O CARINHA QUE DESAFIOU O PODER, Por Gustavo Gollo

Postado por Valentin Ferreira

O poder mantém abertos vários canais para o encaminhamento da rebeldia com o propósito de garantir que ela se expresse de maneira adequadamente inócua, norteada, normalmente, pela falta de sentido. Assim, os mais intelectualizados dentre os jovens rebeldes são encaminhados aos departamentos de ciências humanas das universidades, para que sejam treinados em argumentações ilógicas que os conduzirão a caraminholas desconexas que enredarão suas mentes por toda a vida. Rebeldes que não necessitarem de tal tratamento por lhes faltar aptidão ou motivação ao cultivo de abstrações serão conduzidos, simplesmente, aos cuidados de roqueiros que acabarão premiados por grammys ou nobéis, caso guiem os neófitos para o exercício das formas apropriadamente fúteis de rebeldia.

O exercício da razão é permitido apenas aos mais dóceis, aos que manifestam uma maior adequação às normas e menores tendências à insubordinação. O domínio da lógica, da argumentação coerente, deve ficar restrito a tais criaturas, ou se transformaria em formidável instrumento capaz de desafiar, verdadeiramente, o poder.

Durante séculos, o domínio da racionalidade permaneceu restrito aos raros privilegiados com acesso a conhecimentos abstratos. A educação universal disseminada após a revolução industrial exigiu a especialização e a separação dos caminhos, impedindo o acesso dos rebeldes ao treinamento da racionalidade. Ficava, assim, estabelecido o lugar dos rebeldes, sendo descabido que eles grassassem em departamentos de engenharia, por exemplo, ou de computação, onde o treinamento da racionalidade é imperioso. Impossível programar um computador sob abstrusas instruções dialéticas. A computação é compreendida, apenas, através de raciocínios lógicos, e do exercício da racionalidade.

Perceba que “poder” é imposição. “Poder” é poder conseguir satisfazer os próprios desejos, conseguir o que se quer. A razão impõe limitações ao poder, único impedimento a lhe contrapor. 2+2=4, queira, ou não, qualquer um. Nenhum desejo pode se sobrepor a tal racionalidade. A lógica limita o poder sendo, por isso, o único instrumento capaz de cerceá-lo, de domesticar esse urso selvagem e, de outro modo, incontrolável.

Aaron Swartz

Contam que quando trabalhava virtualmente com alguns dos maiores nomes da computação mundial, reformulando os protocolos da Internet, Aaron foi cobrado por não ir aos encontros pessoais do grupo, realizados em outro estado, onde ele era esperado para defender suas próprias propostas, frequentemente as melhores. Aaron justificou sua ausência: – Minha mãe não deixa, tenho só 13 anos.

Mais tarde entrou para a universidade onde permaneceu pouco tempo, até descobrir que o aprendizado por lá era excessivamente lento.

Anos depois aliou sua inventividade, seus conhecimentos sobre programação, e seus ideais de uma internet livre, para se contrapor a um estrondoso ataque do poder à construção do mais fabuloso instrumento de libertação já idealizado. Tratava-se do SOPA, um conjunto de leis elaborado com o intuito de garantir a internet enquanto instrumento de dominação, e não de libertação.

Nunca um cavaleiro solitário tinha conseguido desferir, sozinho, golpe tão formidável no poder. Opondo-se, solitariamente, e sem recursos, apenas com seu conhecimento e vontade à imensa máquina patrocinadora da lei opressiva, Aaron conseguiu mobilizar milhões de internautas e impedir a instituição da lei opressiva, deixando impotentes e perplexos os donos de bilhões de dólares, humilhados e expostos na cegueira de sua ignorância, atrevimento pelo qual pagaria enorme preço.

Os donos do poder não permitiriam que tal ousadia ficasse impune. A exposição da nudez de reis bilhonários, da cegueira, ignorância, e da impotência de tais criaturas em um novo mundo incompreendido por eles, lhe angariou ódio imenso. Maior ainda porque, tendo se mantido o mesmo carinha de sempre, desprezado a fortuna que lhe era oferecida para se aliar ao poder, manteve-se imune às seduções do poder, impossível de ser comprado.

Ofendidos, os poderosos armaram um golpe legal para calar Aaron, mas a ameaça legal que demorava para se efetivar, espicaçava ainda mais encaniçadamente o herói rebelde e libertador.

Disseram que Aaron se suicidou.

Poderosos não permitem a petulância de que contrariem suas vontades, muito menos que os exponham. Penso que assassinaram Aaron, calaram o jovem mártir matando-o. Fizeram isso encenando o suicídio do herói, embora sem nenhuma nota que explicasse o abandono da causa. Suicidam-se apenas aqueles que não têm um propósito. O poder não se comove com a juventude, nem com boas intenções, nem propósitos altruístas, nem coragem, inteligência, determinação, nem qualquer virtude dessas que compõem os heróis. O poder se justifica apenas a si mesmo e só a si próprio satisfaz.

O movimento cultura livre

Existe algo pouco entendido sobre Aaron. Cada um de nós tem sua própria compreensão do mundo, todas elas parciais. O mundo está mudando e se distanciando daquilo que pode ser compreendido pelas pessoas comuns, que não sabem programar um computador. Nosso mundo está cada vez mais determinado por computadores, mas isso só pode ser compreendido por quem tem noção de computação.

Aaron foi um dos arquitetos de nosso tempo. Aos 13 anos ele já tinha uma compreensão e um domínio do mundo atual que poucos leitores desse texto terão algum dia. Aaron estava construindo o séc.XXI, algumas das principais diretrizes que transformaram nosso tempo emergiram da mente do garoto que aos 15 anos definiu os creative commons. Desde cedo ele se situou em um mundo no qual poucos compreendem estarem vivendo, hoje.

Aaron foi uma espécie de anjo desse novo mundo. Lutava pelo domínio comum, pelo acesso comum, de todos, a todo o conhecimento, sem nenhuma restrição à informação, combatia pela abertura do portal do paraíso. (Ainda garoto, Aaron idealizou e implementou, com alguns anos de antecedência, o que veio a ser a Wikipedia). Contra as diretrizes comuns, de acesso a todos, lutavam os detentores do poder, glutões poderosos e insaciáveis. (O episódio do 11 de setembro, aquela piada macabra, elucida para mim a completa ausência de limites dos poderosos. Assassinaram milhares quase que por diversão; não se importariam com a morte de mais um, especialmente do impertinente que ousava desafiá-los solitariamente, e com as mãos nuas.

Aaron, o anjo, servia-se da lógica para combater o poder, rebeldia intolerável aos olhos dos poderosos.

Em nenhum outro campo a dominação e a libertação se digladiam tão encaniçadamente quanto na computação. Computadores já se tornaram os mais extraordinários instrumentos, tanto de libertação, quanto de dominação.

O velho confronto entre as forças do céu e do inferno transcorre agora sob roupagem digital. E não se enganem, a razão é o único instrumento capaz de cercear o poder, monstro que se alimenta de todos os ataques irracionais direcionados a ele.

Esse vídeo sobre Aaron Suartz é tocante, recomendo: