GOVERNO BRASILEIRO A TODA VELOCIDADE EM BUSCA DA VACINA

Reprodução Google Imagens

 (Reuters) – Da Arábia Saudita à Costa Rica, doses de vacinas contra Covid-19 estão sendo aplicadas mundo afora no combate à pandemia, enquanto no Brasil disputas políticas e falta de planejamento têm contribuído para atrasar o início de uma campanha de imunização contra uma doença que já deixou mais de 190 mil mortos no país.

Apesar de o Ministério da Saúde ter antecipado de março para o fim de janeiro o início previsto da vacinação no país –após ser pressionado pelo anúncio do governo de São Paulo de que começaria a imunização no Estado em 25 de janeiro–, o Brasil não tem, até o momento, sequer pedido de nenhum laboratório para uso emergencial de vacina junto à Anvisa.

Enquanto segue sem vacina, o Brasil caminha para superar a trágica marca de 200 mil mortes por Covid-19. Até o momento, são mais de 191 mil vítimas fatais da doença, que tem mais de 7,5 milhões de casos confirmados no país. Apenas os EUA registraram mais mortes por Covid-19.

“A gente lamenta muito que não tenhamos feito acordo em um tempo hábil de modo que nós pudéssemos estar mais competitivos em um mercado que é muito duro, porque os países ricos vão na frente”, disse à Reuters a pneumonologista e pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo, uma das principais autoridades do país na área.

“O Brasil perdeu o timing adequado desde o final do primeiro semestre, quando todas as empresas que começaram a produzir vacinas, e foram muitas no mundo, começaram a divulgar seus primeiros estudos de fases 1 e 2. Nesse momento, vários países começaram a fazer acordos, e o Brasil naquele momento não fez.”

Enquanto países como Chile e México já começaram a imunizar a população com a vacina da Pfizer, assim como dezenas de nações pelo mundo, no Brasil um jogo de empurra entre o governo federal e a farmacêutica têm atrasado o processo para iniciar a vacinação.

O presidente Jair Bolsonaro tem atacado a empresa por exigir isenção de qualquer responsabilidade por eventuais efeitos colaterais da vacina e por se recusar a ser julgada nos tribunais do país — de acordo com o governo.

Bolsonaro, que já afirmou que não tomará vacina contra Covid-19, chegou a dizer que se alguém “virar um jacaré” por tomar o imunizante, não poderia tomar qualquer medida contra a empresa. O presidente também disse que não se sente pressionado pelo início da vacinação em outros países, e que são os laboratórios que precisam correr atrás de registros de vacinas para vender ao Brasil.

“O Brasil tem 210 milhões de habitantes. Então é um mercado consumidor enorme de qualquer coisa. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que então eles não apresentam a documentação na Anvisa?”, disse Bolsonaro nesta segunda-feira.

Diante do impasse, segue sem conclusão a negociação para compra de 70 milhões de doses da vacina da Pfizer, suficientes para vacinar 35 milhões de pessoas. O contrato prevê a entrega de 8,5 milhões de doses no primeiro semestre, sendo cerca de 500 mil em janeiro, mas esse cronograma depende da assinatura do acordo.

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A Pfizer ainda não pediu o registro emergencial à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) porque, segundo a empresa, o contrato para fornecimento do imunizante com o governo brasileiro ainda não foi fechado.

“A submissão de uso emergencial também pede detalhes do quantitativo de doses e cronograma que será utilizado no país, pontos que só poderão ser definidos na celebração do contrato definitivo”, disse a empresa em nota, acrescentando que continua em negociações com o governo.

Além da demora na negociação, a distribuição da vacina da Pfizer pode ser um problema, uma vez que sua tecnologia inovadora de RNA mensageiro demanda armazenamento em temperatura de -70 graus Celsius.

“O Brasil perdeu 6 meses de organização desse processo de logística. O Brasil vai ter que montar agora. Hoje não existe nenhum local no Brasil com capacidade de armazenamento com grande quantidade de doses de vacina nessa temperatura”, disse a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde por 10 anos até 2019.

O Ministério da Saúde não respondeu a um questionamento sobre os preparativos logísticos para o início da campanha de vacinação.

O plano nacional de operacionalização da vacinação, apresentado pelo ministério este mês após cobrança do Supremo Tribunal Federal(STF), prevê que serão necessárias 104,2 milhões de doses apenas para vacinar os grupos prioritários, que somam 49,6 milhões de pessoas.

Esse contingente seria vacinado ao longo do primeiro semestre. Segundo o documento, o ministério estima que será possível concluir a vacinação da população em geral no período de 12 meses após a fase inicial, o que depende, no entanto, da disponibilidade de imunizantes.

Fonte e Matéria completa: REUTERS