DAMARES ESTÁ PARA AS MULHERES COMO SÉRGIO CAMARGO ESTÁ PARA AS PESSOAS NEGRAS

Fisólofa e Escritora Djamila Ribeiro – Imagem Reprodução

Por Djamila Ribeiro

A última quarta-feira (25) foi o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. Em vários países foi uma data para a conscientização acerca de uma estrutura patriarcal que organiza a sociedade global.

Como feministas negras, defendemos a intersecção da opressão patriarcal com o racismo e o capitalismo, combinando formas de exclusão que devem ser combatidas com políticas públicas, entre outras formas.

Ao redor do mundo, foi uma data para anúncio de algumas dessas políticas e debates sobre o tema. Mas no Brasil foi dia da dita ministra da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos fazer um bolo vestindo-se dos pés à cabeça de rosa em uma cozinha rosa.

O deboche é mais um para o currículo da ministra que está para as mulheres como o presidente da Fundação Palmares está para as pessoas negras. Ambos usam seu tempo para falar sandices, sapatear para o absurdo, enfim, passar vergonha.

É curioso, porém, o quanto tempo é gasto para falar do presidente da Fundação Palmares, enquanto em relação à ministra isso é muito menor. E é interessante observar como as pessoas conseguem manifestar seu asco em relação ao diretor com uma facilidade enorme, ao passo que a ministra recebe pouca manifestação de repúdio, sobretudo quando comparada ao diretor. Vejam como o racismo está nas entrelinhas…

Em termos de orçamento e de cargo, a ministra está em uma posição superior à do diretor da fundação, porém, ao contrário dele, pertence ao grupo racial hegemônico, então é tratada com menos incômodo, ainda mais por estar a serviço do sistema patriarcal, não importando a quantidade de estupidezes que faça, como também os efeitos catastróficos que a gestão de sua pasta signifique para a vida das mulheres e crianças.

Não é demais lembrar que o orçamento referente a políticas para mulheres foi drasticamente reduzido, e que mesmo o que é previsto não é gasto pela ministra. Segundo informações da coluna de Jamil Chade, o governo federal fez pagamentos equivalentes a apenas 5,4% do orçamento previsto para programas de proteção às mulheres em 2020.

Políticas públicas de acolhimento a mulheres foram reduzidas a pó, como a Casa da Mulher Brasileira, pensada para ser centro integrado de atendimento a vítimas de violência. Conforme apontou a Human Rights Watch, 90% de todo o dinheiro gasto pela pasta foi destinado à manutenção do Ligue 180, linha criada em 2005 por meio da qual mulheres podem denunciar violência, porém o investimento no serviço
de atendimento foi muito baixo, para não dizer inexistente.

Também não há como esquecer a mobilização de uma pasta para aterrorizar uma menina engravidada por um estupro de seu padrasto, entre tantos retrocessos que significam mortes e violências variadas. E, se interseccionamos a violência de gênero com a de raça e classe, encontramos um grupo social que é mais atingido por essas medidas, o grupo que está mais morrendo.

A comparação nos põe em situações curiosas. Cada ação absurda do diretor da Fundação Palmares é cobrada, como se fosse um grande absurdo um homem negro trabalhando em desfavor das pessoas negras. E, de fato, é um absurdo. Porém quero aqui destacar que uma das mensagens indiretas dessa cobrança é a de que a Fundação Palmares deveria ser presidida por uma pessoa negra consciente, antirracista.

E aqui vem a hipocrisia: em relação à pasta responsável pela política para mulheres não é exigida uma
mulher feminista, uma mulher que seja a favor da descriminalização do aborto, por exemplo. Significa que vivemos em uma sociedade antirracista e machista? Evidentemente não.

Primeiro, como feminista negra entendo não ser possível um antirracismo que não seja feminista.

Segundo, concentrar o espanto no diretor cumpre função específica: fazer acreditar que o racismo vindo da gestão federal possa ser resumido na retirada de nomes de pessoas negras célebres da lista de homenageados, quando sabemos que o projeto racial é muito mais amplo e se manifesta, sobretudo, nas políticas econômicas de precarização da população mais pobre, que no Brasil tem cor.

De outro lado, a ministra cumpre o papel que se espera da mulher. Sob a moral que corrobora com discurso patriarcal, veste-se de rosa enquanto é parte de uma pasta em profundo processo de sucateamento e abandono de políticas, práticas que têm resultado em mortes e falta de serviços públicos.

Em que pesem os absurdos perpetrados por ambos, vale dizer que tanto um quanto outra não podem ser considerados problemas principais, pois são manifestações de uma doença mais profunda.

Caso percam a utilidade, serão descartados como santinho em dia seguinte de eleição, para então outras pessoas tão infelizes quanto ocuparem seus lugares. Trocam-se os peões, mas o jogo é o mesmo.

Djamila Ribeiro Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.