PARA PROFISSIONAIS, EMPREGO DO FUTURO VAI EXALTAR TRAÇOS HUMANOS

Imagem: Reprodução de O Globo

Por Eduardo Sodré

Representantes de diferentes áreas resgatam o passado, analisam o presente e vislumbram suas ocupações daqui a 30 anos

Convidados a fazer uma viagem pelo tempo, engenheiros, médicos, advogados, economistas e professores falaram sobre como eram suas profissões no início dos anos 1990, como estão hoje e o que se espera do futuro.

“O engenheiro deixará de ser essencialmente cartesiano para ter mais foco nas interações humanas, sendo menos lógico e mais biológico”, diz Rogério Caldas, que entrou no mercado em um momento de crise. “O início dos anos 1990 foi marcado por um longo período de recessão, com queda na atividade industrial.”

Mauro Zilbovicius, professor da USP e membro do conselho curador da Fundação Vanzolini, afirma que o processo de desindustrialização do país prejudicou a engenharia e fez profissionais migrarem para o setor financeiro. Hoje ele prepara seus alunos para uma carreira longeva.

“Digo que meus alunos irão viver 100 anos tranquilamente e vão trabalhar por, pelo menos, 70 anos”, diz Zilbovicius. “A escola tem que ensinar a aprender.” O professor afirma ainda que o profissional do futuro deverá ter noções de sociologia e entender como as pessoas se organizam.

Enquanto a engenharia ganha elementos das ciências humanas, a economia vai perdendo um pouco da matemática que a engoliu no século 20.

Esse processo ocorre em paralelo à automatização —que, na visão do economista Carlos Honorato, professor da FIA (Fundação Instituto de Administração), não é a resposta para tudo. “O que vai acontecer com bancos e financeiras é o desenvolvimento do lado humano”, diz Honorato. Ele usa como exemplo empresas de telefonia e TV que não conseguem resolver todos os problemas por meio da inteligência artificial.

Para Taynaah Reis, da Moeda Semente, o desafio é se adequar às demandas socioambientais. “Os investidores estão pedindo o cálculo de responsabilidade tanto social quanto ambiental. Não dá mais para dar só um relatório no PowerPoint, dizer que plantaram tantas árvores.”

Um dos exemplos de como a tecnologia pode humanizar relações está na medicina.


“A evolução permitirá diagnósticos precoces de câncer sem precisar de exames tão invasivos”, diz Rafael Jácomo, diretor técnico do Grupo Sabin. “Não vejo as pessoas atendidas por uma tela, por um robô. Entendo que o contato humano ainda será importante, usando a inteligência artificial como uma ferramenta que possibilite a redução de erros.”

Na opinião do advogado Gabriel Quintanilha, a especialização é o caminho a ser seguido na área do direito. Ele vê que questões que envolvem criptomoedas e contratos eletrônicos ganharão destaque.
Gabriela Rhormens, sócia do escritório Santos Neto, diz que o profissional precisa assimilar as novas tecnologias. “A figura do advogado enfadonho, que fala difícil e é portador de um conhecimento inacessível, ficou para trás.”

Na área educacional, o padrão das escolas de hoje não difere muito do modelo praticado há cem anos. Essa é a percepção de Fernanda Ralston Semler, conselheira da Lumiar Educação. Ela explica que as férias ainda seguem a lógica das safras: as aulas eram interrompidas no período em que os pais precisavam dos filhos para ajudar na colheita.

Na visão da conselheira, o futuro passa por quebrar o professor em dois, fazendo dele mestre e tutor.
Para Ismael Rocha, doutor em educação e diretor acadêmico do Iteduc (Institute of Technology and Education), o professor será também um mentor, que vai ajudar o aluno a desenvolver seu processo de aprendizagem.

“Hoje ainda treinamos os alunos para que respondam perguntas. No futuro, treinaremos para que façam perguntas.”

