CARTA SOBRE POLÍTICA AOS ESTUDANTES.

Postado por Valentin  Ferreira

Uma das questões mais importantes da vida é saber como governar nossa própria vida. A outra é compreender como nos governam. Essa é a diferença entre ética e política. Às vezes se leva uma vida inteira para aprender uma e entender a outra.

Por Jason de Lima e Silva(*) /  Ilustração de Stuart Davis

Convidado para falar aos estudantes do nono ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina sobre política, aproveitei para escrever a seguinte carta:

A política é um terreno amplo e complexo, com seu vocabulário próprio, como qualquer saber ou ciência. É um terreno movediço também, porque mexe conosco, move nossos humores, agita nossas convicções e preferências, e as questões estão aí: a luta do feminismo, o perigo do fascismo, democracia e golpe de Estado, ser de esquerda ou ser de direita, progressista ou conservador. Mas onde começaria a política? Antes de ser uma ciência ela parece ser uma atividade, porque alguns se dedicam à política, vivem da política, muitas vezes são presos, perseguidos e mesmo morrem por causa da política.

Mas seria uma atividade restrita aos profissionais que chamamos políticos ou a política pertence a todos nós desde sempre? Condenar todos os políticos como se fosse uma coisa só,  “farinha do mesmo saco”, não seria condenar a política e a nossa chance de se politizar e resistir contra tudo o que vem de cima para baixo? Por que, além de tantas outras atividades, teríamos de nos preocupar com a política? Faria alguma diferença para a vida saber o que acontece no governo do país ou da escola? Sugiro três sentidos para o termo política: primeiro, o sentido comunitário de pertencimento; segundo, o sentido perceptivo de realidade; terceiro, o sentido mais restrito de mediação de conflitos e interesses. Tentarei ser breve o suficiente para não entediá-los, nem confundi-los.

Vejam vocês: fomos recebidos no mundo por braços e por seios que nos alimentaram. Mas fomos recebidos também por uma família e por um idioma, uma língua. A linguagem indica o que queremos e o que não queremos. Nem sempre traduz nossos sentimentos, mas pode comunicar o perigo iminente ou o objeto de nosso desejo à vista. A palavra é uma extensão de nosso próprio corpo, como são os gestos, os gestos que são fala em potencial e potência de expressão. Fazemos coisas no mundo, mas o mundo também faz coisas conosco: ele nos dá um nome que não escolhemos, uma família que não conhecíamos, um idioma que aprendemos. Pertencemos porque somos pertencidos. Ter um idioma não é o mesmo que termos uma casa ou um carro. Ter um idioma é ser pertencido, é fazer parte de algo que pertence tanto a mim quanto aquele que não sabe ler. Não importa quantos idiomas se fale. Importa muito mais é o que se fala. Se alguém conta vantagem e mentira em cinco idiomas para ganhar dinheiro, que mérito há? Pertencemos porque nos inclinamos naturalmente a aprender as coisas, o significado das coisas, assim como nos inclinamos a buscar quem gostamos, e podemos até gostar de quem apenas tolerávamos. O filósofo Aristóteles definiu o ser humano como animal que tem linguagem e por isso é um animal político, o zoon politikon. Aristóteles quer dizer com isso que somos não apenas capazes de falar, mas de dar nome e sentido às coisas. E mais do que isso: a linguagem também serve para separar o que convém do que não convém, o justo do injusto e a “participação comunitária nesses valores forma a casa familiar e a cidade”. Portanto, o que nos faz políticos por natureza é a constatação de pertencermos antes de sermos qualquer coisa que queiramos ser. Mas não pertencemos sempre de braços abertos. Há um custo na sociabilidade. Por três rápidos motivos. Primeiro, porque não é sempre que queremos ser vistos. Ser visto é ser lembrado, requisitado, exigido. Segundo, porque precisamos de um tempo para nós, para fazer coisas, coisas que exigem concentração, como desenhar ou ler, ou para não fazer coisa alguma. Terceiro, porque há perigos na vida urbana: no trânsito, por exemplo. A vida social nos dá prazer, claro, mas também nos dá algum trabalho. Por isso é preciso sabedoria para conciliar a vida pública e a vida privada, não se gastar toda vitalidade no mundo de fora para encontrar o vigor no mundo de dentro. Mesmo que nos viremos bem na dinâmica social, mesmo que nos julguem simpáticos, simpatia também cansa, assim como cansa manter qualquer aparência: o malvadão, o divertido, o fechado. Alguém insistentemente e metodicamente simpático corre o risco de parecer chato. Ninguém, claro, é essencialmente chato ou simpático. Nós nos tornamos quem somos, não viemos prontos, a sociedade pode ou não nos ajudar nessa tarefa, e essa é uma tarefa também política. Se a cidade prolifera apenas concessionárias, oficinas, revendedoras de carros, pouca inspiração dará a quem quer estudar música, simplesmente porque não se encontra no seu bairro um único conservatório ou escola de música. Esse é o primeiro sentido de política que proponho aqui: o sentido comunitário de pertencimento a um grupo social. Um grupo social que é bem diferente da organização comunitária das abelhas. Nós podemos fazer nossas leis, assim como podemos recusar as que nos são escritas. Obedecemos, a contragosto muitas vezes, e exigimos razões para obedecer, como bem observou o filósofo espanhol Fernando Savater. Savater, que está vivo entre nós, escreveu um livro sobre ética e um sobre política para seu filho, que tinha a idade de vocês. Em um certo momento, esse pensador diz que política “não é mais do que o conjunto das razões para obedecer e das razões para sublevar”, no sentido aqui de resistir, revoltar-se, rebelar-se. Nosso pertencimento grupal, nosso impulso gregário, nem sempre é pacificamente garantido. Um outro filósofo, bem mais próximo de nós, Kant, diz que os humanos agem segundo uma lei da própria natureza: a insociável sociabilidade.

