O JUGO DA ESCRAVIDÃO MACHISTA

Não foi à toa que o autor sagrado colocou a mulher como vítima dos olhos vigilantes dos mestres da Lei e não um homem (Lumo Project/Free Bible Images)

Por Solange Maria do Carmo*

A cena é comovente e sua crueldade mostra como as partes frágeis estão sempre subjugadas ao domínio dos fortes. A mulher vem trazida por um bando de machos moralistas, sem nenhum direito e nenhuma defesa. Está muda, e muda permanece. Quanto aos que a condenam, não economizam palavras: a mulher foi pega em adultério e deve morrer segundo a Lei de Moisés (v. 5). Já está dado o veredito. Levam-na a Jesus unicamente para que ele avalize a decisão já tomada. Como um judeu circuncidado e sujeito à Lei, não lhe cabia outra decisão a não ser concordar com a sentença. Estavam colocando Jesus à prova, pois a centralidade que a misericórdia ocupava em sua pregação não deixava dúvidas que a regulamentação da Torá carecia de superação (v. 6).

Tranquilo e sem sobressaltos, Jesus começa a escrever no chão. O texto não diz se apenas rabiscava distraidamente como quem diz “não tô nem aí para o legalismo de vocês” ou se ele transcrevia a frase do Levítico, que ordenava apedrejar o homem em primeiro lugar. A imaginação pode levar o leitor a pensar também que Jesus, como bom conhecedor da alma humana, escrevia no chão os pecados masculinos, que podiam cobrir um leque espantoso, indo do desejo de adulterar, condenado em Mt 5, 27-28, até a carta de divórcio entregue à esposa (Mc 10,2-12), a quem não sobrava outra opção a não ser prostituir-se para sobreviver depois de ser abandonada por aquele que deveria ser seu protetor.

Certo é que o relato mostra que, apesar da insistência dos homens da Lei, Jesus não se deixa intimidar e lança um desafio: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (v. 7). E continuou a escrever no chão, certamente na poeira densa da Palestina, na qual o sopro do vento dispersa as palavras, assim como a misericórdia de Deus desfaz o rigorismo estéril da Torá. Para espanto da mulher, mas não de Jesus, cada um tomou seu rumo. Um a um, foram saindo de fininho, a começar pelos mais velhos (v. 9). Afinal, é fácil colocar a vida do outro, especialmente da mulher, sob os rigores da Lei, mas não é igualmente fácil deixar sua própria vida ser vistoriada pelos mandamentos religiosos.

Quando os algozes se sentiram ameaçados, sobraram unicamente Jesus e a mulher vitimada (v. 9), até aquele momento jamais interpelada, jamais ouvida. Afinal, o que valia seu testemunho contra a de tantos varões confiáveis da sociedade judaica?  Ela estava de pé, bem no meio, certamente não um meio geográfico pois já não havia mais em torno dela uma roda de abutres querendo devorá-la. Esse meio diz respeito ao lugar que o fragilizado deve ocupar, conforme ensina Marcos no relato do homem da mão seca: “vem para o meio!” (Mc 3,3). A mulher é o centro da atenção de Jesus e o alvo do seu amor.

Como sinal de seu cuidado, a primeira coisa que Jesus fez foi dar palavra à vítima: “Mulher, onde estão todos eles? Ninguém te condenou?” (v. 10). Aquela que havia sido cerceada, ameaçada e quase linchada recobra sua dignidade na palavra que pode proferir. Um homem diferente daquela corja de abutres estava disposto a escutar o que ela tinha para dizer; estava pronto para ouvir sua constatação de que aquele julgamento não passava de uma farsa arquitetada pelos donos do poder, os varões. Ela apenas diz: “Ninguém, Senhor!”.

Notemos que ela não chama Jesus pelo nome, mas pelo título de Senhor, um título pós-pascal, próprio da comunidade de fé das origens. No senhorio de Jesus, não cabem julgamentos precipitados, vereditos sem misericórdia, lugares de privilégio ou ameaça à liberdade. Quando ele reina na comunidade, a gratuidade e a fraternidade são a regra máxima e não o legalismo e a frieza de leis estéreis. Sem ninguém para condenar a mulher, não seria Jesus ?” o filho do Deus-Amor ?” quem a condenaria. Restava apenas dizer uma palavra de incentivo: “Vai e de agora em diante não peques mais” (v. 11), que no fundo significa “seja dona de sua própria história e não deixe mais esses poderosos subalternizarem você”.

A atitude de Jesus aparece, em primeiro lugar, como uma atitude de amor em relação à mulher oprimida, mas não poderia passar despercebido que seu comportamento é também libertador para os homens. Se a mulher se encontrava acuada como um bicho manso por um bando de predadores selvagens, também eles estavam oprimidos e dominados pela Lei e pelos costumes sociais que não lhes permitiam ver a situação por outro ângulo. Na cena, só Jesus é livre para decidir e fazer suas escolhas. Nem a mulher nem os mestres da Lei podiam se mover além do espaço previsto pelas estruturas religiosas patriarcais vigentes no judaísmo. O patriarcalismo escravizava a ambos. Certamente não na mesma medida: a eles, um falso poder de decisão; a ela, a opressão. Mas, apesar da aparente soberania dos machos religiosos, a verdade é que o patriarcalismo também lhes maltratava. Quem conhece um pouco a bíblia vai se lembrar que, segundo o evangelho de Mateus (1,18-19), José ?” a quem Maria estava prometida em casamento ?”, quando soube da gravidez da jovem menina, rompeu com a Lei que mandava entregar sua mulher grávida para punição pública e resolveu repudiá-la em segredo. O evangelista não hesita em dizer que ele o fez porque era justo, pois a justiça nada tem a ver com o legalismo, mas sim com o exercício da proteção do mais fraco. José rompeu com o padrão masculino de sua época e priorizou o cuidado feminino em vez de se importar com sua honra ferida, arriscando-se a também ser punido.

