O QUE NEYMAR, MBAPPÉ E SUA TIA TÊM A VER?

Postado por Valentin Ferreira

Aquela mania desagradável de achar errado tudo que não faz parte da nossa bolha.

Por Nanny Mata(*)

Funciona mais ou menos assim: a gente se constrói dentro de padrões pré-estabelecidos e discorda de tudo que está fora dele. Isso vale para gostos, objetivos de vida, atitudes. A gente acha difícil demais tentar entender o outro, trabalhar a empatia  e é aí que acaba por desmerecer, criticar e até mesmo brigar. Tudo isso só para manter o próprio conforto.

Vi um tweet bem humorado que dizia mais ou menos que o Mbappé estaria em um almoço de família contando que aos 19 anos fez gol, foi o melhor e ganhou a Copa do Mundo, mas uma tia chegaria e comentaria “o negócio é prestar concurso”, desmerecendo todos os feitos do jogador da França. Por trás da brincadeira, tem coisa séria, e muito.

É que a gente confunde nossos sonhos com os dos outros. Nossos anseios com o de quem não pensa como a gente. Um dia, há uns 15 anos, eu tinha a certeza de que queria me tornar médica, investi dois anos nesse desejo, que descobri mais tarde não ser meu. Nem por isso, até hoje, vez em quando minha mãe me pergunta se não quero fazer medicina. Era o sonho dela, dos meus tios, avós… Nunca foi o meu.

Aí vem o Neymar faz uma tatuagem nova e recebe trocentas críticas. Que que isso tem a ver com o que tô falando? Tudo! Não é sobre uma ou todas as tatuagens do Neymar. É sobre criticar uma cultura que não é sua. Tem um bando de meninos em algum lugar admirando o jogador do PSG e da seleção, seu sucesso, suas roupas, seu cabelo e suas tatuagens. O tatuador do Neymar tem uma porção de admiradores e criou até um curso online pra ensinar sua arte, sabia?

É que se você falar com um desses meninos “nossa, parece tatuagem de presidiário”, é bem provável que eles não vão entender bem o que você vai dizer. Seu cachorrinho de dois centímetros tatuado em linhas finas atrás da orelha pode parecer ridícula pra uma galera, já parou pra pensar nisso? Historicamente, a gente pode pegar uma série de exemplos: a moda é maravilhosa para ser examinada nesse sentido, com suas idas e vindas das bocas largas, coletes e até pochetes.

Poderia funcionar de forma mais simples. É só se esforçar, antes da crítica pela crítica, que dá certo. Faça um exercício consigo mesmo para entender que se você fez concurso público e resolveu todos os seus problemas, pode ser que eu não me adapte a uma rotina burocrática e prefira ser freelancer para ter flexibilidade de agenda. Pode ser que você é um empresário brilhante, mas nem todo mundo quer ter o próprio negócio.

Nem todo mundo quer casar e ter filhos, enquanto tem gente que quer encher a casa de crianças. Há quem encontre um amor pra vida toda e viva a monogamia com toda a felicidade do mundo, mas tem também quem seja adepto ao poliamor. Há caras que gostam de barba e mulheres que prefiram cabelos curtos. E tá tudo bem! O que não tá bem é um mundo de gente criticando tudo que não está fora do padrão em que vive, dentro da própria bolha.

(*) Nany Mata
Jornalista, especialista em Comunicação Corporativa e Inbound Marketing. Acredita nos Direitos Humanos, na luta feminista e LGBT. Não se acanha em ser acusada de defensora de bandidos ou utópica. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos.
Publicado originalmente por Dom Total