UNIÃO ENTRE POBRES E CLASSE MÉDIA É A UNICA ESPERANÇA CONTRA A BARBÁRIE NO BRASIL

Postado por Valentin Ferreira

Por Tim Vickery(*) / BBC Brasil

O espaço público é sempre fascinante. Várias das minhas conversas mais interessantes acontecem no metrô. Outro dia, voltando de um jogo de futebol, um guarda municipal me disse a seguinte pérola, quando perguntei sobre as dificuldades da sua profissão: “(A população) não tem raiva do sistema. Tem raiva de não fazer parte do sistema”.

Achei uma sacada genial. Existe uma busca constante para se alcançar o status de ser exceção. O que vale para os outros não passa de uma armadilha para otários. Refleti bastante sobre isso na viagem, e mais ainda quando ficou difícil descer do trem por causa das pessoas com pressa para entrar. Trata-se de um retrato de uma sociedade com uma noção bem fraca de um conceito-chave: o bem comum.

Pouco tempo atrás, li uma entrevista da BBC News Brasil com Drauzio Varella, um homem que merece todo respeito por sua luta na área da saúde. Porém, ele chegou a uma conclusão que, na minha humilde opinião, é bastante equivocada.

“Temos uma parte da população com condições econômicas bastante favoráveis”, raciocinou, “que não deveria usar o SUS. Deveria deixá-lo para quem não tem outra alternativa – ou se trata pelo SUS ou não se trata.”

Compreendo a lógica. Dr. Varella está vendo e convivendo com um sistema superlotado operando à beira do colapso. Quer dar um pouco de fôlego ao sistema. Mas entendo que ele está enxergando sob o ponto de vista técnico, quando na verdade o assunto é uma questão política.

Um sistema de saúde funcional não é um luxo. Tampouco o são o sistema educacional ou a infraestutura de transporte. São todos eles fatores que reduzem o custo de fazer negócios e tornam o país mais competitivo.

Um serviço excelente deixa todos em situação melhor – serve ao propósito do bem comum. E, politicamente, o caminho para chegar lá é por meio de uma aliança entre os pobres e a classe média. Vou além: nas circunstâncias atuais, talvez a única esperança contra a barbárie e o autoritarismo seja uma aliança entre os pobres e a classe média. E essa aliança se faz em torno de um Estado de bem-estar.Escola de Curitiba, em foto de 2017imagem DANIEL CASTELLANO / SMCS

Escola de Curitiba, em foto de 2017; ‘Há um atalho relativamente fácil para melhorar o ensino público no Brasil: a exigência de que os filhos de candidatos a cargos políticos estudem no sistema estatal’, opina colunista

Não tem jeito: o fardo do imposto vai cair em cima da classe média. Fundamental, então, que a classe média receba algo em troca. A vantagem disso é que ela vai exigir uma melhora na qualidade dos serviços.

Um SUS somente para os pobres será, quase inevitavelmente, um serviço emergencial, de poucos recursos. Um sistema educacional também. Colocando a classe média lá dentro, o quadro é capaz de mudar: ela tem o hábito de exigir mais e os meios para exercer pressão. O nível, então, subiria para todos.

Acredito, por exemplo, que existe um atalho relativamente fácil para melhorar o ensino público no Brasil: a exigência de que os filhos de candidatos a cargos políticos estudem no sistema estatal. Com certeza a qualidade iria subir bem rápido.

Esse processo é dependente de um projeto político que, em prol do bem comum, alinha os interesses da classe média com aqueles dos menos favorecidos.

No Brasil, isso é sempre uma tarefa difícil, por motivos óbvios e históricos. Uma aliança assim é uma tentativa de construir uma ponte sobre um abismo enorme em termos de experiências e expectativas. Há um legado poderoso da escravidão, de mão de obra barata, de serviço doméstico. Talvez, então, a postura mais natural da classe média tradicional diante dos pobres seja um sentimento de medo.Muro com cadeado imagemGETTY IMAGES

Quando cheguei ao Brasil, em 1994, fiquei chocado ao ver como a sociedade ficava atrás de grades’

Outro dia ouvi uma discussão de pai e filho sobre as eleições. O pai, apavorado, gritava que um voto para certos candidatos teria um fim desastroso para a família; “eles vão tirar a nossa casa, você vai ver. Eles vão tirar a nossa casa!”

“Eles” – essa multidão desconhecida! Às vezes acho que elementos da sociedade brasileira estão parados em 1791 e acabaram de ouvir a notícia sobre Toussaint L’Ouverture e a sua rebelião de escravos no Haiti. E o medo é bem capaz de levar a classe média a alinhar os seus interesses com a parcela de cima, a enxergar a massa da população como um problema de ordem e botar fé em medidas autoritárias.

Só que não é necessário ir muito longe no passado para ver como funcionava. Quando cheguei ao Brasil, em 1994, fiquei chocado ao ver como a sociedade ficava atrás de grades. Na minha inocência, não esperava encontrar uma arquitetura urbana tão agressiva.

Eu me perguntava: quando começou essa época de grades? A resposta: começou na metade da década anterior, justamente depois de 20 anos de governo militar.

A repressão, então, só piorou o problema. Sugiro que muito melhor que se isolar com grades é se juntar para criar um sistema de que todos se orgulhem de fazer parte.

*Tim Vickery é colunista da BBC News Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.