POR QUE SÓ DAMOS VALOR PARA O QUE PERDEMOS, E NÃO PARA O QUE TEMOS?

Postado por Valentin Ferreira

Por Ricardo Kotscho / em Seu Blog

Acostumados com água na torneira e luz elétrica desde que nascemos, não nos conformamos em ficar um dia sem estas benfeitorias.

Quando as prateleiras cheias dos supermercados se esvaziaram de um dia para outro na greve dos caminhoneiros, muita gente entrou em pânico e começou a pedir intervenção militar.

Sem combustível para tirar os carros da garagem, motoristas se viram obrigados a usar transporte público, e só então descobriram como são privilegiados num país onde multidões vão e voltam do trabalho a pé por não ter dinheiro para a condução.

Um dia sem internet causa crise de abstinência em muita gente.

Criados nos trópicos, sofremos com o frio quando vamos trabalhar em países onde o sol passa meses sem dar a cara.

Habituados a trocar de emprego para ganhar mais quando a economia vai bem, perdemos o chão ao ficar desempregados de uma hora para outra.

Só damos valor ao elevador ao faltar energia e redescobrirmos as escadas.

Assim acontece com tudo nas nossas vidas: muitas vezes só damos valor ao que temos diante das perdas na gangorra da nossa existência.

Na correria do dia a dia pela sobrevivência, muitas vezes deixamos de dar a devida atenção às pessoas e instituições que nos são mais caras e vitais para enfrentar os desafios e seguir em frente.

Fiquei pensando nisso ao ver a quantidade de brasileiros nas redes sociais que defendem a volta dos militares e apoiam um desqualificado ex-capitão do Exército para ser o próximo presidente.

Minha geração só tomou consciência do significado da democracia e da liberdade quando as perdemos em 1964.

Levamos mais de vinte longos anos para recuperar nossos direitos, muita gente morreu no caminho e, ao reconquistarmos a democracia, não sabemos o que fazer com a liberdade que conquistamos.

Será que precisaremos passar outro período de trevas e arbítrios por sermos incapazes de andar com as próprias pernas e decidir nossos destinos sem pedir licença a ninguém?

Será que os brasileiros sabemos o que está em jogo nesse momento, em que mais uma vez o país parece sossobrar aos desatinos de quem nos governa, sem esboçar qualquer reação?

Será que só damos valor para o que perdemos, e não para o que temos?

Vamos esperar a casa cair de novo sobre nossas cabeças para sair do conforto e tomar uma providência para evitar que o pior aconteça?

Vivemos distraídos, empurramos os problemas com a barriga, ficamos na nossa zona de conforto esperando por um milagre ou um salvador da pátria, sem atinar para os perigos que corremos todos.

Diante das dificuldades, cada vez mais gente já desistiu, e só pensa em ir embora do Brasil, como mostra a pesquisa Datafolha de domingo, da qual tratei em post anterior.

E como ficamos os que por diferentes motivos não temos condições de fazer o mesmo, condenados ao exílio em nossa própria terra?

Vamos dar mais valor ao que temos, enquanto é tempo, olhar mais para o outro e menos para o próprio umbigo, redescobrir a solidariedade e o afeto pela pátria comum.

Sei muito bem, por experiência própria, como é difícil fazer isso num momento de tanta desesperança e desencanto, mas mudar esse cenário desolador só depende de cada um de nós.

Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas e precisamos fazer alguma coisa para não entregar os pontos.

Ficar só reclamando da vida e de tudo, culpando os outros pelas nossas desgraças, é que não leva a nada.

Botar a culpa no juiz não vai mudar o resultado do jogo.

Bola pra frente que atrás vem gente.

Vida que segue.