PEDRO: O DISCÍPULO ERRANTE, MAS AMANTE

Postado por Valentin Ferreira

As ‘redes’ que prendiam Simão em si mesmo são largadas para que ele pudesse se transformar em um ‘pescador de homens’

Por Daniel Reis* / Dom Total

Desde a sua vocação, nas margens do Mar da Galileia (cf. Mc 1,16-18), Simão (Pedro) nutriu um grande amor por seu Rabi, Jesus, pelo qual “largou imediatamente suas redes” (v.18) e o seguiu. As “redes” que prendiam Simão em si mesmo são largadas para que ele pudesse se transformar em um “pescador de homens” (v.17), que pescaria para o amor do Senhor todos aqueles que “se deixassem seduzir” (cf. Jr 20,7) pelo anzol do Evangelho.

Jesus entra na vida de Pedro e o coloca “a serviço”, como fez com sua sogra ao entrar em sua casa e curá-la (Mc 1, 29-31). Ao dar falta de Jesus que se retirou para orar, Simão “procura-o ansioso” (v. 36). O Mestre, ao chamar a si para o alto da montanha “os que ele queria” (v.13b), quando da instituição dos Doze (Mt 10,1-4), Simão Pedro é o primeiro (v.2b). Este primado é confirmado quando da acertada resposta de Simão à pergunta de Jesus sobre sua identidade: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16,16b). Na sequência, Jesus confere a ele o nome de “Pedro” (v.18a), “pedra” sobre a qual ele edificaria sua Igreja (v.18b), e promete dar a ele as “chaves do Reino”, para ligar e desligar na terra e nos céus (v.19) o seu acesso. Pouco depois deste relato, Jesus faz o mesmo à comunidade discipular reunida: “Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra, será desligado no céu” (18,18).

Assim, Pedro é um discípulo de destaque, o primaz entre os apóstolos de Jesus. Porém, nas limitações de sua humanidade, falha constantemente em seu discipulado. Logo nos versículos seguintes à sua profissão de fé e ao estabelecimento de seu primado (Mt 16,13-20), Pedro já erra ao se descontrolar perante o primeiro anúncio da Paixão que Jesus profere (Mt 16,21-23), dizendo: “Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá” (v.22), e é severamente repreendido por Jesus, que diz: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves como pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (v.23b). É preciso, desta forma, percebê-lo como imagem/símbolo da comunidade dos discípulos e da própria comunidade de fé. O que se passa com Pedro também acontece com os outros seguidores de Jesus, daquela época e da nossa: ora somos “pedra que edifica”, ora somos “pedra de tropeço”.

Outro episódio em que temos Simão Pedro como síntese dos discípulos é quando Jesus anda sobre as águas (Mt 14,22-33). Após despedir a multidão, subiu ao monte para rezar sozinho (v.23). Já de madrugada, se dirigiu ao barco onde estavam os discípulos (v.25) que, ao vê-lo, pensaram ser um fantasma e gritaram de medo (v.26). Após Jesus lhes pedir confiança e para que não tivessem medo (v.27), surge a figura de Pedro, que o interpela: “Senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas” (v.28), ao que o Mestre responde: “Vem” (v.29). Pedro começa bem, mas logo que sente o vento, começa a afundar e clama: “Senhor, salva-me!” (v.30), ao que Jesus lhe estende prontamente a mão, o levanta e o repreende pela fraqueza na fé (v.31). A narrativa se encerra com todos a bordo, onde os discípulos fazem uma confissão pública da identidade de Jesus: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (v.32b). Notamos aqui que Pedro toma a palavra pelos discípulos que estavam no barco e é ícone do nosso próprio discipulado, na barca da Igreja. Como Pedro, desconfiamos da identidade salvífica do Senhor (“Se és tu…”, v.28), que vem até nós nas mais inusitadas situações. Quando não o reconhecemos ou o confundimos, o medo nos assola e perdemos a confiança n´Aquele em quem deveríamos confiar (2Tm 1,12). O Senhor nos convida a pisar sobre as águas da morte, como Ele, expressando seu domínio pascal sobre ela. Muitas vezes, como Pedro, começamos bem, mas ao primeiro “vento mais forte”, já perdemos nossa confiança, enfraquecidos na fé que somos, e começamos a afundar “nas águas do mar da vida”. Porém, com a mesma esperança de Pedro, ao pedirmos pela ajuda do Senhor (“Salva-me”, v.30), temos a certeza de que Ele nos estende sua mão para nos levantar da morte à vida: Páscoa!