Mas política tem a ver também com uma forma de percepção da realidade, ou melhor, percepção de realidades. Pode alguém olhar para as casas da periferia como gente que não deu certo na vida ou, ao contrário, como efeito de uma sociedade que está longe de acertar. Um vê a miséria como fato natural, porque sempre haverá pobres e ricos, azarados e sortudos. Outro suspeita que essa diferença não tem relação com sorte ou azar, nem com habilidades naturais para sobreviver na selva de pedras e asfalto. Há razões econômicas, razões de governo, razões de mercado, razões de acúmulo de bens e dinheiro, razões de gente que não quer dar razões aos miseráveis que na maior parte das vezes não têm voz, emprego e muito menos representação política. Pensar e agir politicamente é deixar de lado um pouco nossos pequenos caprichos ou grandes vaidades, para considerar não apenas o que queremos para nossa vida, mas o fato de que outros também querem, e precisam. Por isso, uma ideia muito importante na origem da discussão sobre política é a ideia do bem-comum. Tem gente de um lado que ainda precisa de muito para poder querer alguma coisa, tem gente de outro lado que não tem limites para querer e poder sempre mais: bens e dinheiro. Essa percepção também serve de base para aceitarmos ou recusarmos coisas relacionadas à cidade, seus grandes problemas, mas seus pequenos problemas que viram grandes problemas no dia-a-dia. Se ficarmos quietos, se não nos reunirmos por um coletivo, se não formos para a rua protestar, o transporte público continuará como está, o ônibus sem ar-condicionado no verão, sem cortinas para a proteção do sol, lotado sempre e parado no mesmo lugar. Continuaremos dependendo dos ônibus ou entulhando ainda mais a cidade de carros, continuaremos presos nos carros. O modo como nos posicionamos frente ao que acontece pode ser neutro ou político. Pode ser por hábito de obedecer (e mesmo de sofrer). Mas pode, ao contrário, se pôr no lugar da crítica, da recusa às coisas tais como são: o sofrimento próprio, o sofrimento alheio. Logicamente, quem recusa tem de estar pronto também para propor um caminho, ou perguntar se ele não é possível. Fazer mais pontes para mais carros ou pensar a ampliação do transporte público, o uso do mar, o subsolo para metrôs ou estacionamentos? Colocar os problemas, discuti-los com outros, é ocupar o domínio que os filósofos políticos chamam de esfera pública. Na esfera pública temos de lidar com opiniões tão diversas quanto contraditórias, muitas vezes diretamente ofensivas, que agridem não apenas o nosso gosto, mas nosso próprio modo de vida. E ainda estamos no meio de uma guerra de informações, a mídia se alimenta dessa esfera pública, muitas vezes ajuda a destrui-la, produz manchetes ambíguas, capas fake news, edições de planos e imagens que contam a história que interessa a quem paga para nos fazer acreditar naquilo. Uma coisa é certa: não dá para confiar total e imediatamente nas notícias, sobretudo nos grandes jornais do país. Um bom exercício político é desconfiar, coçar a pulga atrás da orelha antes de acreditar no que aparece na revista ou na TV. Não é nem duvidar dos fatos, mas da interpretação dos fatos. Vale sempre investigar fontes diferentes sobre o mesmo assunto, se realmente interessa o assunto, se realmente ele é útil, ou não passa de mais uma fofoca ou de mais uma razão para odiar e não para compreender. É preciso aplicar aquele crivo socrático, o filtro do velho Sócrates, o filósofo ateniense que recomendava antes de espalhar qualquer novidade ou reproduzir uma notícia, primeiro, saber se é verdade, segundo, se fará bem a quem diz, terceiro, se lhe será útil.

