A NAMORADA DE UM AMIGO MEU

A mulher tinha o tipo de beleza capaz de fechar o comércio (Unsplash/Vladimir Yelizarov)

Por Afonso Barroso*

Tive um amigo, que Deus resolveu levar precocemente, no alvorecer dos 70 anos, cuja mania era contar suas aventuras amorosas. Como era um rapaz latino-americano com algum dinheiro no bolso e de boa aparência, eu diria bonito mesmo, ele teve muitos amores. Acho que ganhava até do Martinho da Vila no número e variedade de mulheres que colecionava. Sempre que a gente se encontrava nos bares da vida, lá vinha ele com um novo caso, uma nova conquista, que a gente ouvia com mal velada inveja.

Como, além de bonito, era muito criativo, esse meu bom amigo sabia como fisgar uma garota, mesmo que ela parecesse inexpugnável. E fazia questão de contar detalhes da abordagem, do assédio e, finalmente, da captura.

Certo dia um de nós o viu entrar no Cine Metrópole tendo a tiracolo uma mulata de fechar o comércio. Mulheraço mesmo, dessas que passam com a graça, o jeito e as formas capazes de levantar ânimos e despertar paixões. Ficamos ansiosos para saber como ele havia conquistado aquela mulata, que de acordo com o nosso amigo que os vira na entrada do cinema, parecia ter saído de uma página da Playboy.

E chegou o dia do relato histórico. Contou ele que passava pela Rua da Bahia, onde havia num edifício um salão enorme, aberto à rua e ao público, decorado com algumas belas garotas selecionadas pela Ademg para vender cadeiras cativas do Mineirão. O estádio tinha sido inaugurado havia pouco tempo e oferecia aos torcedores a oportunidade da aquisição de assentos permanentes com localização privilegiada no “gigante da Pampulha”. As vendedoras, todas lindíssimas e de minissaia, ocupavam mesas dispostas uma ao lado da outra no amplo saguão. Tinham o trabalho apenas de exibir o contrato de compra e colher as informações do interessado. Uma daquelas moças era uma mulata, a tal. Passemos a palavra ao nosso amigo:

— Quando eu vi aquela garota, pus na cabeça que era preciso conquistá-la a qualquer custo. E um dia decidi. Esperei que ela estivesse sozinha na mesa de vendas, entrei, sentei-me à frente dela e fiquei ali, olhando para ela. Não disse nada, apenas esperei. Senti que ela pareceu um tanto encabulada com minha mudez e perguntou se eu queria adquirir uma cadeira cativa. Só precisava preencher o formulário.

Nosso amigo faz uma pausa, toma um bom gole de cerveja e continua:

— Aí eu disse a ela que tinha entrado ali não para comprar cadeira cativa, mas apenas para ver de perto se ela era realmente real ou imaginação minha. Queria saber se existia mesmo, com aquela beleza toda. Deve ter muita gente que vem aqui só pra te ver, eu disse, e em seguida me despedi com a reverência que se deve fazer diante de uma rainha.

Foi esse o primeiro capítulo da conquista. O segundo foi escrito no dia seguinte, quando o nosso ardiloso amigo chegou de novo ao estande de vendas da Ademg, dessa vez levando para a mulata uma orquídea caprichosamente plantada numa redoma de acrílico. Como a sorte favorece os fortes, orquídea era a flor preferida da diaba da garota.

— Entreguei a ela a flor, dizendo que achava que combinava com ela, e disse que esperava vê-la mais vezes. Ela disse que ia esperar e que podia voltar, sim.

Mais um gole de cerveja, mais um minuto de suspense, e ele continuou:

— No dia seguinte eu levei-a até a casa dela. Uma casa simples, na Vila São Vicente, ali pelos lados do Padre Eustáquio. E nos outros dias… bem, nos dias seguintes…

Nova pausa, um sorrisinho maroto e a conclusão:

— Quanto ao resto, vou pedir à grande escritora Brigitte Bijou pra contar. Ela sabe falar sobre essas coisas melhor do que eu. Não vão me dizer que nunca leram algum romance dela.

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*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor