CAZUZA, MARIELLE E A REDE GLOBO, Por Alexandre Tambelli

Postado por Valentin Ferreira

Por Alexandre Tambelli / Jornal GGN

O caso Marielle na Globo faz-me lembrar a morte de Cazuza. No dia da sua morte o JN fez uma reportagem sobre o Cantor, Compositor, Homossexual, um cara libertário, super engajado socialmente e politicamente, que cantava bem assim:

“A Burguesia fede, a Burguesia quer ficar rica, enquanto houver Burguesia, não vai haver Poesia.”

E na reportagem tudo se transformara na versão 1990 da Marielle de hoje: transformado foi Cazuza em um homem que lutava contra uma doença sem cura e de tratamento complexo e menos eficaz que hoje à época e não o contestador e crítico social.

Entrevistaram um Senhor de Idade, uma criança, gente simples, como símbolos de uma tristeza com a Morte de um cantor famoso e que ficou doente de uma doença, a AIDS, que deteriorava com rapidez a Vida e que tinha vontade de lutar contra este infortúnio e viver, compor e cantar muito mais.

Tratado foi como se ele fosse parecido ao cantor sertanejo Leandro, falecido em 1998, mais como um cantor famoso e jovem, do que um contestador e crítico da sociedade hipócrita em que vivemos e seu mundinho capitalista, egoísta e careta burguês que Cazuza cantava em suas músicas!

Quase nenhum sinal de seu lado contestador, nenhuma discussão aprofundada de suas ideias, entrevistando pausadamente quem eram seus amigos de verdade e fãs para falarem de sua rebeldia, de sua visão de mundo e crítica ao universo social em que vivia.

Cazuza sequer, na época não foi preciso, precisava ser colocado como homossexual.

Cazuza foi transformado, quase que exclusivamente, em um artista famoso que lutava bravamente e tão somente contra uma doença sem cura!

Marielle não estaria sendo colocada na mesma barca? Uma pessoa que lutava pela Vida (tinha tesão em viver), pela comunidade, por pautas identitárias, negra e homossexual, que por mérito ascendeu socialmente e educacionalmente e sendo destituída pela Globo, como a emissora fez com Cazuza, do seu ativismo político, da sua crítica social, da sua crítica ao Capitalismo, à Burguesia e ao Sistema? Marielle que é contrária à Intervenção Militar no Rio de Janeiro, que a Globo é favorável, e a Globo “esquece” de contar com clareza este fato aos seus telespectadores.

A narrativa da Globo aceita pautar causas identitárias hoje, é politicamente correto falar de homossexualidade.

Imaginemos que maravilha transformar a Marielle na mulher que por esforço próprio e sendo negra e favelada chegou ao Mestrado numa Universidade Pública, virou Vereadora e ascendeu socialmente por méritos individuais.

Não é a imagem perfeita para o discurso da Globo?

A narrativa da Globo não aceita pautar causas sociais e críticas ao Capitalismo, à Burguesia e ao Sistema em busca de transformação da sociedade de castas e do modelo econômico neoliberal.

Tudo o que for contestação ao Sistema a Globo buscará controlar a narrativa e seus personagens, porque ir contra o Sistema é poder modificá-lo em suas estruturas por dentro e Marielle é contestação e busca de transformação de mentes e da sociedade Burguesa como foi Cazuza nos anos 80.

Podemos dizer que a união de brasileiros para causas identitárias (LGBT, luta contra o racismo, pela liberdade religiosa) na Globo pode, já para causas socioeconômicas não pode.

Causas identitárias não transformam o Sistema por dentro, não mudam o Sistema econômico de Capitalismo Neoliberal para Socialdemocracia ou Socialismo ou Comunismo, não causam melhor distribuição de renda, não se questiona com elas a sociedade do dinheiro concentrado em 1% da pirâmide social e mantêm-se a sociedade de castas intacta.

Causas identitárias não são subversivas para a Globo, e se tornam necessárias, após a ascensão do fenômeno Bolsonaro!

Ir além de causas identitárias é que não podemos, esta a razão central da busca de controle da narrativa da morte da Marielle pela Globo.

O que ela pensa sobre economia e sociedade e socialismo não pode chegar ao seio da sociedade, causas identitárias podem, e sempre foi assim e continuará sendo, seja com Cazuza seja com Marielle e qualquer outra possibilidade de subversão à ordem estabelecida ou capaz de criar as sementes de uma consciência social coletiva e produtora de uma Revolução Social.

Uma última coisa: a Globo nunca foi nem será um dia a favor de cazuzas e marielles, quem se dispor a acreditar possível uma relação honesta da Globo com o caso da execução de Marielle, estará, na verdade, se dispondo a não elucidar com clareza o motivo de sua morte, estará contribuindo para a transformação da Marielle real em uma outra Marielle inofensiva ao Sistema.

Marielle não é da Globo nem nunca foi!

Da Globo são a Suzana Vieira, a Fátima Bernardes, a Angélica.

Dar à Rede Globo espaço privilegiado e central para ela se ocupar da “elucidação” da morte de Marielle é transformar Marielle em uma imagem padrão, identitária e só, bonita de se estampar numa camiseta e torná-la um produto de consumo Capitalista fabricado por alguns empreendedores que assistem o programa da Ana Maria Braga & assemelhados e recebem dicas da emissora de como empreender e driblar a crise. É manter o Sistema intacto e nada mais.

Vídeo da reportagem do JN no dia da morte de Cazuza: