“OS SETE DE CHICAGO”: A FARSA DA FALSA JUSTIÇA

Créditos da foto: (Divulgação)

Filme documentário dramatizado, imperdível, é estréia internacional neste momento crucial das eleições nos EUA

Quem já era adulto em 1968 deve bem lembrar do julgamento indecoroso que um juiz parcial e submisso presidiu, em Chicago, condenando, de uma só vez, sete lideranças de diversos movimentos jovens, de protesto pacífico, que abalavam as ruas da cidade e do país, indignados sobretudo com os 125 mil soldados, jovens americanos entre 18 e 24 anos, convocados e que se encontravam no Vietnã para morrer.

O juiz Julius Hoffman passou à história como um magistrado incompetente, covarde e venal. Mas uma das grandes estrelas do julgamento, que durou 23 meses e abalou o país com repercussão no mundo inteiro, foi o então ex-procurador geral dos Estados Unidos, Ramsey Clark, democrata liberal hoje com 92 anos, que advoga no Texas. Na época, ele aceitou depor como testemunha da defesa e denunciou o presidente do país.




Os 7 de Chicago conta essa história que se passa nos trepidantes anos de 68/69, dos assassinatos de Robert Kennedy, de Martin Luther King Jr. e, é claro, da guerra no Vietnã. O diretor do filme, Aaron Sorkin, é um brilhante roteirista e produtor de televisão em Nova Iorque; ele estreou seu filme na Netflix da América Latina e da Europa há poucos dias.

A montagem, que escorre atraente e captura o espectador desde a primeira imagem, é do premiado Alan Baumgarten, de As Panteras”. E a trilha musical, particularmente envolvente, é de Daniel Pemberton.

Sorkin já ganhou um Oscar pelo roteiro do festejado  documentário A rede social, de 2011, um perfil de Mark Zuckerberg, e agora o seu documentário (dramatizado) está sendo distribuído na hora justa, a algumas semanas das eleições americanas.

A Dreamworks, de Spielberg, e a empresa do conhecido advogado Mark Platt são da turma dos produtores do filme que ecoa as recentes manifestações dos grupos do Black Lives Matter e que reforça o questionamento que sofre a decantada democracia estadunidense sacudida de tempos em tempos por fortes movimentos populares de protestos.

The Trial of the Chicago 7 é excelente, assinado por um roteirista experiente que extinguiu dele a etiqueta de ”filme de tribunal” convencional. O filme é trepidante. A história relembra, com flashes back frequentes e alguns filmes de arquivo, a Convenção Nacional do Partido Democrata de 1968 em Chicago, e o que deveria ter sido um grande protesto pacífico nessa ocasião e se transformou em  violento confronto de cinco dias com a polícia e a Guarda Nacional.

Os organizadores do protesto, Abbie Hoffman, com seu grupo de hippies. Jerry Rubin liderando a tribo da contracultura. Tom Hayden, chefiando a organização de universitários de classe média ‘bem comportados’. Esses foram alguns dos acusados mais expostos.

Bobby Seale, presidente dos Panteras Negras, incluído à força na acusação inicial, acabou sendo julgado em separado. Não mantinha qualquer relação com os indiciados por conspiração e por incitar a desordem, nem era uma ”ameaça à segurança pública por parte de rebeldes desempregados”, como citava o promotor Richard Schultz cuja atuação truculenta é minimizada no filme.

Antes de ser inocentado, Seale foi humilhado, algemado, acorrentado e amordaçado ”em pleno espaço de um tribunal americano” por ordem do juiz (o brilhante ator Frank Langella) que além de praticar lawfare era racista. Esse é um dos grandes momentos do filme: quando Seale aos berros, da sua cadeira de réu acusa o juiz de ”porco racista”. Pouco antes, um dirigente dos Panteras havia sido assassinado pela polícia da cidade.

O elenco de Os 7 de Chicago, composto de estrelas do cinema comercial e de blockbusters, é notável e nos permite especular que fazem o seu trabalho nesse documentário eminentemente político-partidário seguindo convicções ideológicas progressistas. Algumas dessas estrelas: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen), Sacha Cohen (Borat), Eddie Redmayne (A teoria de tudo), Jeremy Strong (Emmy pela badalada série Succesion, do HBO) e Michael Keaton, numa ponta fulgurante na pele de Ramsey Clark.

O filme é imperdível. E é quase impossível a previsão de Sorkin que, pouco mais de dez anos depois de finalizar esse seu roteiro, nesse doc dramatizado com extrema competência, veria a sua estréia se dar em momento crucial da história política do seu país e do mundo. Se os protestos de Chicago de 68 foram embalados com o slogan  “o mundo inteiro está nos assistindo agora” – o que era verdade -, hoje se pode dizer que o slogan, para o filme e para as próximas eleições norte americanas, continua sendo o mesmo. 

Publicado originalmente por CARTA MAIOR