PANDEMIA OPERA “MILAGRE” E RENDA MÍNIMA VIRA PROMESSA DA DIREITA À ESQUERDA

Por Leonardo Sakamoto /UOL

O sucesso do auxílio emergencial em alavancar a aprovação nacional de Jair Bolsonaro para os 40%, segundo o Ibope, operou um milagre na eleição da maior cidade da América do Sul. A direita abraçou uma pauta da esquerda e passou a defender um programa de transferência de renda para complementar as ações federais.

Os três primeiros colocados nas intenções de voto – Celso Russomanno (Republicanos), Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) – encampam programas de renda mínima.

Com anos de pregação quase solitária em nome da renda básica de cidadania, o, hoje, vereador Eduardo Suplicy (PT) bem que poderia encher a boca com um grande “eu te disse”. O economista francês Thomas Piketty, visto como o demônio por grande parte do mercado por defender esse tipo de ação a fim de reduzir a desigualdade, também.

São Paulo já conta com um, digamos, programinha de renda mínima, que paga um teto semelhante ao Bolsa Família (R$ 200) a quase 13 mil famílias – Covas promete expandir a ação. Russomanno, influenciado pelo presidente da República, quer aumentar em 15 ou 20% os valores que serão pagos pelo “Bolsa Bolsonaro”. Boulos, por sua vez, promete uma média de desembolso de R$ 350 por família.

Nenhum dos programas, claro, seria universal. Atenderia aos mais vulneráveis. O que faz sentido, uma vez que os R$ 600/R$ 1200 pagos de auxílio emergencial causaram impacto menor em São Paulo – um dos maiores custos de vida do país, que ficou ainda maior na crise – em comparação a municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, por exemplo.

Nada como uma pandemia assassina global para forçar uma mudança de comportamento. Mas debater o quão oportunista é isso interessa a cientistas sociais, mas não à população mais pobre que pode ser beneficiada por algo que deveria ter acontecido há muito tempo. E que votará no mês que vem.

De tempos em tempos, as elites política e econômica afirmam que, caso sejam adotadas, políticas para a redução da nossa pornográfica desigualdade levarão o país à hecatombe financeira. Mas considerando que mais de 105 milhões entraram com pedido do auxílio emergencial e mais de 65 milhões receberam, ao menos, uma de suas parcelas, podemos dizer que já vivemos uma hecatombe de vulnerabilidade social. A pandemia apenas mostrou o tamanho da encrenca.

Essa parcela da população que sentiu o gosto dos direitos sociais não vai aceitar retrocessos da mesma forma que as mais de 14 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa também não aceitariam. Bolsonaro entendeu isso e corre atrás de de manter parte do auxílio sendo pago em forma de Renda Cidadã a partir do ano que vem. Outros políticos que perceberem isso garantirão vantagem competitiva na eleição.

Da mesma forma, se temos políticos que “mudaram” de opinião sobre o Bolsa Família ou sobre programas de renda mínima, não por uma questão ideológica, mas pragmática, talvez não seja impossível mudarem também sobre a taxação de super-ricos.

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