GUERRA DE VALORES

Postado por Valentin Ferreira

Do Le Monde Diplomatique

Não nos iludamos, vivemos apenas um interregno em um processo que deve se acirrar depois de 1º de janeiro, quando toma posse o novo governo. Ocupados com a montagem da equipe ministerial, Bolsonaro, seus generais e os grupos evangélicos que o apoiam deram uma trégua na guerra de valores que está orientando a estratégia de recrutamento de sua equipe.

Colocando a economia de lado, porque esta será dirigida por economistas ultraliberais provenientes do mercado financeiro, inspirados por sua formação na Escola de Chicago e orientados a promover em larga escala a privatização de estatais para atender aos interesses especialmente do grande capital internacional e a direcionar os recursos públicos para alavancar os processos de acumulação, o governo que se constitui tem como projeto político a defesa de valores conservadores e de uma moral fundamentalista.

O ministro das Relações Exteriores nega o aquecimento global, o multilateralismo e a soberania nacional. O ministro da Educação, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, defende a escola sem partido. O ministro da Justiça manipula o Judiciário para perseguir a esquerda em nome do combate à corrupção… Os critérios de recrutamento não buscam gestores públicos experientes, capazes de formatar e gerir políticas públicas em benefício de um bom governo. O que vale é a orientação ideológica de direita, levando para o governo a polarização política que caracterizou a campanha eleitoral.

Nessa guerra de valores, as áreas de educação e comunicação são fundamentais. Bolsonaro propõe a militarização das escolas públicas, a volta da disciplina Moral e Cívica para valorizar o civismo, o amor à pátria e a ética, as parcerias público-privadas na educação pública e a vigilância permanente dos professores para combater o pensamento crítico. Na área de comunicação, a estratégia é continuar a saturar com fake news as redes sociais para atrair a atenção para o que não é importante e manter em alta a defesa de uma agenda de valores que reafirma toda sorte de preconceitos e discriminações.

Se esses movimentos já denotam os caminhos que esse novo governo vai trilhar – muito preocupantes por seu caráter autoritário e fundamentalista –, quando essas iniciativas saírem do papel e forem postas em prática vai se instaurar um confronto aberto na sociedade entre os defensores desses valores conservadores e a cultura pluralista e de respeito à diversidade que se desenvolveu no período democrático (1985-2016). Ainda que as forças policiais possam desempenhar um papel importante na caça aos esquerdistas, as maiores ameaças vêm da impunidade que grupos de ultra direita venham a ter ao praticar violências contra aqueles que pensam e se comportam diferentemente deles.

Como, ao que parece, o projeto político do novo governo não trata da gestão do Estado e tampouco das políticas públicas, e seu objetivo declarado é destruir a esquerda, criminalizar os movimentos sociais e combater toda forma de pensamento crítico, todos aqueles que forem identificados como participantes de qualquer manifestação de defesa de direitos e de contestação às arbitrariedades que estão por vir serão vistos como inimigos.

A ação política que se delineia, à semelhança do macarthismo nos Estados Unidos dos anos 1940-1950, é baseada fundamentalmente em delações não comprovadas, em uma intensa repressão e perseguição políticas, e em métodos de censura e difamação com base em acusações de traição ou subversão. A manipulação midiática, os interrogatórios para incriminar os “esquerdistas” (que substitui o inimigo “comunista”), a intimidação e a tortura para obtenção de confissões, a criação das “listas negras” que marcavam os perseguidos como traidores, tudo isso parece voltar do passado.

Os militantes dos movimentos sociais, dos sindicatos, das associações de defesa de direitos e das ONGs serão objeto de vigilância e repressão.

A onda conservadora que elegeu Bolsonaro contou com a participação ativa de bancadas parlamentares que comporão uma maioria no Congresso, incluindo também a grande maioria dos integrantes do Judiciário e da polícia. Assim, os três poderes da República se alinham e jogam na lata do lixo o que há de substantivo na democracia: o respeito ao outro e à pluralidade do pensamento, o pacto na defesa de direitos, a busca de uma vida digna para todos. Temos uma democracia formal, que elegeu o presidente, mas nenhum direito assegurado. Ao contrário, o governo eleito vai promover a espoliação ainda maior das maiorias, aprofundar a pobreza e a desigualdade, e tentar destruir todas as formas de representação e defesa das maiorias.

A combinação perversa do pacote de maldades anunciado pelos dirigentes da economia (reforma da previdência, corte nas políticas sociais, precarização das relações de trabalho etc.), com a imposição da agenda de valores conservadora, condena nosso país à condição de colônia exportadora de bens primários e joga o Brasil no obscurantismo, reafirmando toda sorte de discriminações, naturalizando a desigualdade, a exclusão das maiorias e a intolerância à diversidade, e sacrificando nossa capacidade de produzir conhecimentos, formar novas gerações e oferecer um futuro melhor para nossos filhos e netos.

Evidentemente não é o fim da história. Mas o enfrentamento dessa onda conservadora vai exigir dos democratas novas formas de fazer política e coragem para defender seus direitos.