COMO PROFISSIONAIS VEEM O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO DE SUAS CARREIRAS

DIREITO

1991A reabertura do país aos produtos importados e, nos anos seguintes, a onda de privatizações, abriram novas oportunidades. O direito tributário ganhou relevância e surgiram profissionais especializados em fusões e aquisições de empresas. Em 1994, a OAB decidiu pela obrigatoriedade da prova para obtenção do registro profissional

2021. Advogados adotam discurso menos técnico para atender ao grande público. Área de concursos segue como opção de muitos estudantes de direito. Ingresso constante de profissionais no mercado gera excesso de mão de obra e achatamento dos salários pagos a recém-formados

2051. Demandas de massa, como problemas ligados à prestação de serviços e negativação indevida de nome, serão automatizadas por meio da inteligência artificial. O advogado se dedicará mais a resolver questões complexas —que envolvam relações familiares ou contratos entre empresas, por exemplo— e terá de lidar ainda mais com tecnologia



ECONOMIA
1991. A profissão passava por um período de crise no Brasil, com profissionais em busca de vagas no sistema bancário, na Bolsa de Valores e na área administrativa. A carreira, que faz parte das ciências humanas, aproximou-se das exatas. Ao mesmo tempo, a relação do ser humano com o meio ambiente sua preservação tornaram-se temas globais

2021. O economista precisa de uma visão mais ampla, com análise constante dos impactos das decisões econômicas na sociedade e no meio ambiente —o cálculo de responsabilidade social entra na conta. O advento das fintechs e a tecnologia proporcionando mudanças como o open banking abrem oportunidades

2051. Com máquinas tabulando dados por meio da inteligência artificial, profissionais da área se dedicarão a soluções cada vez mais personalizadas e regionalizadas. A capacidade de interpretar contextos históricos será necessária e valorizada

EDUCAÇÃO

1991. O modelo escolar seguia padrões estabelecidos décadas atrás. O professor era o detentor do saber, sempre transmitido em salas de aula tradicionais do ensino fundamental ao superior

2021. Os conteúdos são democratizados via internet, mas nem sempre estão corretos. Os professores precisam assumir o papel de tutores e filtrar informações, mas encontram dificuldades para lidar com a tecnologia. Nativos digitais, os estudantes têm mais facilidade em utilizar as novas ferramentas, e esse choque de gerações fica mais evidente com a pandemia e as aulas online

2051. O aluno terá ainda mais protagonismo e responsabilidade em seu processo de aprendizado. Os professores irão acompanhar os estudantes em projetos e terão de atuar como orientadores, atentos às aptidões de seus orientandos e empenhados em manter o interesse pelos temas propostos



ENGENHARIA
1991. A estagnação econômica reduziu o mercado de trabalho para áreas como indústria e construção civil. Os profissionais começam a migrar para o mercado financeiro, setor em que o conhecimento matemático e a capacidade de calcular riscos são bem-vindos. Os salários mais altos rumam para bancos e consultorias estratégicas

2021. Após retomada da profissão no Brasil na primeira década do século, seguida pela crise nos setores automobilístico e da construção, a engenharia volta a ser valorizada tanto em áreas relacionadas à infraestrutura como em atividades ligadas às tecnologias de ponta, como internet das coisas, ciência de dados e inteligência artificial

2051. As atividades “braçais” da engenharia terão sido robotizadas. O perfil tradicional, essencialmente cartesiano, perderá espaço. Os profissionais mais valorizados terão foco nas interações humanas e com o meio ambiente



MEDICINA

1991.A evolução da informática levou a melhorias significativas nos exames por imagem. A telemedicina começou a ser posta em prática, ainda que timidamente. Com o aumento da longevidade, a geriatria ganhou força

2021.Mais preocupação com a saúde, novas drogas e aumento da expectativa de vida dão destaque aos cuidados preventivos. Evolução de equipamentos de diagnóstico exige treinamento constante dos médicos, que têm o auxílio de robôs na área cirúrgica. Com a pandemia, telemedicina se consolida

2051.Será possível antever problemas de saúde por meio de análise genética. Monitores contínuos de glicose e de colesterol vão ajudar no diagnóstico precoce e no acompanhamento de doenças

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