POR QUE LULA DESPERTA TANTO AMOR E ÓDIO, Segundo o Psicanalista Raul Pacheco da PUC-SP

Postado por Valentin Ferreira

De um lado Lula é abraçado e de outro manifestantes pedem sua prisão

Por Nexo Jornal /João Paulo Charleaux

Raul Pacheco fala ao ‘Nexo’ sobre as intersecções entre política e psicanálise no atual momento brasileiro

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste sábado (7) tem origem na Justiça e reflexos na política. As reações a ela, entretanto, só podem ser completamente entendidas com a ajuda da psicanálise. O Nexo entrevistou por escrito o mestre, doutor e professor de psicologia da PUC de São Paulo Raul Pacheco, que é também coordenador do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade. Pacheco falou da intersecção entre a política e a psicologia, no momento atual que o Brasil atravessa. Para ele, crises podem ser momentos de transformação positiva, desde que canalizadas por “forças organizadoras” capazes de conduzir o processo numa direção construtiva. O professor explica os motivos da paixão e do ódio extremo que o ex-presidente petista – que quer disputar de novo o comando do país em 2018 – desperta numa sociedade politicamente dividida.  – Leia a entrevista a seguir

Os fogos e comemorações com a ordem de prisão de Lula demonstram uma satisfação com a efetividade da Justiça, ou expressam sentimentos da ordem do ressentimento pessoal?

RAUL PACHECO: Lula sempre exerceu grande liderança, mas também sempre teve uma parcela significativa de desafetos. E aqui podemos inserir outra consideração psicanalítica. A realização e lugar de prestígio que as pessoas buscam no que chamamos de discurso capitalista faz-se progressivamente por meio da sua condição econômica e de sua capacidade de consumo. A tal ponto que isso passa a absorver a quase totalidade da vida. Até mesmo as aspirações espirituais e religiosas e as de ligação no laço social são atravessadas pelo econômico: veja-se a progressão da chamada teologia da prosperidade e o crescimento espantoso das igrejas-empresas. Junto com isso, vêm o crescimento e a consolidação de uma ideologia da realização individual autocentrada e egoísta, em função da localização na pirâmide econômica.

Diferenciar-se dos demais, superando-os e deixando-os em posição econômica e de consumo inferior passa a ser a via socialmente prescrita de sucesso e de realização pessoal. Ser mais rico e melhor inserido no universo de consumo é concebido e sentido como virtude e mérito: basta lembrar a propagação da ideologia da meritocracia. Importa bastante poder consumir mercadorias como forma de tentar se aproximar do que se apresenta de modo indefinido como realização de desejo. Mas também é essencial poder consumir mais e melhor do que os demais, pois isso confere a insígnia social do vencedor (winner), estabelecendo a distância dos perdedores, que não têm competência para chegar ao topo. Do mesmo modo que a lepra foi considerada castigo divino pelos pecados cometidos, assim é, inconscientemente, sentida a pobreza e a penúria pelo sujeito do capitalismo: falta da Graça Divina. Nesse sentido, podemos dizer que o discurso capitalista cria uma espécie de religião da riqueza econômica e do consumo e não é à toa que a própria instituição religiosa tenha sido capturada nas malhas do discurso e da lógica capitalista.

Compreende-se então que uma liderança que governe visando distribuição da riqueza e ampliação da capacidade de consumo da população desperte o desconforto e até mesmo o ódio dos que se encontram, senão no topo, pelo menos em posições intermediárias da pirâmide econômica e de consumo. O que ocorre com minhas insígnias de status e de realização, se elas são espalhadas pela população, esvaindo-se o que ressalta minha diferença e atesta o meu mérito? Meu automóvel pode continuar a me transportar de um lugar para outro, mas não me oferece o mesmo sentimento de realização se o zelador do meu edifício ou o garçom do restaurante que frequento também se locomovem da mesma maneira. As praias de Miami podem continuar agradáveis, mas não me conferem mais o mesmo sentimento de grandeza (realização fálica, diríamos psicanaliticamente), se escuto minha cabeleireira (ou, pior, minha manicure) dizer que ela também já esteve por lá algum dia.

