400 MIL PERDAS NO BRASIL: POR QUE PARECE QUE NORMALIZAMOS A MORTE

ENTERRO DE VÍTIMA DE COVID-19 EM CEMITÉRIO DE SÃO PAULO

Do Nexo Jornal

Psicóloga analisa o impacto que a necessidade diária de sobrevivência e a tragédia como pauta constante têm no cotidiano

O Brasil chegou na quinta-feira (28) à estarrecedora marca de 400 mil mortos por covid-19. O país atingiu o número apenas 34 dias depois de chegar a 300 mil óbitos. Ass estatísticas são assombrosas e o impacto cotidiano se sente nas recorrentes notícias de falecimentos na família, entre amigos ou nos posts de conhecidos nas redes sociais. O tema “morte” não sai da pauta.

Ao mesmo tempo, como que em uma realidade paralela, milhões de pessoas por todo o país continuam a optar por levar uma vida normal. Desafiam barreiras sanitárias em praias, se aglomeram em bares, postam fotos festivas no Instagram e circulam no espaço público sem máscaras.

No estado de São Paulo, durante a fase emergencial decretada pelo governo estadual entre 15 de março e 11 de abril, a taxa de isolamento social nunca passou dos 51%, sendo que o máximo registrado ao longo de toda a pandemia foi de 59%. Para especialistas, apenas acima de 70% a medida teria alguma eficácia.

As consequências do descuido são bem conhecidas. Na virada do ano de 2021, as redes sociais foram tomadas por imagens de festas, celebrações e comércio lotado, comportamentos que contribuíram para a aceleração intensa da pandemia nos primeiros meses do ano.

“O Brasil é um país que não consegue se colocar em luto; pelo contrário, coloca-se em festa. De fato, há uma negação da morte pelas autoridades, sobretudo pelo presidente. É muito triste. Estamos falando de quase 1,5 milhão de pessoas atingidas diretamente pelas 200 mil mortes. É um completo desprezo coletivo por essa tragédia”, afirmou em janeiro de 2021 ao Nexo o epidemiologista Dário Frederico Pasche.

A psicóloga comportamental Martha Hubner afirmou ao Nexo que as atitudes mudam de pessoa para pessoa e dependem de diversos fatores. “É um fenômeno que caminha junto com a postura e a história de cada um. Então as pessoas que têm uma história de sensibilidade, um preparo educacional, uma postura política de enfrentamento da covid, praticam isolamento social e se protegem, essas são pessoas que se sensibilizam, elas não se acostumam”, disse.

“Como a consequência da pandemia é invisível, você não sabe se foi contaminado ou não, ou como o número de mortes, em geral, é de pessoas que não são próximas, a tendência é as pessoas seguirem ideologia”, disse Hubner, que é professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia e da Associação Internacional de Análise Comportamental.

O papel dos discursos políticos
A atitude de descaso emana do governo federal desde o início da pandemia, expressa em inúmeras declarações do presidente Jair Bolsonaro, incluindo a classificação da covid-19 como “gripezinha”, declaração de que “morre gente todo dia” e o fato de que o mandatário raramente manifesta pesar pelos milhares de óbitos de cidadãos.

Mais do que isso, a narrativa bolsonarista diante da pandemia é centrada na preocupação individualista de que cada um deve tocar a vida independentemente da situação sanitária. Com medo do impacto da doença na economia, Bolsonaro apostou no discurso de que as pessoas não podem parar de trabalhar. Seu uso político dessa narrativa colocou governadores na defensiva, pressionados para não adotar em seus estados o lockdown, medida recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e realizada em países que vêm aliando reabertura com queda de casos e mortes, como Israel e Reino Unido.

“Não tivemos de fato nenhum lockdown. Parece que tudo é feito de modo a não perder nenhum voto, num misto de critérios, uma hora saúde, outra eleição. A gente tem excelentes cientistas, excelentes médicos, temos uma ciência muito bem construída, mas temos uma política péssima, que influencia o modo como lidamos com a pandemia”, pontuou Hubner ao Nexo.

