PARA ONDE ESTAMOS INDO?

Por Valentin Ferreira

É preciso parar e pensar!

Ler e refletir  um pouco sobre o que escreveu Ricardo Kotscho neste sábado é um tremendo alerta. Os dias sombrios que vivemos poderão ser tornar profunda tormenta se nada fizermos agora.

Ao finalizar sua “Carta Aberta” -abaixo – o veterano jornalista, chama à atenção para o ambiente criado no Facebook.

As armas verbais carregadas com a munição do ódio, aos poucos está cedendo lugar para as letais armas verdadeiras. Assassinato de Marielle e Anderson, os tiros contra a caravana Lula e agora o atentado contra o acampamento solidário ao ex-presidente em Curitiba, são sinais a anunciar uma  assustadora escalada, se nada for feito.

Pior que armas carregadas,  são espíritos e mentes municiados  pelo ódio sem limites.

Deixo abaixo,  espaço e tempo para que o(a)  leitor(a) possa ler o documento-denúncia profeticamente escrito por Kotscho, e também aqui.

Veja Também: O que é o ódio? Por acaso tem cura?

DEMOCRACIA AMEAÇADA: CARTA ABERTA À SOCIEDADE CIVIL

Pode parecer muita pretensão minha escrever esta carta aberta sem destinatário determinado, mas foi o jeito que encontrei para chamar a atenção daquilo que já foi chamado de Sociedade Civil e que foi desaparecendo aos poucos depois de reconquistada a democracia.

Por onde andam os presidentes e líderes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), as quatro siglas que foram fundamentais na mobilização das Diretas Já, em 1984, o maior movimento cívico suprapartidário da segunda metade do século passado?

Hoje ninguém nem sabe dizer quem está à frente destas entidades, muito menos o que fazem contra a epidemia de ódio que se alastra pelo país no embalo da Lava Jato e dos seus aliados na mídia nativa.

Com as instituições e os partidos em franca decomposição, vivemos uma gravíssima crise institucional e não se ouve a voz das entidades que deram fim à ditadura e exerceram importante papel na redemocratização do país.

Os atentados a tiros se sucedem, e diante do estado de anomia social em que não há mais leis a serem respeitadas nem pelos tribunais, a impunidade impera com a falência da autoridade.

Primeiro, executaram Marielle e Anderson no Rio; depois, deram tiros nos ônibus da caravana de Lula no interior do Paraná e, nesta última madrugada, dispararam mais de 20 tiros contra o acampamento de apoiadores do ex-presidente diante da sede da Polícia Federal em Curitiba, que deixou um ferido em estado grave com uma bala no pescoço.

A rotina se repete: a polícia abre rigorosas investigações e não se consegue chegar aos autores dos crimes contra a vida, que evaporam no ar.

Mesmo vivendo sob intervenção militar na segurança, o Rio vê disparar o índice de crimes violentos envolvendo as milícias e o Paraná se tornou uma república independente onde reina o arbítrio jurídico-policial.

Enquanto isso, as hordas de bolsonaristas, pivetes do MBL e proto-fascistas em geral agem livremente contra o direito de ir e vir dos cidadãos, controlando áreas como os milicianos fazem nas favelas e subúrbios do Rio.

Sem encontrar resistência, a boçalidade invade as ruas e as redes sociais pregando mais violência contra quem pensa diferente.

O fim de feira que toma conta do país transcende as questões político-partidárias para se transformar numa ameaça ao próprio regime democrático a duras penas conquistado depois de mais de vinte anos de trevas.

Crescem os grupos que defendem a volta dos militares ao poder, achando que assim vão acabar com a baderna e a corrupção dos maus políticos, como fizeram em 1964 quando foram pedir aos quartéis a derrubada do governo constitucional de João Goulart.

Nesta marcha batida regressiva, a falta de reação da sociedade organizada faz lembrar a Proclamação da República, na verdade o golpe militar que derrubou a monarquia, enquanto “o povo a tudo assistia bestializado”, como escreveu o republicano Aristides Lobo que se tornaria ministro do governo provisório.

Em vez de chamar novamente os militares, tivesse este país hoje no comando das principais entidades da sociedade civil lideranças como as de 1984 certamente já estariam marcando uma reunião para segunda-feira em Brasília decididas a dar um basta a estes celerados que dia após dia vão destruindo as bases da vida civilizada.

Igrejas, universidades, confederações de empresários e de trabalhadores, movimentos sociais e populares, entidades de classe, artistas, intelectuais, onde foi parar todo mundo?

O desemprego voltou a crescer, o rombo fiscal aumenta fora de controle, a falta de confiança paralisa investidores e consumidores, a roda gira ao contrário e ninguém dá um pio.

Ficam só discutindo alianças e tempo de TV para eleger o síndico da massa falida, bovinamente caminhando para o brejo, em nome dos “brasileiros de bem”.

Chegamos a um ponto limite em que não há mais governo nem oposição, apenas uma geleia geral de interesses disputados no varejo, na vala comum da mediocridade.

Para saber a profundidade do poço que cavamos e de onde nos metemos com a nossa omissão basta abrir o Facebook.

Até quando?

Vida que segue.