VAMO ACORDÁ, AMIZADE?!

Discutir pronome e banir ‘Mulheres de Atenas’ é mesmo a nossa prioridade?

Por Antonio Prata

Cinco minutos do debate presidencial americano e eu já estava tentando morder os cotovelos. Não por causa das atrocidades ditas pelo Trump, mas por ver pela primeira vez em ação (sic) quem o país mais poderoso do mundo decidiu enviar à linha de frente da luta global contra o fascismo. Esse picolé de chuchu vai nos salvar do Darth Vader?!

Enquanto Trump se apresenta pintado de laranja e com aquele topete metafísico, Biden é cinzento e calvo de sobrancelha. Trump vende vigor. Um vigor atroz. Homicida. Machista. Racista. Ignorante. Mas, mesmo assim, vigor. Biden parece um carro a álcool tentando pegar numa manhã fria de 1984. O debate foi Tony Soprano contra uma mistura de Suplicy e Alckmin na “melhor idade”.

O problema não é a idade. Se Ariano Suassuna, no ano de sua morte, aos 87, estivesse debatendo contra Trump, iria reduzi-lo a feno. A Fernanda Montenegro é 13 anos mais velha do que o candidato democrata e não teria que dizer “você não vai calar a boca?!”, pois quando ela fala, todos se calam e escutam.
Talvez Biden ganhe. Torço por isso e não ouso fazer qualquer previsão. Minha questão é: o que aconteceu com as forças democráticas, civilizadas, progressistas (liberais ou de esquerda), que não conseguem formar lideranças? Por que o planeta pariu numa década tantos Bolsonaros, Trumps, Maduros, Salvinis, Orbans, Erdogans, Dudas e tão poucos do outro lado, pra balancear?

O presidente Donald Trump e o ex-vice-presidente Joe Biden debatem pela primeira vez
O presidente Donald Trump e o ex-vice-presidente Joe Biden debatem pela primeira vez – Brian Snyder/Reuters

Quem é o principal nome da oposição, hoje, no Brasil? O Freixo? Ele é incrível, mas infelizmente ainda não tem a projeção necessária para aglutinar a todos que precisam se unir. O Rodrigo Maia? Ótimo, tem feito um trabalho fundamental barrando várias atrocidades do Bolsonaro, mas você imagina o Rodrigo Maia incendiando multidões em cima de um palanque? Se ele disser, como Martin Luther King, “I have a dream”, você não vai imaginar que ele sonhou com a concórdia universal, mas com um Chandelle.

Enquanto os dementes de extrema direita tocam fogo no planeta, armam as populações e jogam no lixo o futuro da humanidade, a esquerda está discutindo se “todxs” é melhor que “todes” ou denunciando o machismo nos versos do Chico Buarque. Galera, os caras estão estrangulando a imprensa e aparelhando o país, armando a população e impedindo rastreamento de cartucho, vocês acham mesmo que discutir pronome e banir “Mulheres de Atenas” é a nossa prioridade?

Não sei, mas talvez tenha algum papel na ausência de lideranças decentes o esforço hercúleo que o campo progressista faz para atacar a si próprio. A Tabata Amaral, uma das boas surpresas da política brasileira, escreveu aqui na Folha outro dia que, num levantamento em blogs de esquerda, descobriu que o nome dela aparece, pejorativamente, muito mais do que o da Carla Zambelli. A esquerda vê um cisco no olho da aliada e não enxerga a trave no da oponente.

Mais aflitivo é que o discurso pros líderes que não temos está pronto. Foi construído pelo cinema americano ao longo do século 20. Opor-se ao Trump e ao Bolsonaro é defender os valores que estão em jogo em “Star Wars”, em “Casablanca”, em “Indiana Jones”, em “A Lista de Schindler”, em “Erin Brockovich”, em “E.T.”, em “De Volta para o Futuro” —em qualquer filme da Sessão da Tarde. Mas o pessoal acha que vai salvar o mundo citando Foucault e proibindo fantasia de Carnaval, certo?

Vamo acordá, amizade?! Primeiro a gente garante que não vai pro campo de concentração. Depois discute se com isso salvamos a “todes” ou a “todxs”. Ou não.Antonio Prata

Escritor e roteirista, autor de “Nú, de Botas”