LUGAR DE MULHER É NA POLÍTICA

O estranhamento só dura enquanto durar o processo

Por Gabriela Prioli

Diante das eleições municipais, que acontecerão uma semana depois do anúncio da derrota de Donald Trump, o presidente precisa de engajamento. O pleito municipal dá recado para os seus aliados de última hora: se o bolsonarismo, que já levou um baque internacional, não alcançar resultados animadores, perde força na barganha.

Bolsonaro opera por meio de gatilhos, não só os que disparam a pólvora da piada brasileira, mas os psicológicos que animam sua trupe. O desta semana foi “maricas”. Há algumas semanas foi “boiola”. A tática de forçar a superioridade de um modelo masculino é manjada, mas funciona.

A relação do bolsonarismo com um tipo do masculino (seria injusto pôr todos nesse balaio) merece atenção. No livro “O Brasil Dobrou à Direita“, Jairo Nicolau mostra que desde 1989 todos os candidatos competitivos à Presidência obtiveram níveis de apoio semelhantes entre os dois gêneros. Já Bolsonaro foi carregado pelos homens. No segundo turno, de cada três homens, dois foram de 17.

O discurso de culto à hipermasculinidade e exclusão dos grupos minorizados cola em um cenário em que muitas pessoas —em especial muitos homens— estão se sentido fragilizadas pela crise econômica que afeta a condição de provedor da masculinidade tradicional, aliada ao maior protagonismo feminino, como nos mostra Rosana Pinheiro-Machado em “Amanhã Vai Ser Maior”.

A progressiva inclusão de grupos tradicionalmente minorizados incomoda como ameaça aqueles que se veem disputando espaços num cenário de escassez. O antídoto está ao nosso alcance. O número de mulheres registradas como eleitoras supera, desde 2002, o de homens no Brasil. No entanto, não observamos essa proporção nos nossos cargos eletivos. A ausência de mulheres em cargos representativos faz com que a sua ascensão cause estranhamento. O efeito só dura enquanto durar o processo. Domingo é um ótimo dia para começarmos a naturalizar a presença das mulheres na política.

Gabriela Prioli – É mestre em direito penal pela USP e professora na pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie.