O QUE A POPULAÇÃO MAIS REJEITA EM UM POLÍTICO, SEGUNDO ESTA PESQUISA

Gráfico em barras verticais laranjas indicando os comportamentos que os eleitores consideram inadmissíveis em políticos
Levantamento do Ibope reúne opinião de eleitores da cidade de São Paulo. O ‘Nexo’ falou com cientistas políticas sobre os comportamentos mais citados como inadmissíveis

Do Nexo Jornal

A opção menos votada entre os cinco itens apresentados foi fazer “alianças com adversários políticos”. Os entrevistados podiam citar mais de um comportamento que julgam intolerável, por isso a soma dos percentuais supera 100%.

Segundo o IPC (Índice de Percepção de Corrupção), o Brasil ocupava em 2019 a 106ª posição no ranking de percepção de corrupção, empatado com Egito, Albânia, Argélia e Costa do Marfim.

O Nexo conversou com duas cientistas políticas sobre a percepção do eleitor a respeito de comportamentos intoleráveis pelos políticos. São elas:

Rosemary Segurado é cientista política, professora e pesquisadora da PUC-SP e coordenadora do curso Mídia, Política e Sociedade da Fespsp
Maria do Socorro Braga é coordenadora da pós-graduação em ciência política e professora da UFSCar e pesquisadora da Fapesp e do CNPq
Por que, na sua avaliação, o eleito aponta a corrupção como o comportamento mais inadmissível de um político?
ROSEMARY SEGURADO Nessa última década, talvez mais especificamente a partir de 2014, com o início da Operação Lava Jato, uma imagem foi se criando no país, disseminada e reforçada pelos grandes meios de comunicação, de que o maior problema do Brasil é a corrupção.

Você vai em um lugar que está cheio de corruptos e pergunta: “quem aqui é a favor da corrupção?”. Ninguém vai levantar a mão. Corrupção é aquela bandeira em que cabe qualquer um e que não qualifica o debate político. Não que a corrupção não seja um problema, claro que ela é. Se formos remeter a Maquiavel, ele já escrevia sobre isso no século 16.

A corrupção é parte da política desde que o mundo é mundo. Mas com a narrativa que foi construída (estou falando sobre a Lava Jato e não só, mas pela expressividade que ela teve e pela maneira com que ela era difundida nos meios de comunicação), a corrupção acabou se tornando nosso maior problema.

Aqui temos uma questão: ao atacar a corrupção, a gente não resolve todos os problemas. E, curiosamente, foi com esse discurso, com essa narrativa, que o atual presidente foi eleito. Não curiosamente, nós vemos que ele acabou inclusive com várias instâncias de combate à corrupção e aquele que era o grande defensor da luta anticorrupção, Sergio Moro, deixou de fazer parte desse governo [o ex-juiz da Lava Jato deixou o governo após 16 meses no Ministério da Justiça].

O descumprimento de promessas está em segundo nos votos [da pesquisa Ibope] porque em campanhas eleitorais se promete qualquer coisa. Percebo que o eleitorado está muito cansado disso. É bem interessante que as promessas tenham ficado como a segunda [mais escolhida na pesquisa] e que de fato são elas que afetam diretamente a vida das pessoas. Quando você promete mais postos de saúde, mais transporte urbano, e não cumpre, é a vida cotidiana dessas pessoas que está sendo altamente impactada e prejudicada.

A questão do superfaturamento de obras: veja bem como é interessante que o superfaturamento das obras não apareça junto com a corrupção, sendo que ele é, obviamente, uma parte fundamental das questões relacionadas à corrupção.

MARIA DO SOCORRO BRAGA Nós temos uma conjuntura que foi muito impactada justamente pelas várias denúncias da classe política, como a própria Operação Lava Jato. Penso que tudo o que vem acontecendo desde 2014 para cá e todo impacto da Lava Jato ainda está muito no imaginário da população. Para mim, parte da explicação tem a ver com esse clima todo.

Também porque as pessoas têm cada vez mais consciência de que a corrupção desvia verbas de várias áreas importantes e essa relação é bastante trabalhada especialmente em campanhas. Eu me lembro das manifestações de 2013 e, embora elas tenham ocorrido por diversas razões, o que estava ali era a corrupção, eram demandas por serviços de qualidade, rede pública de qualidade, educação, saúde. Justamente nesse período que coincide com a Lava Jato. Tivemos de lá para cá várias manifestações populares contrárias ao impacto da corrupção. As pessoas estão fazendo muito essa associação. Então não é à toa.