Foi a energia de insatisfação dessa parcela da população em posição intermediária da pirâmide econômica que, em um momento de aperto econômico, a grande mídia – de que a revista Veja e a Rede Globo são paradigmas – conseguiu capturar e dirigir para manifestações a favor do impeachment de Dilma e da prisão de Lula. O mote nós conhecemos: a defesa da moralidade e contra a corrupção; e que se desmascara, quando não se dirige contra um governo empossado com inquestionáveis indícios de corrupção.

‘A melhoria da condição econômica não foi acompanhada de aumentos comparáveis da consciência política e da solidariedade social’ Paradoxalmente, uma parte desse estrato ascendeu a essa posição intermediária exatamente em função da distribuição econômica operada nos próprios governos de Lula: é a criatura voltando-se contra o seu criador. Este é um ponto a requerer uma profunda reflexão por parte de partidos políticos e pensadores sociais comprometidos com a transformação e melhoria da condição econômica da população: o que não é possível no escopo desta entrevista. Registro apenas a observação de que a melhoria da condição econômica não foi acompanhada de aumentos comparáveis da consciência política e da solidariedade social.

Outro ponto essencial para se entender como a energia de parcelas da população está sendo capturada para produzir retrocessos civilizatórios e até mesmo espoliação da própria riqueza do país (petróleo, água, empresas etc) é a atenção para a atuação subterrânea e nem sempre clara de grupos econômicos que, cada vez mais, dão a tônica dos acontecimentos políticos, a partir de intervenções organizadas e dirigidas sobre o tecido social e as instituições da sociedade. Essas intervenções infiltram-se na cultura, na mídia, no âmbito dos aparatos Legislativo, Judiciário, e militar e policial. Muitas reportagens e matérias jornalísticas têm, cada vez mais, mostrado a forte organização da atividade política de uma ultradireita radical, que injeta milhões de dólares em atividades e instituições que favoreçam seus interesses.

O livro da historiadora americana Nancy MacLean, pesquisadora e professora de História e Políticas Públicas na Duke University, e que foi um dos cinco finalistas de livros de não ficção para o prêmio National Book Award em 2017, mostra como os irmãos Charles e David Koch, (entre os dez homens mais ricos dos EUA) e outros bilionários, financiam, silenciosamente, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum. O objetivo é estabelecer a liberdade total de ação da parcela 1% mais rica da população e, para isto, subsidiam organizações, instituições e universidades que ajudem a difundir ideias para consolidar esse projeto mundial. No Brasil, vários jornalistas têm alertado sobre as conexões entre o Charles Koch Institute, o Movimento Brasil Livre e os Estudantes pela Liberdade.

Como saber se esses sentimentos de ódio e de tristeza com a política estão extrapolando o que seria considerado saudável no contexto brasileiro atual?

RAUL PACHECO: Para considerar sua questão sobre se o ódio e a tristeza estão extrapolando o que seria saudável no contexto brasileiro atual há muitos pontos importantes a considerar. Vou escolher apenas alguns dos que são importantes, dado o reduzido espaço de que dispomos em uma entrevista. O conflito e a crise podem ser o motor de mudanças pessoais: é isso o que nós, psicanalistas, constatamos na vida das pessoas que acompanhamos em processo de análise. Entendo que, da mesma maneira, a transformação e o progresso na sociedade podem ocorrer em função de conflitos sociais. Mas, da mesma maneira que no caso da vida das pessoas, isto não significa que a existência de conflitos conduza necessariamente ao progresso civilizatório de uma população ou país. O modo como esses conflitos sejam canalizados para colocar em andamento um processo de progresso depende da existência ou do surgimento de forças organizadoras que forneçam eixos de direção do movimento.

No caso de um processo analítico, o analista constitui uma força organizadora, a partir do que psicanaliticamente chamamos de “transferência”. No caso das populações, isso depende sempre da emergência de lideranças, ainda que, nem sempre, as formalmente instituídas pelos aparatos já existentes. Entendo que isso irá definir se, no futuro, iremos olhar para trás e lamentar o que estamos vivendo no presente, ou se nos alegraremos em saudar os acontecimentos atuais como disparadores de transformações relevantes: verdadeiros atos políticos que marquem a transição de um passado de injustiça, desigualdade, violência e exclusão do poder político da maior parte da população para um momento histórico mais favorável.

Fonte: Nexojornal.com.br