Em um sentido mais restrito e rigoroso da palavra, política é mediação, a arte de mediação dos conflitos e dos interesses em uma sociedade, por isso é também uma arte do exercício do poder, a atividade de governo. Para mediar os conflitos é que nós inventamos instituições tais como a assembleia e o tribunal. A própria ideia de democracia, como forma de governo fundada no demos, no povo, só pôde existir por meio dessas instituições. Essas instituições são artificiais, quer dizer, são inventadas para ordenar a ordem das ações humanas, para comandar nossos impulsos e paixões, não apenas para se sobreviver, mas para se bem conviver. Instituições que no tempo dos gregos formavam a polis, palavra em grego que quer dizer cidade, donde nos chegou a palavra política. Política é o lugar a partir do qual se decidem e se julgam as coisas públicas publicamente, ou seja, as coisas que comprometem a todos, que podem afetar uma grande parte ou uma pequena parte, como regular os impostos, aprovar ou não uma reforma, reconhecer as diferenças de gênero, para que o empresário não se sobreponha ao operário, o branco ao negro, o homem à mulher. Por que então pensar a política, ou pensar em política, se há outras coisas que parecem mais interessantes, como os esportes, o estudo das línguas, o cinema. Eu diria: para entendermos como somos governados: como governam nosso tempo, nossos corpos, nossa aparência, nossos sonhos, nosso desejo, nossa força de trabalho. Como somos governados não apenas pelos políticos, mas pelo discurso de uma empresa, pelas informações da imprensa ou da propaganda, pelas orientações médicas e psicológicas. Vejam só, Aristóteles diferenciou três tipos de poderes: o poder do pai, o poder despótico e o poder político. O primeiro se exerce para o interesse do pai, o segundo, para o senhor, o terceiro, para os governantes e governados. Se o poder só atende o interesse dos governantes acontece uma degeneração da política, uma corrupção não dos políticos, nem de suas consciências, mas do próprio sentido da política. Um exemplo de perversão ou corrupção da política é a democracia se tornar ditadura (para os gregos, seria a tirania). Não esqueçamos que Hitler foi eleito democraticamente. Mas além desses poderes, o paterno, o despótico e o político, podemos pensar nos poderes do médico, do psicólogo e mesmo no poder de um professor. Michel Foucault, um pensador de nosso tempo, não mais vivo, disse que na sociedade moderna o grande desafio do poder é nos adaptar ao processo de desenvolvimento econômico. Ou seja, é nos adaptar, adaptar cada um e cada uma de nós, para produzir, atingir metas, aumentar o lucro da empresa e estar contente com tudo isso, ou pelo menos não sofrer a ponto de parar na linha de produção, como se, nas palavras de Foucault, os governantes de hoje fossem os psicólogos e o povo seus pacientes (O mundo é um grande hospício, 1973). Uma das questões mais importantes da vida é saber como governar nossa própria vida. A outra é compreender como nos governam. Essa é a diferença entre ética e política. Às vezes se leva uma vida inteira para aprender uma e entender a outra. Não há problema. Não precisamos ter pressa para a liberdade, nem sofrer de ansiedade para ter o que poderíamos chamar de senso político ou consciência política. Mas é bom estar atento. As grandes transformações são lentas. Começam por uma atenção ao que se passa conosco, mas também pelo que acontece em torno de nós.

