FORD DESISTIU DO BRASIL MUITO ANTES DE A COVID 19 APARECER

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Análise: Ford confirmou opção pela Argentina para produzir na América do Sul

Do Valor/Via Era da Idiocracia

No início de dezembro de 2020, o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters anunciou ao presidente da Argentina, Alberto Fernández, um novo programa de investimentos de US$ 580 milhões para desenvolver a próxima geração da picape Ranger, produzida na fábrica de General Pacheco, na grande Buenos Aires. Ao anunciar um plano de investimentos para o país vizinho e nada para o Brasil, o executivo irlandês deixou claro que o Brasil já não fazia parte da estratégia industrial da companhia.


No mesmo dia, numa entrevista, por vídeo, a jornalistas da região, Watters queixou-se da desvalorização do real e do peso argentino, que levavam a uma “situação sem precedentes”, agravada pela pandemia. Naquele dia, ele deixou, ainda, claro que a partir de então, a estratégia da companhia americana seria voltada à preservação da saúde financeira. A Argentina tem uma peculiaridade em relação ao Brasil. Sua economia é altamente dolarizada. Para a indústria, isso facilita o repasse dos custos com desvalorização cambial.

Mas foi muito antes de a covid-19 aparecer que a Ford desistiu do Brasil. Os recursos para atualizar a linha de produtos esgotaram-se em 2015. Naquele ano, encerrou-se o último programa de investimentos da montadora na região, de R$ 4 bilhões, iniciado cinco anos antes.


Sem investimento, nenhuma montadora consegue manter uma operação industrial em qualquer parte do mundo.


Há muito tempo a companhia americana dava sinais de esvaziamento das operações industriais no país. Começou há cinco anos, com o fim dos programas de investimentos. E por mais que os jornalistas repetissem a pergunta sobre quando viria um novo programa, Watters e outros dirigentes da montadora esquivavam-se de dar uma resposta.
O segundo passo rumo ao fim das operações no país veio no início de 2019, quando do anúncio do fechamento da legendária fábrica em São Bernardo do Campos (SP), onde eram produzidos caminhões e carros. Os novos modelos que chegavam para o consumidor brasileiro começaram a vir de fábricas de outros países.


A atividade industrial da Ford no Brasil passou a concentrar-se em Camaçari (BA), que parecia ter ganho fôlego graças à prorrogação do programa de incentivos fiscais nas regiões Norte e Nordeste, anunciada nos últimos dias do governo de Michel Temer. A fábrica de motores em Taubaté, no interior de São Paulo, perdeu o sentido à medida que não se desenvolviam novos modelos de carros.


Os dirigentes da Ford foram os que mais fizeram lobby para que Temer aceitasse prorrogar os incentivos no Nordeste. Foi essa empresa, aliás, que inaugurou a descentralização industrial do setor automotivo, ao construir uma fábrica na Bahia. Mas os incentivos não foram suficientes para segurar a empresa, que hoje anunciou o fim de toda a operação de manufatura no país.