No ensinamento de Jesus sobre a pureza e a impureza (Mt 15, 10-20), Pedro, símbolo e cabeça da comunidade dos discípulos, não entende a parábola e pede: “Explica-nos a parábola” (v.15b), e Jesus diz não só a ele, mas a todos: “Nem mesmo vós tendes inteligência?”, ou seja, aqueles que o rodeiam, que o escutam constantemente, que testemunham sua prática misericordiosa… “Nem mesmo vós?”, nos interpela, hoje, o Senhor, enquanto seus atuais discípulos. As fragilidades ainda estão presentes, como também nos discípulos que se dirigiam para Emaús, chamados de “lentos de coração para compreender” (Lc 24,25).

À mesa da Ceia Pascal, Jesus anuncia: “Para onde vou, vós não podeis ir.” (Jo 13,33c) e, após instituir o mandamento do amor (v.34), Pedro lhe pergunta: “Senhor, para onde vais?” (v.36a), ao que o Mestre lhe responde: “Não podes seguir-me agora aonde vou, mas me seguirás mais tarde” (v.36b). Simão Pedro, inconformado, pergunta e exclama: “Por que não posso seguir-te agora? Darei a vida por ti!”. Mas Jesus lhe revela: “Darás a vida por mim? Em verdade, em verdade, te digo: o galo não cantará sem que me negues três vezes”. E tal como Pedro, queremos seguir Jesus por onde quer que Ele vá, e nos vemos dispostos a darmos nossas vidas por Ele, porque o amamos; mas quando as situações se dificultam, fraquejamos na fé e o negamos, dizemos não conhece-lo, não nos reconhecemos como seus discípulos, como fez Simão Pedro no sinédrio (Jo 18,15-17.24-27), cumprindo-se o que Jesus havia predito.

Após a ressurreição de Jesus, em seu último capítulo (21), o evangelista João nos leva de volta ao Mar de Tiberíades, onde a história de amor começou (Mc 1,16-18), onde Simão Pedro foi chamado e começou a seguir o seu Mestre amado. Após a refeição que o Cristo preparou aos discípulos que estavam pescando, Jesus se dirige a Pedro e o pergunta (Jo 21,14b-15a): “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” (v.15b), ao que tem por resposta: “Sim, senhor, tu sabes que te amo”, e Jesus replica: “Apascenta meus cordeiros” (v.15c). Jesus, uma segunda vez, faz a mesma pergunta e obtém a mesma resposta, e replica mais uma vez, dizendo: “Apascenta minhas ovelhas” (v.16c). Por fim, o Senhor lhe dirige, pela terceira vez, a pergunta: “Simão, filho de João, tu me amas?” (v.17a), e Pedro se entristece (v.17b), pois Jesus fez ecoar sua tríplice negação na tríplice interpelação por seu amor a Ele. Se antes Simão professara sua fé no messianismo de Jesus, agora ele faz sua profissão de amor verdadeira e derradeira a Ele: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo!” (v. 17c). Satisfeito, mas como nas outras duas vezes, Jesus acrescenta: “Apascenta minhas ovelhas” (v.17d).

Ali, na mesma margem do Mar de Tiberíades, onde um dia Pedro deu seu “sim” ao Mestre, ele agora, após se desviar do Caminho, confessa todo o seu amor, amor que “cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8). Pedro é a imagem do discípulo que, embora errante, é um profundo e verdadeiro amante de Jesus e de sua causa. Após predizer seu futuro (vv.18-19a), Jesus repete a ordem daquele primeiro encontro: “Segue-me” (v.19b). É dada nova oportunidade a Pedro de retomar seu discipulado, de não se deixar abater pelos erros, mas a se sustentar no amor, que verdadeiramente nos identifica como discípulos e discípulas do Mestre Jesus (Jo 13,35).

A cada uma das três respostas de Pedro, o Cristo lhe faz uma tríplice investidura: “Apascenta as minhas ovelhas” (vv.15c.16c.17d). O amor a Jesus se manifesta no pastoreio/cuidado para com os irmãos e irmãs, fazendo superar as vezes que o negamos, sobretudo nos mais empobrecidos e marginalizados, os prediletos de seu Reino.

*Daniel Reis é graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. É aluno do curso de Especialização em Liturgia, pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Membro da coordenação e assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro da Diretoria da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).