Por fim, eu gostaria de aprofundar essa distinção que julgo importante: entre ética e política. Assim entramos um pouco mais nesse terreno movediço da política, sem nos afogarmos em polêmicas ou juízos apressados. Ambas, ética e política, tem a ver com o universo das ações e das palavras, universo que nos faz humanos, singulares e plurais, como indivíduos e como povos. Na cidade nos tornamos visíveis para o outro fisicamente, somos corpos, corpos muitas vezes dentro de máquinas, como dentro de carros e ônibus. O modo como andamos ou falamos já nos coloca no espaço entre outros. Quanto às máquinas, elas não nos livram de nossa responsabilidade de cuidar dos pedestres e dos ciclistas enquanto dirigimos. Nossas ações e palavras, nosso jeito de ser e de se comunicar, aparecem no espaço público. Isso é o que chamamos de caráter, que tem a ver com o temperamento, mas também com nossa educação, com nossos gostos e interesses, porque eles nunca vem prontos: aprendemos a gostar do que gostamos de aprender. Quando ouço música, sozinho ou com meus amigos, estou no campo da ética, porque exercito minha liberdade de escolha. Mas se alguém do condomínio ouve regularmente a todo o volume a sua música, estou no campo da política, e a obrigação de uma multa por exemplo representa o uso da força para medir um querer, quando faltou ética. Essa invasão de um gosto, essa sobreposição de um interesse de uma pessoa em relação a outra, pode acontecer no gesto de um olhar, pela insistência ou perversão de um olhar por exemplo, e as mulheres irão senti-lo como os homens não o imaginam. Isso não apenas pode, mas deve ser debatido publicamente. Por quê? Para que o querer de um olhar não se sobreponha ao querer de uma mulher não ser encarada na rua por um desconhecido. Aqui estamos no campo da política. É pelas ações e pelas palavras que contamos histórias, amamos e rimos, mas também é por ações e palavras que declaramos nossa revolta por algo injusto, o limite do poder exercido por quem conhecemos ou não conhecemos. Se nos falta a palavra, o diálogo, estamos fadados à violência. A política é uma atividade de governo não apenas para sobrevivermos no meio de uma guerra de carros, máquinas, armas e informações. A política serve para criarmos condições de se bem viver, viver sem medo, sem medo de experimentar e se aperfeiçoar, sem medo de ser feliz. Não haveria graça na vida se não pudéssemos ampliar nossa compreensão, e aos poucos moldar nosso corpo e nossa alma, esculpir sempre, porque o tempo passa e é mais fácil perder os talentos do que cultivá-los. Assim também a inteligência e a sensibilidade. A ética nos mostra o que é possível querer e fazer diante do que não podemos ter ou ser, por isso existe a consciência moral. A política justifica o poder como princípio para todos os quereres, por isso existe o Estado. A ética procura um princípio através do qual se possa garantir uma boa ação, ou a mais justa possível. A política procura a ação mais eficaz para manter a convivência, e o menos injustamente possível. Para a ética se trata de aprender a viver em paz consigo mesmo. Por isso uma pessoa ética exige mais de si que dos outros, para ser melhor do que se é, sem comparar ou impor seus talentos. Para a política se trata de evitar a guerra, por isso o político precisa considerar as diferenças dentro de uma mesma cidade, as condições econômicas e étnicas, para ajustar não apenas os direitos e benefícios, mas também as obrigações dos indivíduos e dos grupos sociais. O movimento de ocupação dos sem teto só existe porque tem muitas famílias sem casa e tem muito juiz que acumula imóveis e ganha auxílio moradia. Como canta Mano Brown, “eu sei, você sabe o que é frustração, máquina de fazer vilão” (Jesus chorou). Essas contradições precisam ser enfrentadas por nós para que a cidade não vire um palco de guerra, e mais do que isso, para que a cidade possa dar condições para que ninguém tenha medo de ser livre, nem tenha medo da liberdade do outro, e se possível encontre tempo para desenvolver seus gostos e interesses, sem cair facilmente no tédio de uma vida automática, na frustração de um sonho ou na angústia de não ser alguém de sucesso. A ética é uma arte da vida, a política uma técnica de convivência. Algumas sociedades não precisam de Estado, mas precisam de política, ou seja, precisam de um governo, uma condução para construir e manter suas comunidades, para defendê-las da natureza, da fome e do frio, mas também precisam de política para negociar as regras impostas por outros povos ou para receber um homem que não encontrou mais lugar no seu país, como o exilado, o refugiado ou o preso político. Aristóteles, já bastante citado aqui, tem um livro sobre ética e outro sobre política. Para esse filósofo da Macedônia de quatro séculos antes de Cristo, ambas, ética e política, fariam parte das ciências práticas, ou seja, representariam o conhecimento das ações humanas no mundo. A finalidade de ambas seria a felicidade, o bem pessoal e o bem comum. Não haveria cidade feliz sem pessoas felizes. Mas também não haveria quem pudesse ser feliz em uma cidade infeliz. E o que seria uma cidade infeliz hoje em dia? Provavelmente aquela com mais problemas do que meios de resolvê-los. Uma cidade que não dá parques, bibliotecas, conservatórios, institutos de ensino público, mobilidade urbana, casa e terra, cinema e música. Mas não dá sobretudo esperança para as pessoas serem mais do que são e terem o mínimo para serem alguma coisa. Uma cidade infeliz não dá esperança porque deixa as pessoas esperando por muito tempo, por toda a vida: esperam o transporte público, o emprego decente, o atendimento à saúde, a vaga na universidade. Vocês conhecem a música do Chico Buarque, Pedro pedreiro? “Pedro pedreiro fica assim pensando / Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás / Esperando, esperando, esperando / Esperando o sol, esperando o trem /Esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem”. Bom, espero que vocês tenham gostado dessa conversa e que pensando nós não fiquemos para trás de nós mesmos, nem tenhamos que passar outros para trás, como se fôssemos obrigados a chegar sempre na frente. Deixo meu abraço.

*Jason de Lima e Silva é professor de Filosofia do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Cantarina

Fonte: Le Monde Diplomatique