NÃO FOI SÓ PESADELO

Por Valentin Ferreira

Estava eu curtindo este belo país “abençoado por Deus e bonito por natureza”. Suas belezas, povo acolhedor, comida diversificada e saborosa. Num ponto paradisíaco e esplêndido do imenso litoral admirava as praias de areias brancas e gente bonita.

Saboreava cada segundo do prazeroso sonho de uma dessas noites quentes de verão.

Os dias corriam e tudo parecia em paz.

De repente nuvens escuras e carregadas fecharam o horizonte, até então azul e limpo. Relâmpagos e raios aumentavam a cada instante e o medo começou a tomar conta de mim.

Das nuvens mensagens de conteúdo sombrio e alertas preocupantes, sucediam-se aos lampejos.

Comecei a sentir medo. Eram mensagens cada vez mais ameaçadoras. A maioria referia-se ao nosso atual momento político.

-“Prestem atenção: As faculdades públicas serão reduzidas a pó. A educação é somente para gente que pode pagar”

-“A cultura e a arte falarão só de religião e fé; e serão comandadas por “gente da gente”.

-“Os trabalhadores e os desempregados continuarão sendo os últimos nas prioridades das reformas comandadas pelo presidente, que continuará a privilegiar os que mais têm”

-“O racismo aumentará e os negros jovens continuarão sendo a prioridade da mira das armas da gente militante”. As novas leis terão como base o preceito “olho por olho, dente por dente”

Confuso mal conseguia entender tudo aquilo. As frases apareciam cada vez mais rápido e em cores fortes. O incrível é que a maioria nem se tocava. Ignorava o cenário caótico. Poucas pessoas estavam atentas aos tenebrosos anúncios. Meu desespero aumentava.

E o espetáculo de horror era cada vez mais intenso.

-“Olhem aqui: os homens que possuem armas e que são pagos com dinheiro público, são a prioridade do presidente. Formarão grandes milícias e serão autorizados a eliminar todos os que discordarem das leis, dos costumes e do presidente. O indulto natalino foi para premiar os melhores dos melhores. ”

Neste momento, senti forte aperto no peito que comprimia o coração. E nova mensagem, desta feita mais aterradora – ocupou minha atenção.

-“Pequenos atentados serão transformados em focos de violência e se multiplicarão. O ódio que infesta as redes sociais chegará às ruas e às casas e provocará violência e muitas mortes”

Em pânico, pensava: quando isso vai ocorrer? Uma nova mensagem seguiu-se à minha aflição.

-“Prestem atenção naquilo que já está ocorrendo no dia a dia. Poucos estão dando a devida importância. ”

E reforçava.

-“Quanto maior for a indiferença das pessoas; quando maior a negligência dos meios de comunicação; quanto mais omisso forem os órgãos do judiciário, mais os promotores do caos avançarão sobre o povo”

Na minha sufocante angústia via que no horizonte brotavam mais e mais nuvens escuras e tudo em volta já parecia noite. O inacreditável é que a maioria das pessoas ignorava a cena apocalíptica. Sentia que para elas tudo era normal, como se algum tipo de anestesia estava em pleno efeito. O quadro de horror me sufocava.

Um forte trovão sacudiu minha janela, e eu acordei. Paralisado entre o cenário que acabara de ver e sentir, agora interrompido, com o forte trovão, colocava-me num breve transe que aos poucos trazia à realidade.

Alguns segundos se passaram. Eu ainda confuso não conseguia estabelecer diferença entre os dois mundos.