POR QUE HÁ TANTOS MASSACRES DE PRESOS NO NORTE E NORDESTE DO BRASIL?

Postado por Blog do Valentin

Da BBC Brasil

Manaus (AM), Boa Vista (RR), Nísia Floresta (RN) e agora Altamira, no Pará. Nos últimos anos, alguns conflitos entre presos deixaram centenas de mortos em penitenciárias na região Norte e Nordeste do Brasil.

Na manhã de segunda-feira, 57 pessoas ligadas à facção carioca Comando Vermelho (CV) foram mortas no Centro de Recuperação Regional de Altamira. Entre eles, 16 foram decapitados e os outros morreram por asfixia após serem sufocados pela fumaça de um incêndio iniciado pelo grupo rival, o Comando Classe A.

Os últimos massacres do país, iniciados em janeiro 2017, repetem a mesma dinâmica: membros de uma das facções invadem setores comandados pelo grupo rival e, com decapitações e requintes de barbárie, matam dezenas de detentos. No pano de fundo desses episódios está o conflito entre as duas maiores redes criminosas do país pelo controle do tráfico de drogas: Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).

No primeiro deles em Manaus, presos ligados à facção Família do Norte – até então aliada dos cariocas – mataram integrantes do PCC. Dias depois, membros do grupo paulista revidaram no presídio de Alcaçuz, em Nísia Floresta, região metropolitana de Natal, assassinando pessoas ligadas ao Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte, filiado ao Comando Vermelho no Nordeste.

Em algum momento da última década, esses dois grupos migraram para o Norte e para o Nordeste, buscando novas oportunidades de negócios. Por algum tempo, eles foram aliados, mas romperam as relações em meados de 2016, iniciando um conflito que se espalhou pelo país.

Altamira

Segundo Roberto Magno Reis Netto, doutorando em segurança pública pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisador do Laboratório de Geografia da Violência e do Crime, o Comando Classe A surgiu em Altamira recentemente, sob as asas do PCC.

O crescimento econômico e populacional de Altamira, estimulado pela construção da usina de Belo Monte, fomentou a atuação das gangues, diz Reis Netto. Para ele, a oferta de rios na região também facilita o transporte de drogas para outros locais.

Os massacres funcionam como estratégia dos grupos criminosos, explica Reis Netto. “Quando a facção está se expandindo, como essa de Altamira, ela costuma usar as mortes em presídios para eliminar momentaneamente líderes rivais, mas também de forma simbólica, para mostrar força para os rivais”, disse.

A região Norte é divida por várias siglas, mais fortemente entre Família do Norte, Comando Vermelho e PCC, embora esse último tenha perdido força nos últimos anos. Elas disputam as vendas de drogas nas cidades, mas também uma rota de tráfico que vem da Colômbia, Peru e Bolívia.

Já em Estados do Nordeste, como Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, facções menores também foram criadas, mas em contraposição aos paulistas.

De acordo com Ítalo lima, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), esses conflitos ocorrem há mais de 20 anos nos presídios de Sudeste e Sul. A diferença é que o PCC hoje tem o monopólio do tráfico de drogas e do controle dos presídios, principalmente em São Paulo. Além disso, a facção paulista evita chamar a atenção por ações violentas.

“Isso se alastrou para os presídios de outras regiões. As facções mais novas precisam passar o medo e fazer publicidade de suas ações por meio de vídeos. Estamos acompanhando a consequência de escolhas feitas há décadas, tratar o encarceramento como negócio”, afirmou.

Para o pesquisador, os conflitos nas penitenciárias são um reflexo dos problemas brasileiros. Ele diz que há uma grande preocupação com a segurança enquanto outras áreas ficam esquecidas, como saúde, educação e emprego.

“Precisamos resolver o analfabetismo, problemas na educação, moradia, saneamento básico e garantir renda para projetos. Hoje, o Brasil quer resolver problemas históricos eliminando o outro. É necessário reduzir o desemprego na juventude e a evasão escolar para reduzir de maneira estrutural nossos problemas nos presídios”, afirmou.

No Pará, como em outros Estados, os presídios estão superlotados e precários. Segundo o Infopen, do Departamento Penitenciário Nacional, o Pará tinha uma taxa de ocupação de suas cadeias de 167%. Em 2016, últimos dados oficiais compilados pelo governo federal, o Pará tinha 14.212 presos para apenas 8.489 vagas. Desse total, 48,3% eram presos provisórios – ou seja, pessoas que ainda não haviam sido julgadas.

A estrutura do próprio presídio de Altamira, onde ocorreu o massacre de segunda-feira, foi classificada como “péssima” em um relatório do Conselho Nacional de Justiça. O juiz que realizou a vistoria apontou que a unidade tem capacidade para 163 presos, mas, no momento do massacre, contava com 343 detentos.

“Os presídios do Pará, como no resto do país, são precárias e superlotadas. Nessas cadeias, presos perigosos ficam misturados com presos de menores potencial ofensivo”, diz Edson Ramos, professor do programa de pós-graduação em Segurança Pública da Universidade Federal do Pará. “Você coloca dentro de uma mesma cela um cara que praticou um pequeno furto com grandes líderes de redes criminosas. Então, esse recrutamento (de novos filiados para as facções) fica muito fácil.”

Fonte e Mais informações: BBC Brasil