A especialista mencionou uma pesquisa realizada nos EUA que mostra as diferenças entre apoiadores dos partidos Republicano e Democrata na adoção dos protocolos anti-covid. Entre os democratas, cujos políticos tendem a ser menos negacionistas com relação à pandemia e seguidores da ciência, 94% usavam máscaras sempre ou muito frequentemente. Esse número cai para 46% entre os simpatizantes do partido Republicano, que tende a reunir políticos que relativizam a gravidade da covid e desdenham de protocolos.

A morte constante
Na quarta-feira (28), a média móvel de óbitos no país por covid-19 chegou a seu 43º dia acima de 2.000. Em outras palavras, a cada dia e meio morre o equivalente ao número de vítimas do atentado ao World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, quando 2.977 vidas foram perdidas.

Um dos efeitos de se conviver com a tragédia diariamente pode ser uma deterioração da saúde mental. Um levantamento do Instituto Ipsos divulgado em abril de 2021 mostrou que 53% dos brasileiros acreditam que suas condições mentais pioraram no último ano. A nível global, o país só perde para Itália (54%), Hungria (56%), Chile (56%) e Turquia (61%).

“De fato, vemos como isso é um problema aqui no Brasil (com as pesquisas), e a situação atual da pandemia tem pesado muito”, afirmou à BBC Helena Junqueira, gerente de pesquisas digitais do Ipsos. “As notícias são muito tristes, e (com o isolamento social e a perda de redes de apoio) as pessoas têm perdido as estratégias para lidar com isso.”

“É absolutamente estressante você conviver com a necessidade diária de sobreviver. A sensação constante de perigo aumenta a ansiedade e o estresse e diminui a alegria, a vontade de se divertir. Então, um efeito a médio prazo seria essa piora da saúde mental”, ponderou ao Nexo a psicóloga Martha Hubner.

“Então, para sobreviver, em termos de saúde mental, você precisa criar estratégias de buscar suas alegrias individuais, de ter dentro de casa um ambiente que possa ser acolhedor, que você possa fazer em casa suas atividades preferidas, filmes, contatos online com seus amigos, buscar o afeto e algumas alegrias. Se você for uma pessoa sensata e tiver uma história de vida de afeto bem desenvolvida, foi amada e ama, você vai sofrer. E o sofrimento contínuo pode levar à depressão”, afirmou.

Particularidades brasileiras
Ao redor do mundo, países registram respostas muito diferentes de suas populações ao desafio da pandemia. Adesão a protocolos e respeito a diretrizes sanitárias podem variar de lugar para lugar, sendo determinantes para o quadro pandêmico regional.

Sendo o Brasil o segundo país com maior número de mortes por covid-19 no mundo, ficando atrás apenas dos EUA, é possível localizar explicações para as trágicas estatísticas em comportamentos típicos da população local.

“Então, a particularidade do Brasil que acho que interferiu negativamente é essa coisa de que tudo termina em pizza, cerveja e Carnaval, ‘vamos em frente, vamos pra praia, fazer festas’. Essa característica alegre, de uma alegria um pouco infantil, que é boa em tempos normais acabou nos prejudicando porque muitos demoraram a levar a sério tudo que estava acontecendo”, disse Martha Hubner.

“Torço para que o Brasil se torne mais sério depois de tudo isso, que saibamos enfrentar o sofrimento, que saibam respeitar o sofrimento coletivo e que as pessoas não fiquem no seu egoísmo, tentando dar um jeitinho”, afirmou a psicóloga comportamental. “Espero que a gente tenha amadurecido, porque o sofrimento amadurece.”

“O brasileiro é um povo que ama pessoas e é eminentemente alegre. Estamos sendo comandados pessimamente, então a população que não se informa muito e que fica à mercê da liderança maior tende a achar que o pior já passou, que isso tudo é normal. Essa particularidade política do Brasil tem feito com que a gente tenha prolongado muito a pandemia, tenha se tornado epicentro e vergonha”, disse Hubner.

Publicado originalmente em Nexo Jornal

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