDADE DÁ O QUE PENSAR.

Postado por Valentin Ferreira

CF 2018 é um convite à conversão, no qual cristãos se empenhem na transformação de todas as realidades de violência.A urgência do debate a respeito da superação da violência, em todas as suas formas, é um verdadeiro sinal dos tempos e, por isso, torna-se questão teológica. (Reprodução/ Pixabay)

Por Felipe Magalhães Francisco*

O tema da segurança pública é uma pauta sempre presente nas campanhas e debates políticos, pois corresponde a uma real preocupação dos cidadãos e cidadãs. Esse debate, porém, está muito restrito a algumas formas de violência. Refletir sobre a superação da violência pressupõe tocar em muitos pontos, pois este é um mal que poderíamos chamar de “camaleão”: está muitas vezes camuflado e onipresente em nosso cotidiano. É o que a Campanha da Fraternidade deste ano, proposta pela CNBB, quer debater. Mais que isso, é um convite à conversão, no qual cristãos e cristãs se empenhem na transformação de todas as realidades de violência. É certo, no entanto, que esse debate extrapola o cristianismo e, além de ser de interesse de toda a população, é uma questão sempre urgente.

A urgência do debate a respeito da superação da violência, em todas as suas formas, é um verdadeiro sinal dos tempos e, por isso, torna-se questão teológica. É por isso que as religiões precisam se debruçar sobre essa questão, se não querem perder o fio da história. A superação da violência é uma conversa e um grito que já ocupa o espaço público. Um exemplo disso foram as campanhas contra todos os tipos de abuso contra mulheres, no último carnaval, sob o mote “não é não!”. As redes sociais são muito importantes nessa apropriação do tema por vários setores da sociedade: elas têm sido um importante canal de conscientização e de denúncia. Claro que tal cenário de resistência tem encontrado forte reação, o que também podemos acompanhar pelas redes sociais.

Resistência e reação são duas atitudes que revelam a ambiguidade de nossa história, também quando a questão é sobre a violência. É espantoso que a segurança pública seja um dos temas mais importantes no cenário político-social do país e que a maior parte dos defensores da pena de morte se autodeclarem cristãos e cristãs. Também provoca espanto o fato de que haja cristãos e cristãs, aqui inclusos presbíteros que se orgulham ao posar para fotos portando armas de pesado calibre, empenhados na defesa pelo armamento da população, como se a história já não nos tivesse dados provas o suficiente de que violência só gera mais violência. Em ano eleitoral, um alerta de uma real ameaça é a escolha por candidatos que proponham respostas fáceis – e desumanas – para a solução do problema da violência, quando, na verdade, seus discursos são pura agressividade, ódio e desrespeito aos direitos humanos.

Uma palavra também precisa ser dita a respeito da violência provocada pelo próprio discurso religioso. Essa é uma realidade muito comum no cotidiano de nossa sociedade. Muitas vezes, as comunidades religiosas se prestam ao papel de propagadoras de uma ideologia travestida de religião e fidelidade ao divino, quando, na verdade, são incitação à violência, em diversificadas formas. É preciso cuidado e sensibilidade crítica, para não ceder a esta armadilha, que só faz com que as pessoas se desumanizem e que desumanizem as relações.

Ampliando a discussão

Abrindo a conversa, Aldo Reis, com o artigo A violência como descaracterização do humano: uma perspectiva antropológica, reflete a relação entre o ser humano e a violência, a partir da filosofia, levantando questões importantes.

No artigo, temos a contribuição de Frederico Santana Rick, que reflete sobre a Fraternidade como caminho para a superação da violência. No texto, o autor faz uma importante análise das diversas formas de violência presentes na sociedade brasileira, a respeito das quais a Campanha da Fraternidade nos ajuda a refletir. Por fim, termina por apontar a promoção de uma cultura de paz e o reestabelecimento do pacto democrático como formas urgentes de superação da violência.

As religiões são muito importantes na promoção da paz e na superação da violência, seja por sua própria natureza, sejas porque também elas, em vários momentos da história, estiveram envolvidas diretamente com a cultura da violência: ou por serem vítimas ou promotoras. Não sem motivos, as religiões são as que mais combatem, atualmente, essa cultura da violência. É o que nos ajuda a refletir Alex Kiefer, no artigo Religiões contra violência: uma alternativa de paz.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).