CARAVANA DO LULA. VAI TER GUERRA ATÉ QUE SE DEFINA O MACHO ALFA? Por Armando Coelho Neto

Postado por Valentin Ferreira

Por Armando Rodrigues Coelho Neto./ jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

Currais eleitorais, trapaças, propaganda enganosa, direitos de resposta negados (mal ou bem concedidos). Desigualdade no financiamento de campanhas e no tempo de propaganda eleitoral. Horários políticos comprados para poupar o candidato “civilizado” de não baixar o nível. Antes, durante e depois das campanhas, tristeza, desolamento, revolta, inconformismos na batalha desigual. No fim da campanha, a pergunta sem resposta: onde foi que erramos? Era assim ou mais ou menos assim, mas bom ou ruim, nossa esquálida democracia era decidida no voto, apesar da desconfiança quanto às urnas eletrônicas, até hoje vivas.

Na farsa democrática, tudo adrede costurado para que as forças populares apenas compusesse um quadro de aparências, retórica, pra inglês ver, ceninha civilizada para o mundo. Internamente, era só pra competir, para constar, mera concessão, até com financiamentos “republicanos” de campanha. Eis que o povo elege Luís Inácio Lula da Silva. De certa forma rola um deixa pra lá. Seriam apenas quatro aninhos prum analfabeto de nove dedos, e, como dizia a velha guarda da PF, seria “um macaco numa vitrine de cristal”, que destruiria tudo. Consumado o estorvo, a elite do atraso estufaria o peito para deslanchar: eu não disse? Lugar de pobre é na favela…

Mas, vieram os avanços econômicos e sociais frente a mundo em crise e a projeção positiva do Brasil mundo afora. Eis que quando a classe média começa a encontrar pobres nos açougues e aeroportos, eclode a sensação de seu empobrecimento. Estranha sensação que logo se fundiria ao ódio – declarado ou enrustido. Os mais vergonhosos ataques surgiram contra os projetos sociais implantados pelos governos Lula e Dilma (Fora Temer!). Odiosos ataques contra programas como Fome Zero, Bolsa Família, Mais Médicos e cotas raciais entre outras. Protagonizaram o vergonhoso ataque aos médicos cubanos no aeroporto de Fortaleza, sobretudo as médicas negras, que “pareciam empregadas domésticas”.

A direita se explodiu em ódio e hoje é improvável que alguém de esquerda possa se dizer imune a ele. O tema ódio já estava presente no nosso texto da semana passada, num breve mergulho na psicopatia social, por conta dos que tentaram cometer o segundo assassinato da vereadora Marielle Franco. O tema não me saiu da cabeça e me deparei com um texto antigo sobre o ódio à Presidenta Dilma (Fora Temer!), escrito pelo ex-prefeito do Rio Saturnino Braga. Ele lembra do ódio a Getúlio Vargas em 54 e a João Goulart em 64 e as consequências negativas.

Ao falar dos insultos àquela Presidenta durante a abertura da Copa, em São Paulo, ele destaca veemência e expressão de violência coletiva. “Eu já tinha observado manifestações individuais de ódio ao PT, e a ela pessoalmente, até em pessoas muito amigas, que me causaram espanto”. Mas o ódio paulista, diz ele, o deixou realmente preocupado. Pobre Saturnino! Ele não tem ideia do ódio gaúcho, ainda que o ódio sob essa perspectiva, não possa ser acolhido como característica de um povo, região, mas sim típico da psicopatia social em qualquer parte do mundo.

Insisto no tema depois de assistir as hostilidades contra a Caravana de Lula na região Sul do Brasil. Cenas grotescas e patéticas – algumas delas com flagrante omissão, conivência e cumplicidade de risonhos policiais. Cenas coronelescas, patifaria de primatas assassinos em potencial. Assisti a essência de ódio, absolutamente sem razão de ser. Que ameaça representaria um político que, enfrentando um “justiçamento” político, tenta se defender politicamente em palanques nas ruas, buscando um espaço que a mídia golpista não lhe dá? Que direito de alguém estaria ferido a ponto de gerar tanta violência?

Durante o “justiçamento” de Lula pelo TRF4 (Porto Alegre), pude constatar “in loco” e por meios de vídeos, agressões e tentativas de agressões contra militantes petistas. Vi hostilidades sutis, como o corte de luz do salão da Assembleia Legislativa; soube de agressões a integrantes do Movimento dos Sem Terra e ataques a um suposto hotel onde Lula estaria hospedado. Aquele corte de luz na assembleia local e o sorriso de policiais exibidos nos vídeos servem de referência do caráter oficial que o crime de ódio vem recebendo dos poderes públicos. A terra sem lei, de que falou a procuradora-geral da República Raquel Dodge, melhor se aplicaria às cenas primatas que se viram no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

(Volto rapidamente ao assassinato de Marielle Franco, em face de notícias de que várias câmeras teriam sido desligadas no percurso que ela passaria. É mais um forte indicador do casamento oficial do Estado com a onda de ódio e da violência).

O direito do ex-presidente Lula e de qualquer cidadão se manifestar em público é garantia constitucional e precisa ser garantido. O estado precisa ter um olhar especial sobre isso, sob pena de deixar sair mais ainda do controle a prática do crime de ódio no Brasil.

Encontrei no site Consultor Jurídico (Conjur) um artigo da juíza Larissa Lula (Rondônia), no qual ela destaca que “A maioria dos países de regime democrático entende que a proibição do discurso do ódio não fere o princípio da liberdade de expressão ou manifestação de pensamento…” A Alemanha pune quem insulta ou difama segmentos da população, o Canadá criminaliza quem intencionalmente promove o ódio e Portugal pune a discriminação e discurso do ódio, diz a magistrada. O Brasil garante a liberdade de expressão e pune preconceitos. Por que a omissão diante dessa canalhice do coronelismo de alguns sulistas?

Sem prejuízo da segurança usual, prevista na lei 7474/86, para proteção de um ex-presidente da República, há quem defenda a criação de grupos para fazer frente à truculência da extrema direita, hoje vergonhosamente financiada por grandes empresários. Mas, a quem interessaria dar o primeiro tiro? A agressão desviaria o debate no campo das ideias e entraria na irracionalidade. A luta social ganharia cunho sanguinário e de vingança. Você mata um meu e eu mato um teu, como na velha cidade de Exu, hoje Asa Branca (PE). Seria desvio de foco em prejuízo da luta pelo direito, cidadania, dignidade, justiça social. Como disse um amigo, somos guerreiros e se precisar guerrilheiros, mas, por que não apostar no diálogo?

Ao assistir as cenas de violência, um delegado federal me mandou a seguinte mensagem: Lula vai ter que criar uma brigada de truculentos? Vai ser guerra sob o signo do ódio, até que se defina o macho alfa? Talvez sim, a prevalecer a omissão do Estado.