Sobre o descumprimento de promessas, a avaliação é um pouco em cima do gestor, se ele está cumprindo ou não. Às vezes as pessoas têm menos conhecimento de qual é o programa de fato e há a baixa informação da população exatamente sobre o que um prefeito vai fazer. A mídia acaba pautando muito desses programas, muito do que está sendo feito ou não.

Provavelmente, se você olhar por dentro dessa pesquisa, estratificando por segmento, a gente vai encontrar fatias bastante diferentes entre esses segmentos, seja educacional, por renda, porque realmente o conhecimento é menor. Há menos informação em relação a isso e quem tem acesso já é um público mais crítico mesmo.

Nepotismo [empregar parentes] é um comportamento da classe política já muito integrado com a nossa cultura, infelizmente. As pessoas já tem tanto conhecimento sobre esses fatos, mas isso lembra a elas daquele clichê: “rouba, mas faz”. Isso entra um pouco nessa cultura popular, num momento em que há poucas punições — isso quando há punição. As pessoas acabam incluindo um delito desses como se fosse de fato um marcador da democracia brasileira.

A questão de fazer alianças com adversários: faz parte de práticas que já são corriqueiras. Então já entrou no imaginário das pessoas, pelo menos a maior parte delas, de que essa é uma prática que está aí e que faz parte da política.

A preocupação do eleitor condiz, na sua opinião, com os principais problemas reais da política nacional?
ROSEMARY SEGURADO De certa forma, sim, mas também acho que é um eleitor que não se sente contemplado pelo agendamento dos temas da política nacional. Eles entendem, identificam os problemas, mas não sabem onde encaixar isso dentro da agenda geral de debates. Por isso me chama muita atenção a corrupção estar separada de superfaturamento e não haver essa vinculação entre as duas questões.

A desigualdade é o maior problema do Brasil [a postura de políticos em relação ao tema não apareceu na pesquisa do Ibope]. E o tema aparece pouco porque essa desigualdade foi historicamente naturalizada — ela tem cor, tem geolocalização. Claro que no imaginário, na percepção dos eleitores, fica esse problema da corrupção que acaba obliterando, ofuscando todos os nossos outros problemas reais.

Não é verdade que não temos um país racista: o acesso a inúmeras questões da nossa sociedade é vetado aos negros. A violência é um dos outros aspectos importantes da desigualdade.

Uma outra questão da desigualdade é a desigualdade da inserção das mulheres na representação política, no mercado de trabalho. Já somos maioria na sociedade, somos maioria no número de eleitores, somos maioria em tudo, mas somos sub-representadas.

Para fechar, é importante que os eleitores considerem a postura de corrupção inaceitável por parte dos políticos, é importante que considerem o descumprimento das promessas como inaceitável, mas acho que essas escolhas estão permeadas justamente pela forma como os debates são pautados, principalmente pelos grandes meios de comunicação e pelos grandes agentes políticos da nossa sociedade.

MARIA DO SOCORRO BRAGA É possível que sim [que a preocupação do eleitor condiz com os principais problemas reais da política nacional]. Essa pergunta me leva a pensar que a convicção nesse pleito municipal de 2020, esse problema [da corrupção] passou ao largo [do debate]. Quando você vê em outras pesquisas, a primeira coisa a ser abordada é a saúde, por culpa da pandemia do novo coronavírus, a segunda, se não me engano, tem a ver com a economia, com o desemprego. A questão da segurança vem em terceiro, e a corrupção está entre o quinto e o sexto lugar entre os assuntos mais abordados.

Nessa pesquisa de agora ela realmente aparece com muita força, então é porque tem uma relação ali: como é na capital paulista, que tem os principais partidos do país, esses grandes partidos no nível da cidade passaram por muitas denúncias. As principais lideranças estão no olho do furacão.

Isso tem sim a ver com uma questão nacional. Bolsonaro diz que seu governo não tem corrupção, mas os filhos volta e meia são denunciados. Então é um clima realmente muito tenso. A população tem acompanhado tudo isso. Por outro lado, as instituições de controle estão colocando freio, hoje estão divididas. Esse imbróglio todo mal resolvido também afeta o imaginário, a percepção do eleitor de como esse é um problema que está nas três esferas de poder.

A corrupção é um fenômeno, assim como o nepotismo, mas ela tem eventos mais recentes que acabam levando o eleitor a lembrar dela. As disputas eleitorais das grandes capitais continuam falando sobre a corrupção, mas ela não vai ser resolvida tão cedo, ela é endêmica.

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