“BOA FÉ” E A EFICIENTE FORMA DE “FAZER DINHEIRO”

Por Blog do Valentin

Por Valentin Ferreira

Naquele distante vilarejo conhecido pelo nome de Boa Fé, a religião era um canal que servia de conforto e esperança para os sem eira nem beira.

Eventos religiosos pipocavam nas igrejas espalhadas por todo canto.  As mais variadas razões mobilizavam as pessoas simples e de boa fé na busca de paz, mas também de conforto material depois que apareceu a tal “teologia da prosperidade”, habilmente vendida por alguns, como “socorro de Deus”

Comentou-se naqueles dias, que até diminui a demanda em jogos de loteria.

Pregadores bem formados nas técnicas de vendas de soluções fáceis, vindas de “Deus” proferiam grandes discursos com forte base argumentativa. Assim, encontraram em Boa Fé tudo o que precisavam. Contava-se ali também profundas carências em políticas públicas básicas, jogando aquela população num mar de necessidades.

Foi neste cenário de grandes demandas que entram pregadores e vendedores de soluções miraculosas através do “socorro de Deus”, com seus kits e combos feitos na medida para cada um ou para suas famílias.

Aquelas pobres e “santas Almas” aos poucos foram sendo “preparadas” para desfrutar dessa grande novidade chamada ”teologia da prosperidade”. Claro, não sem troca de dízimos e doações generosas para pregadores e suas necessitadas igrejas. Tudo dentro da lei dos homens.

Assim, com o passar dos dias, os ingênuos cegos pelos olhos da fé, na espera do resultado prometido, não hesitavam em tirar do próprio do sustento boa parte de sua renda mensal para “pagar” o futuro socorro financeiro e regalias que viriam em seguida. Tudo modernamente canalizados por boletos, cartões de crédito, Doc, Ted ou em grana viva aos pés do púlpito ocupados por santos pregadores e suas santas igrejas.

Assim o “socorro de Deus” virou um produto altamente vendável!  Oferecido através de sofisticadas armas de marketing argumentativo de fundo religioso, quase sempre ocupava o maior tempo da “pregação”. Ali, dezenas, centenas de pobres almas apostavam quase tudo do que tinha.

Os poucos contemplados, sabe Deus como, eram exibidos a exaustão com testemunhos emocionantes e cheios de bens a mostrar, como casas, carros, fábricas, viagens que enchiam os olhos e a esperança dos futuros compradores. As futuras pobres almas que continuariam a tirar da boca dos filhos para “emprestar” a Deus, feito um banco de trocas fáceis, intermediadas por gente esperta.

A pedagogia da exploração dessas almas ingênuas, enchia cofres, financiava projetos faraônicos, nas eleições coloca em altos cargos políticos “benfeitores”, que uma vez empossados iriam trabalhar em sintonia fina com os poderosos e exploradores de pobres, através de legislação ou apoio político que em nada beneficiavam aqueles coitados. Assim se alimentava aquela espiral assustadora.

Ouvia-se: “Pobres, sempre tereis”. Os mais críticos e distantes daquelas arapucas, ousadamente diziam: que bom para esse pessoal, que precisa dessa “matéria prima” para continuar neste negócio altamente lucrativo, e sem dúvida, construindo um grande projeto de poder político.

Foi assim que ”teologia da prosperidade”, que veio de Boa Fé, foi se espalhando por outras localidades, cidades, países, criando um tipo de “dependência” como se fosse uma potente droga a vincular cada vez mais dependentes que, mesmo não recebendo o “socorro”, mantinha as expectativas e as doações sempre em dia.

Certo dia, num  momento de lucidez, um dos “batizados” cansado por esperar o prêmio material que não vinha, com voz embargada gritou: Não roubes ao pobre, porque é pobre”, citando Provérbios 22,22.

Seguido de um breve silencio, o “irmão” foi colocado para fora do recinto sob o argumento de que o demônio havia se apoderado dele.