Não foi por acaso que a comunidade cristã escreveu esse texto. Mesmo sabendo que o relato é uma criação posterior (como todos os outros relatos da Escritura), cai bem com as atitudes de Jesus a misericórdia que salta dessas linhas. Aquele que aceitou mulheres no seu discipulado (Lc 8,1-3), aprendeu a superar seus limites com uma mulher cananeia (Mc 7,24-30), acolheu a dor de uma viúva estrangeira cujo filho havia falecido (Lc 7,11-17), curou uma mulher com hemorragia considerada impura (Mc 5,25-34), ressuscitou a menina filha de Jairo (Mc 5,21-24. 35-43) e manifestou-se glorioso às mulheres depois de sua morte (Mt 1-10; Jo 20,11-18), jamais compactuaria com o sistema patriarcal opressor das fragilidades femininas. Ao escancarar aos varões as teias de suas atitudes “machistas”, Jesus não os coloca apenas no lugar que deveriam estar, ou seja, ao lado das mulheres, defendendo-as e amparando-as das investidas do machismo estrutural de uma sociedade patriarcal. Ele também os liberta das amarras que sofrem eles próprios, quando não se dão conta das violências a que as mulheres estão submetidas.

Por isso, hoje, ao celebrar o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, não seria impróprio recordar Jesus de Nazaré e interpelar todos os homens de fé a se libertarem do machismo para viverem a autêntica fé cristã que declara em Gl 3,28: “já não há mais judeu ou gentio, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”. Resta ao cristão assumir a luta contra o machismo conforme ensinam os evangelhos ou a fé cristã se transforma em mera caricatura.

O conhecido texto da mulher adúltera, canonizado em Jo 8,1-11, causa intriga no leitor da Escritura Sagrada. Provavelmente do século II ou III dC, quando as perseguições aos cristãos eram intensas e alguns, por medo da morte, negavam a fé, o relato fala da misericórdia do Deus de Jesus Cristo, bem diferente do legalismo judaico ao qual as comunidades das origens estavam acostumadas.

A perícope já transitou em outros espaços da bíblia: Jo 7,36; Jo 8,52; Lc 14,53; Lc 21,25 e Lc 21,38. Certo é que, tardio ou não, ele foi reconhecido como inspirado e a Igreja não quis perder essa preciosidade. Provavelmente, o pano de fundo são as disputas entre os grupos cristãos chamados de rigoristas e os laxistas; os primeiros querendo expulsar os apóstatas das comunidades cristãs, pois renegaram a fé por medo da morte, e os outros querendo acolher e dar nova chance aos vacilantes.

É curioso que a comunidade cristã tenha escolhido a imagem de uma mulher para falar do alvo da misericórdia divina, muito superior a qualquer justiça humana. Símbolo da fragilidade e da desproteção, a mulher não tinha muitos direitos sociais no tempo de Jesus. Sua vida se resumia ao lar, ao cuidado com a casa, os filhos e o marido. Numa sociedade patriarcal, totalmente voltada para a figura masculina, a mulher era a parte frágil da relação. O judaísmo, pensado para o varão, reforçava esse androcentrismo e relegava a mulher aos cuidados de um homem. Quando solteira, estava sob o olhar paterno. Quando casada, era praticamente uma “propriedade do marido”, que devia respeitá-la e cuidar de seu bem-estar. Se viúva, estava sob a tutela dos filhos, especialmente do primogênito. Sem qualquer uma dessas referências, ficava sob a proteção da comunidade de fé, que tinha consciência da predileção de Deus pelos fracos, ditos na tríplice fórmula bíblica “órfãos, viúvas e estrangeiros”.

O episódio da mulher adúltera mostra a vulnerabilidade do sexo feminino, numa sociedade patriarcal e sexista. Supostamente surpreendida em adultério, a mulher é levada a Jesus. Quem a conduz até ele são os escribas e os fariseus, especialistas na Torá e uma espécie de teólogos leigos com muita ascendência sobre a população. Ensinavam nas sinagogas todos os sábados, sabiam de cor e salteadas as prescrições judaicas, com seus mandamentos positivos e seus interditos. Conheciam bem a legislação e sabiam exatamente o que fazer com uma pessoa adúltera. A norma era implacável: o apedrejamento.

Ignorando parte da legislação, os fariseus e escribas levam-na até Jesus, testemunhando que fora pega em adultério. Certamente ninguém adultera sozinho, mas o seu parceiro, por ser um privilegiado da sociedade e da religião, nem sequer é mencionado. A Lei prescrevia o apedrejamento do homem em primeiro lugar e em seguida o da mulher (Lv 20,10). Como varão, sujeito à Torá, deveria ser o primeiro a cumprir os preceitos. Mas o lugar de privilégio naturaliza alguns costumes, amenizando os castigos de uns e pesando a mão sobre outros. Não foi à toa que o autor sagrado colocou a mulher como vítima dos olhos vigilantes dos mestres da Lei e não um homem.

*Solange Maria do Carmo, graduada, mestre e doutora em Teologia pela FAJE. professora do ISTA e da PUC Minas.