OS ENTENDIDOS QUE NÃO ENTEDEM

A enologia é uma fraude?

Por Helio Schwartsman

Li no imperdível Marcos Nogueira a história dos “wall-streeters” que pediram um Château Mouton-Rotschild de R$ 11,2 mil num restaurante de Nova York, foram servidos com um vinho ordinário de R$ 100 e nem perceberam.

É que os garçons se atrapalharam com os decantadores. O casal da mesa próxima que pedira vinho da casa e acabou agraciado com a garrafa de colecionador também não percebeu. Escândalo?

O problema, como sempre, são os nossos cérebros. Quando eles não têm informações suficientes para emitir um juízo, catam qualquer pista que esteja à mão, seja ela relevante ou não, e proferem seu parecer como uma conclusão irrefutável.

A dificuldade, no caso da enologia, é que o paladar e o olfato humanos não são bons o bastante para julgar vinhos, pelo menos não no nível que os “sommeliers”, com seu vocabulário rebuscado e esnobe, fazem crer que é possível. Aí o cérebro, para não ficar mal, apela para rótulos, preços, críticas etc.

Estudos da psicologia do gosto, iniciados nos anos 60 por Rose Marie Pangborn, só não acabaram de vez com a reputação da indústria enológica porque não são muito divulgados. Pangborn mostrou que bastava adicionar um pouco de corante a vinhos brancos para deixar os especialistas completamente perdidos.
Na sequência, outros trabalhos revelaram que, em copos escuros, estudantes de enologia não conseguem mais distinguir vinhos brancos de tintos e que basta trocar os rótulos das garrafas para que especialistas rasguem elogios a vinhos “objetivamente” medíocres.

No caso de Nova York, a pista mais conspícua era o preço. Os “wall-streeters” que pagaram R$ 11,2 mil sentiram um vinho de R$ 11,2 mil, e o casal que pediu a bebida de R$ 100 teve a experiência de R$ 100. Isso até o restaurante revelar o mal-entendido e não cobrar o vinho de nenhuma das duas mesas. Aí o par de namorados “viveu” um grande lucro, e os investidores, prejuízo.


Hélio Schwartsman Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de “Pensando Bem…”.