SOBRE O HÁBITO: UM MANIFESTO, por Gustavo Gollo

Postado por Valentin Ferreira 

Normalidade e hábito

Podemos nos habituar a qualquer coisa e, uma vez que nos tenhamos habituado a ela, parecerá absolutamente normal. Assim, por mais absurda que alguma coisa nos tenha parecido, depois de nos acostumarmos, será tida como normal.

Toda a normalidade das outras pessoas que não seja equivalente à nossa será vista com estranheza. Toda a nossa normalidade é tida por nós mesmos como normal.

A normalidade enseja que a aceitemos, por mais completamente absurda que seja a condição, situação, ou coisa a ser aceita. A normalidade é definida pelo hábito, indiferentemente a qualquer consideração pelo absurdo.

Sobre nossas crenças

Duas considerações, exclusivamente, determinam nossas crenças: a racionalidade e o hábito.

Estando habituados a acreditar em qualquer coisa, continuaremos acreditando nela, a menos que um novo hábito nos seja imposto, normalmente, através da repetição de crença alternativa. Habituamo-nos a tudo aquilo que ouvimos repetidamente.

É possível questionar e mudar nossas crenças a partir de considerações racionais que assim o exijam, em virtude de incompatibilidade com outras de nossas crenças. A racionalidade pode demonstrar que duas crenças são incompatíveis, compelindo aquele que compartilha ambas a escolher uma delas e abdicar da outra.

O exercício da racionalidade, e da exclusão de crenças incompatíveis dele decorrente, determina o hábito da racionalidade. Os já habituados a raciocinar, assim procedem normalmente.

No mais, somos governados apenas pelo hábito, pelas repetições: as repetições produzem e consolidam o hábito. Trata-se do fundamento da propaganda. Assemelhamo-nos mais a papagaios que aos seres racionais decantados em nossos autoelogios.

Normalidade e poder

A afirmação de que podemos nos acostumar a qualquer coisa não tem limites; podemos nos acostumar até com o chicote em nosso lombo.

Estamos acostumados com o chicote em nosso lombo.

Tendo sido previamente subjugados, habituamo-nos, também, a vestir sozinhos nossas próprias cangas; estamos habituados à subjugação, razão pela qual ela parece normal.

Habituamos nossos filhos à mesma subjugação a que fomos habituados.

Rebeldia e controle

Os poderosos constroem canais inócuos adequados para manifestações de rebeldia. Conduzindo os jovens com tendências rebeldes a tais canais, habituam-nos a se comportarem adequadamente, como bons rebeldes. Bons rebeldes aprendem a prescindir da lógica e da racionalidade.

Bons “rebeldes” seguem as diretrizes impostas pelos poderosos e se habituam a questionar a lógica e a racionalidade, abdicando do único instrumento capaz de libertá-los da dominação a que estão acostumados, atando-se a si mesmos aos grilhões do hábito. Lembremos que só a racionalidade pode quebrar a cadeia do hábito e da dominação a que tenhamos sido habituados.

Os que, habitualmente, exercitam o raciocínio, e cotidianamente fazem uso da racionalidade são induzidos a, “conscientemente”, se aliar aos poderosos, sendo habituados a repetir jargões favoráveis à estrutura de dominação e a compactuar com a opressão.

O poder tenta cooptar jovens programadores, matemáticos, engenheiros e outros habituados a exercer cotidianamente a racionalidade associando-os a tutores anteriormente submetidos ao mesmo estratagema e já previamente cooptados e inseridos na estrutura de dominação.

Jovens habituados a racionar são guiados pelo poder a dirigir sua racionalidade a outros objetos de análise que não os canais de opressão e dominação, ou ameaçariam o poder. O questionamento do poder é reservado aos que tenham abdicado da lógica e da racionalidade, produzindo as críticas inócuas que deverão canalizar rebeldias futuras. Críticas racionais poderiam ser verdadeiramente contundentes.

Estamos habituados a viver em um mundo completamente absurdo, cruel, voltado para a consolidação e ampliação do poder e da opressão. Só a racionalidade nos permitirá modificar esse hábito.

Link para texto sobre o carinha assassinado porque ameaçava o poder:

https://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-carinha-que-desafiou-o-poder-por-gustavo-gollo

Publicando originalmente no Jornal GGN/ Luís Nassif