COM O AUMENTO DE CASOS ENTRE JOVENS, FESTAS DO FIM DE ANO PODE PROVOCAR EXPLOSÃO DE COVID-19

Foto: Reprodução Google Imagens

Por Reuters Brasil

Quando uma jovem de Curitiba foi a um recente churrasco de família, ela não poderia imaginar que contaminaria 18 familiares com a Covid-19, dos quais três acabariam por morrer devido à doença.

A origem da infecção foi uma festa marcada pela internet, ignorando as recomendações de distanciamento social, como várias espalhadas pelo país que têm contribuído para uma aceleração recente dos casos de coronavírus após um período de queda.

Mesmo que na maioria dos casos jovens não desenvolvam quadros graves de Covid-19, muitos têm levado o vírus para lares onde moram idosos e pessoas com comorbidades, provocando uma alta na ocupação dos leitos hospitalares, segundo especialistas.

A aproximação com as celebrações do final de ano tem aumentando as preocupações com um avanço ainda maior da doença.

“Essa chegada do final do ano e maior movimentação das pessoas vai acabar disseminando ainda mais o vírus e provocando surtos e um aumento da doença nos hospitais”, disse o pesquisador Diogo Xavier, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“A preocupação é muito grande. O poder público precisa agir. A gente ainda tem a oportunidade de tomar as medidas adequadas e evitar esse surto, do contrário a gente vai ter um colapso do sistema de saúde”, acrescentou, lembrando que várias cidades desmontaram os hospitais de campanha usados para receber pacientes de Covid-19 na primeira etapa da pandemia.

Com quase 6,5 milhões de infecções e mais de 175 mil mortes, o Brasil é o terceiro país do mundo com mais casos confirmados de Covid-19 e o segundo com mais mortes em decorrência da doença.

Depois de atingir um pico no final de julho, com quase 70.000 casos novos e mais de 1.500 óbitos em um único dia, a Covid-19 parecia estar sendo controlada ao cair para o patamar de 20 mil casos e 425 mortes por dia no final de outubro.

Na semana passada, no entanto, o número de casos novos por dia chegou a 34 mil e as mortes ficaram em 510 por dia na média, destacando o repique do surto.

Em São Paulo, que concentra a maioria dos casos no país, o percentual de jovens de 20 a 29 anos no total de casos de Covid-19 cresceu 25,7% em novembro na comparação com junho, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde levantados pela GloboNews. Hospitais da cidade também apontaram uma redução na média de idade das pessoas internadas devido à doença.

Apesar disso, nas maiores cidades do país as ruas estão cada vez mais próximas da normalidade, com restaurantes e lojas cheios de pessoas muitas vezes sem máscara.

“Você pega o que aconteceu nas ruas nas últimas semanas… pessoas andando sem máscara, aglomerações em bares, festas, praias. Pessoas se aglomeram, sem circulação de ar. Você vê em bares, em festas, milhares de pessoas pulando, cantando, quando se canta dispersa muitos perdigotos. Milhares de pessoas juntas grudadas umas nas outras pulando, bebendo e cantando, não tem ar livre suficiente para resolver”, disse o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo dados do Google, o transporte público e os locais de trabalho no país estão com frequência de pessoas inclusive maior do que antes das quarentenas impostas devido à pandemia, enquanto a mobilidade em lugares como restaurantes, cafés e shopping centers está bem maior do que no início da crise.

FESTAS E PRAIAS

O caso da jovem de Curitiba foi revelado pela secretária de Saúde da capital paranaense, Márcia Huçulak, ao fazer um apelo para que as pessoas evitem aglomerações até mesmo dentro do círculo familiar, uma vez que mesmo idosos que permanecem isolados têm sido infectados dentro de casa.

“A gente acompanha casos muito tristes, como o de uma jovem, que foi em uma dessas festas e depois, no domingo, foi ao churrasco da família. Dessa moça, 18 contraíram o coronavírus e tivemos três óbitos”, disse a secretária.

Muitos desses jovens contraíram o vírus ao aproveitar as flexibilizações de quarentenas para retomar atividades após muitos meses de confinamento, que provocaram custos emocionais.

Pesquisa da Fiocruz em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apontou que os jovens adultos são aqueles que mais sentiram impactos em seu estado de ânimo devido ao isolamento social, com 54% se dizendo deprimidos e 70% ansiosos ou nervosos frequentemente.

“A gente sente a população muito cansada de manter os hábitos de higiene, do uso da máscara, de ficar em isolamento”, disse a pesquisadora da Fiocruz Celia Landmann Szwarcwald, coordenadora do trabalho. “Quando deram o ok, a população se sentiu liberada, se deram o ok eu posso ir, mas esqueceram dos procedimento que poderiam ter continuidade, como, por exemplo, o uso de máscara.”

Com o aumento de casos e a alta na ocupação de leitos de UTI, autoridades de alguns Estados voltaram a impor medidas para reduzir a circulação de pessoas, incluindo toques de recolher noturnos anunciados esta semana no Paraná e em Santa Catarina e um recuo de fase no plano de reabertura em São Paulo.

No Rio de Janeiro, o aumento de casos “já está provocando grande estresse no sistema de assistência à saúde”, de acordo com nota técnica de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo o documento, é “urgente que as autoridades governamentais implementem ações para o enfrentamento desse novo aumento de casos de Covid-19”, incluindo o fechamento das praias, proibição de eventos presenciais e uma possível decretação de lockdown.

Nesta sexta-feira, a prefeitura da capital anunciou o fechamento das escolas municipais para reduzir o risco de contágio, assim como autorização para shoppings e centros comerciais funcionarem 24 horas por dia para reduzir as aglomerações por causa do Natal.

Apesar da situação complicada, diversas celebrações de réveillon na cidade estão com ingressos à venda pela internet, com entrada de até 1.870 reais para uma festa no famoso morro do Pão de Açúcar.

“Seja com distanciamento, como o protocolo pede agora, ou quem sabe com mais flexibilidade, se permitido até o fim do ano… O que sabemos, com certeza, é que teremos um momento para vivermos juntos a passagem para o próximo ano!”, diz o convite.

Reportagem adicional de Lisandra Paraguassu, em Brasília

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